19 de nov de 2011

Dia da Consciência Negra: homenagem ao Almirante João Cândido

 

O blog Educar Sem Violência, na véspera do dia da Consciência Negra e dos 101 anos da Revolta da Chibata, homenageia o valente almirante João Cândido que lutou pela abolição dos castigos físicos na Marinha Brasileira

 

Bravo almirante, que sua coragem nos inspire e fortaleça!

João Candido a luta pelos DH

Você começou e nós continuaremos a luta pela erradicação dos castigos físicos e humilhantes em nosso país. Nossas crianças e adolescentes, como os marinheiros de sua época, devem ser tratos com respeito e dignidade.

 

O ALMIRANTE NEGRO

Um Homem Simples que Tornou-se o
Primeiro Herói Brasileiro do Século XX

 

clip_image001

 

No ano de 1910, mais de 200 marujos agitaram a baía de Guanabara, ao se apoderarem de navios de guerra para exigir o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil, herança do período imperial, onde essa arma era tida coma a mais importante e dirigida pelos mais "aristocráticos" oficiais. Foi a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, o Almirante Negro.

João Cândido simbolizou a luta pela dignidade humana. Sua coragem, no entanto, teve um preço alto demais. O mestre-sala dos mares foi um divisor de águas na Marinha. Graças a ele, a chibata nunca mais foi usada. Ele marcou seu espaço na história deste país.

 

 

 

 

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
Composição original

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias

 

Revolta da Chibata

Em 15 anos de carreira militar, João Cândido fez várias viagens pelo Brasil e por vários países, mas a que maior influência teve sobre ele foi para a Grã Bretanha em 1909, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro. Lá, além de vivenciar a diferença com a qual eram tratados os marujos britânicos e os brasileiros, tomou consciência da revolta do navio russo Encouraçado Potenkin, em 1905.

Ainda na Inglaterra, João Cândido montou clandestinamente um Comitê Geral para preparar a revolta. Esse comitê se ramificou em vários comitês revolucionários em diferentes navios. Em 1910, no Rio de Janeiro, se junta ao comitê Francisco Dias Martins, o Mão Negra, que havia ficado conhecido pela carta que escreveu sob este pseudônimo, denunciando a chibata.

Na noite de 22 de novembro de 1910, amotinou-se a tripulação do Encouraçado Minas Gerais. Quando o comandante retornou de um jantar em navio francês, tentou resistir e foi morto a tiros e coronhadas. Além deles, outros cinco oficiais foram executados. Alertados por um tenente ferido, os oficiais do Encouraçado São Paulo debandaram para terra e essa unidade da Armada também aderiu ao levante. O mesmo aconteceu com o Deodoro e com o Cruzador Bahia, além de embarcações menores, fundeadas na Baía de Guanabara.

Na manhã do dia 23, de posse dos navios e das armas, os marinheiros sublevados apresentaram ultimatum, ameaçando abrir fogo sobre a Capital Federal. João Cândido, o Almirante Negro, como ficou conhecido, liderava a revolta e a redação do documento foi de Francisco Dias Martins. Dizia a carta:

João Candido a Carta

 

 

"O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas."

"Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República e ao ministro da Marinha. Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem."

 

 

A traição

João Candido o Jornal

 

Surpreendido e temendo o combate, o Estado brasileiro na pessoa do marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República, aceitou as exigências dos revoltosos. Mas a estratégia do governo ficaria clara alguns dias depois.

Hermes da Fonseca abole os castigos físicos e promete anistia para os que se entregassem. Os marinheiros depõem as armas e sucede-se o que sempre acontece quando se confia em um Estado reacionário.

A reação desencadeou feroz perseguição aos marinheiros revoltosos. Às dezenas, os marujos foram encarcerados em porões de navios ou nas masmorras da Ilha das Cobras. O barco de guerra Satélite foi palco de numerosos fuzilamentos.

João Candido no porto

 

 

Já no dia 28 de novembro, alguns marujos são expulsos da Armada por serem "inconvenientes à disciplina". No dia 4 de dezembro, quatro marinheiros foram presos acusados de conspiração.

 

Muito desorganizados, no dia 9, os fuzileiros navais da Ilha das Cobras sublevam-se e são duramente bombardeados, mesmo tendo hasteado a bandeira branca. Dos 600, sobrevivem apenas cem. Na sequência, vários foram desterrados e condenados a trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, sendo que sete foram assassinados no caminho.

O ódio zoológico nutrido pela oficialidade da Marinha a João Cândido manteve-se irretocado e foi renovado ano após ano. Em 6 de dezembro de 1969, o líder da rebelião da esquadra de 1910 faleceu sem receber nenhum centavo da marinha.

Ainda na década de 1970, a reação destilava seu veneno contra João Cândido e seus companheiros. A censura do gerenciamento militar mutilou a bela música de João Bosco e Aldir Blanc, O mestre sala dos mares, trocando as palavras marinheiro por feiticeiro, almirante por navegante, bloco de fragatas por alegria das regatas, e outras mais, tirando muito de sua força.

 

João Candido Monumento em Preto e Branco

Homenagem, ainda que tardia

Em 22 de Novembro de 2007, quando se completaram 97 anos da Revolta, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao "Almirante Negro" nos jardins do Museu da República, antigo Palácio do Catete. A estátua, de corpo inteiro, de João Cândido com o leme em suas mãos, foi afixada de frente para o mar.

Em 24 de julho de 2008, 39 anos depois da morte de João Cândido, publicou-se, no Diário Oficial da União, a Lei Nº 11.756 que concedeu "anistia" ao líder da Revolta da Chibata e a seus companheiros. No entanto, a lei foi vetada na parte em que determinava a reintegração de João Cândido à Marinha do Brasil o reconhecimento de sua patente e devidas promoções e o pagamento de todos os seus direitos e de seus familiares.

Em 20 de Novembro de 2008, a estátua do Almirante Negro foi retirada do Palácio Catete e colocada na Praça Quinze de Novembro, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Lá, às margens da Baia da Guanabara, a imponente figura de João Cândido certamente está mais à vontade, entre os populares que passam e param para lhe render homenagem, entre tantos filhos do povo como ele negros, pobres, explorados, revoltosos.
 


Os textos dessa postagem foram retirados dos sites abaixo:

Nova Democracia 

Suapesquisa.com 

Portal de Itaipu


2 comentários:

  1. Meu nome é Benedito Oliveira, fui marinheiro do quadro de máquinas, nº 812068.79, servi na Esquadra por quase quatro anos, de 1981 a 1984, sei bem o que é o ranço intestino dos oficiais pelas classes subaltenas, jovens sádicos que humilhavam apenas pelo prazer e reafirmar o poder de uma classe sobre o outra, e não pela nobreza de comandar; até parecia que não éramos brasileiros. Mesmo tendo bom comportamento e boa aptidão para a carreira fui dispensado por ex-offício e até hoje busco uma explicação, recebendo como resposta apenas o silêncio e a omissão que são as marcas dos covardes. Agora com a lei do fim do sigilo e a comissão da verdade peço a algum advogado que entre em contato comigo. Tel. (12) 92386879

    ResponderExcluir
  2. Benedito Oliveira4 de julho de 2012 16:20

    Meu nome é Benedito Oliveira, fui marinheiro do quadro de máquinas, nº 812068.79, servi na Esquadra por quase quatro anos, de 1981 a 1984, sei bem o que é o ranço intestino dos oficiais pelas classes subaltenas, jovens sádicos que humilhavam apenas pelo prazer e reafirmar o poder de uma classe sobre o outra, e não pela nobreza de comandar; até parecia que não éramos brasileiros. Mesmo tendo bom comportamento e boa aptidão para a carreira fui dispensado por ex-offício e até hoje busco uma explicação, recebendo como resposta apenas o silêncio e a omissão que são as marcas dos covardes. Agora com a lei do fim do sigilo e a comissão da verdade peço a algum advogado que entre em contato comigo. Tel. (12) 92386879

    ResponderExcluir

Participe! Adoraria ver publicado seu comentário, sua opinião, sua crítica. No entanto, para que o comentário seja postado é necessário a correta identificação do autor, com nome completo e endereço eletrônico confiável. O debate sempre será livre quando houver responsabilização pela autoria do texto (Cida Alves)