28 de abr de 2016

Aos vencedores, meu escarro - Berenice Bento

“(…) Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vintes anos de amor desperdiçado, longe do país que não nos quis (…)”. 31 de janeiro: “(…) Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.” 14 de março: “(…) E digo no meu inglês péssimo que se a realidade nos alimenta com lixo, a mente pode nos alimentar de flores (…)”.
 Caio Fernando Abreu - Ovelhas negras

Entre a vontade de cuspir, vomitar que eu tivera várias vezes ao longo destes dias, o texto do Caio, agora, me levou às lágrimas. Todos os meus fluídos são políticos. Caio me transportou para os anos de 1980 quando escrevíamos nos muros do Rio de Janeiro, fugindo da polícia, minha/nossa poesia: Liberdade para os presos políticos! Abaixo a Lei de Segurança Nacional!  Anistia ampla, geral e irrestrita!

Lembrei-me de saudosos professor@s que contavam as mazelas de suas vidas no exilio, a tortura, a mutilação psíquica, a saudade do feijão com arroz, a dificuldade com a língua estrangeira, a fome, a prisão, o frio.  Foi pelas mãos de Caio que vi a história transformar-se em agora, como afirmou Walter Benjamin. O passado reatualizado.

Agora que as lágrimas se foram evoco antropofagicamente Olga Benário, Pagu, Margarida Dias, Dandara dos Palmares: cuspir é pouco. Para os “vencedores”, o nosso escarro.


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Berenice Bento
De uma nação de técnicos de futebol, passamos a um país de president@s da república. Nunca antes a minha vida tinha sido tomada por uma pauta exclusiva: o debate sobre o impedimento da Presidenta Dilma. Minha filha, estudantes, familiares, amig@s, ativistas, não ativistas, pessoas desconhecidas, todas querem discutir os rumos da vida política nacional. Eu me pego em devaneios e em desejos loucos. Como seria bom se tivéssemos redes de notícias e discussões qualificadas espalhadas e democratizadas em todo o território nacional.
Talvez por maldição do meu ofício não consiga parar de fazer pesquisa, de perguntar, tentar entender. Nas últimas semanas este meu lado foi potencialmente atiçado. No ônibus, no táxi, na fila do supermercado sempre a mesma pergunta: você sabe por que @s deputad@s votaram pelo impedimento da presidenta Dilma?  As respostas podem ser representadas por uma reta, tamanha sua constância: porque ela roubou!  A conexão entre a (desaparecida – ou será falecida?) operação Lava-Jato e a votação do dia 17 é imediata.
O Dia da Vergonha Nacional, 17 de abril, produziu efeitos dolorosos em minha subjetividade e corpo. O dia seguinte foi de ressaca. O mar carioca estava em conexão com minhas entranhas. Entrou em revolução. Dias de ressaca, de destruição. Anos de luta pela democracia. Mas a destruição só revela a própria fragilidade desta coisa mítica chamada “democracia representativa”. E eis que se descobre que menos de 10% d@s deputad@s foram, de fato, eleitos. Coisas estranhas acontecem no reino da democracia representativa, não? O cheiro de podridão que exala da Casa do Povo faz da astuta Lady Macbeth uma iniciante. Ali, diante dos nossos olhos, ouvidos, peles, sangue, saliva, aquelas criaturas esfregando em nossas caras a farsa da suposta democracia representativa.
Entre cusparadas, vômitos espalhados em praças públicas, terminei aquele domingo com dores e hematomas internos. Pelo resultado? Sem dúvida. Mas era (e continua sendo) algo mais profundo, meio sem nome. Vi minha filha envolvida em uma discussão sem fim com um parente próximo que defende, com uma convicção religiosa, o nazista do Bolsonaro.  Escutei pessoas tão próximas, tão minhas, afirmando que estamos vivendo o ápice da democracia.  De fato, meu desejo por uma mídia hegemônica qualificada não passa de um devaneio.
escarro_berenice_site
Ainda estou meio nocauteada. O Brasil é um desafio para a análise política e social. A culpa é da Rede Globo! Sem dúvida, reconheço o papel nefasto desta organização (criminosa). A culpa é da esquerda por suas políticas de aliança com os representantes políticos da burguesia nacional. Outra boa explicação. Desconfio, no entanto, que haja algo mais estrutural e estruturante que está para além das explicações binárias e de viés puramente economicista, como apontou o sociólogo Richard Miskolci em conversa informal.
Não podemos cair no canto da sereia de uma análise marxista que reduz tudo ao nível dos interesses econômicos. No Brasil, é impossível discutir Nação, projeto de Estado, relações econômicas sem acionarmos raça, gênero e sexualidade.
Para aliar as dores internas escolhi o livro Ovelhas negras, de Caio Fernando Abreu, para me ajudar a atravessar a semana. O livro reúne textos escritos em momentos diferentes de sua vida. Lixo e Purpurina, de 1974, é um diário de seus dias de exílio em Londres. Dia 28 de janeiro de 1974 Caio nos conta:
“(…) Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vintes anos de amor desperdiçado, longe do país que não nos quis (…)”. 31 de janeiro: “(…) Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.” 14 de março: “(…) E digo no meu inglês péssimo que se a realidade nos alimenta com lixo, a mente pode nos alimentar de flores (…)”
Entre a vontade de cuspir, vomitar que eu tivera várias vezes ao longo destes dias, o texto do Caio, agora, me levou às lágrimas. Todos os meus fluídos são políticos. Caio me transportou para os anos de 1980 quando escrevíamos nos muros do Rio de Janeiro, fugindo da polícia, minha/nossa poesia: Liberdade para os presos políticos! Abaixo a Lei de Segurança Nacional!  Anistia ampla, geral e irrestrita!
Lembrei-me de saudosos professor@s que contavam as mazelas de suas vidas no exilio, a tortura, a mutilação psíquica, a saudade do feijão com arroz, a dificuldade com a língua estrangeira, a fome, a prisão, o frio.  Foi pelas mãos de Caio que vi a história transformar-se em agora, como afirmou Walter Benjamin. O passado reatualizado.
Agora que as lágrimas se foram evoco antropofagicamente Olga Benário, Pagu, Margarida Dias, Dandara dos Palmares: cuspir é pouco. Para os “vencedores”, o nosso escarro.
Fonte: Revista Cult

A negação do golpe, assim como houve a negação da tortura - Washington Luiz Araújo


"Durante a parada militar de Belo Horizonte [década de 1970], que mostrava a formatura da primeira turma de alunos da Guarda Rural Indígena, um homem aparecia sendo carregado em um 'pau-de-arara', um dos instrumentos de tortura mais utilizados da época" (Museu de Imagem).

“Augusto Boal foi preso e torturado em 1971, tendo se exilado posteriormente. Um dos motivos para a sua prisão foi este: enviar correspondência para o exterior denunciando o golpe e as práticas de tortura no Brasil. Falecido em 2009, Boal sempre recordava o surrealismo de sua prisão. Um dos interrogadores lhe disse que ele estava sendo torturado pelo fato de manchar a imagem do governo militar ao denunciar para o exterior que havia tortura no Brasil. Mesmo passando por uma sessão de choques elétricos, Boal não deixou de rir da situação” (Washington Luiz Araújo, jornalista).

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Por Washington Luiz Araújo, jornalista

“A história não se repete, ela só transforma em personagens de farsa aqueles que acreditam que não há nada de novo sob o sol. Os exemplos de ontem tanto podem ser um acúmulo quanto um obstáculo. Temos que decifrar urgentemente a esfinge do momento presente. Só assim, talvez, o leque volte a se abrir.” A declaração é de Julian Boal, filho do dramaturgo Augusto Boal e de Cecília Boal, feita à  revista “Carta Capital” em novembro de 2014, por ocasião dos 50 anos do golpe militar.   Quase dois anos depois dessa manifestação de Julian,  muita coisa aconteceu  no país – e para pior. O golpe está  aí, arrombando nossas portas. O pai  de Julian Boal foi uma das vítimas de um outro golpe que, sim, também negavam que era golpe, o civil-militar tristemente inaugurado em 1964 e só enterrado em cova rasa em 1985.
Augusto Boal foi preso e torturado em 1971, tendo se exilado posteriormente. Um dos motivos para a sua prisão foi este: enviar correspondência para o exterior denunciando o golpe e as práticas de tortura no Brasil. Falecido em 2009, Boal sempre recordava o surrealismo de sua prisão. Um dos interrogadores lhe disse que ele estava sendo torturado pelo fato de manchar a imagem do governo militar ao denunciar para o exterior que havia tortura no Brasil. Mesmo passando por uma sessão de choques elétricos, Boal não deixou de rir da situação.
Era verdade:  Boal, sempre que podia, antes e na cadeia, informava  os colegas escritores e dramaturgos estrangeiros sobre a situação no Brasil. Em razão disso, vários intelectuais, entre eles  Arthur Miller, assinaram manifestos contra a ditadura brasileira e contra prisão do dramaturgo.
Como disse Julian Boal, “a  história não se repete, ela só transforma em personagens de farsa aqueles que acreditam que não há nada de novo sob o sol”. Recentemente, os golpistas desta nova intentona à democracia brasileira  ficaram alvoroçados com a possibilidade da presidenta  Dilma Rousseff ir à  ONU  denunciar o golpe em franca marcha. Enviaram até dois deputados federais golpistas para tentarematrapalhar o que consideravam uma ameaça. Dilma respeitou a liturgia da reunião da ONU e não falou explicitamente sobre o golpe naquele momento, mas à  tarde, numa entrevista coletiva na Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, deixou claro que, sim, estamos sendo vítimas de um golpe.
Incomoda muito aos golpistas serem chamados de… golpistas, bem como incomodava demais aos torturadores serem tachados de… torturadores.
Numa guerra, a primeira vítima é a verdade.  Outra  vítima da ditadura militar, esta fatal, foi a figurinista Zuzu Angel, que fez campanha internacional denunciando o assassinato, nas mãos de torturadores, do filho, Stuart Angel. Zuzu também foi assassinada, pelo simples motivo de expor ao mundo a ditadura que matou seu filho.
Neste momento, no Brasil, os golpistas sentem a porrada com a reação internacional ao golpe. Não contavam com essa, pois já tinham aqui entre seus aliados a grande mídia nacional, que tenta ludibriar a população brasileira com a falácia de que o impeachment não é golpe.
Vamos continuar denunciando e agindo contra o golpe. Vejam as palavras de Augusto Boal, em 2003, a respeito da importância da divulgação de atrocidades como essa: “A campanha contra a ditadura fez bem internamente. Os presos se sentiram apoiados;  e a ditadura, com medo. Porque, se eles (os militares) fizessem  o que fizeram, e todo mundo ficasse calado e não tivesse havido repercussão internacional, eles iriam continuar”.
Depoimentos sobre Augusto Boal, sobre o teatro e o seu engajamento político.




Obs: Chico Buarque de Holanda  compôs com Francis Hime a música “Meu caro amigo”, lançada em 1976. É uma carta musicada em homenagem a Augusto Boal, o qual a recebeu numa fita cassete levada a Portugal por sua mãe. Conta-se que, no momento da entrega,  estavam presentes Darcy Ribeiro e Paulo Freire.
Clipe com a música, retratando alguns momentos da época.

Fonte: Bembolado, em 26 de abril de 2016.

27 de abr de 2016

Jair Bolsonaro é denunciado em Haia por crime contra humanidade - Migalhas, 27 de abril de 2016

Os escritores fizeram o que a justiça brasileira não foi capaz de fazer.
Salve a União Brasileira dos Escritores!



Presidente da UBE Durval de Noronha Goyos

União Brasileira de Escritores pede ao Tribunal Internacional que investigue o deputado por homenagear o coronel Ustra.

A UBE - União Brasileira de Escritores solicitou nesta quarta-feira, 27, ao Tribunal Penal Internacional de Haia, que inicie uma investigação contra o deputado Federal Jair Bolsonaro por crimes contra a humanidade.
No documento, a entidade conta que, em seu discurso durante a votação da presidente Dilma Rousseff, o deputado homenageou a figura do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi e "um torturador, a quem o parlamentar 'dedicou' seu voto em favor do impedimento diante de toda a nação brasileira em 17 de Abril de 2016".
Afirma que os atos cometidos por Ustra se tratam de crime contra humanidade, previsto no art. 7º do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. O dispositivo estabelece, entre outros, que é crime contra humanidade homicídio; extermínio; prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave; tortura; violação, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência sexual de gravidade comparável; e perseguição de um grupo ou coletividade identificável por razões políticas, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos, de gênero, outros.
Para a Ube, "pela homenagem ao coronel Ustra, e, por extensão, às suas obras e ações voltadas à prática da tortura, o deputado Jair Bolsonaro é um apologista evidente do crime de tortura". Por isso, deve responder pelo crime de responsabilidade consistente em "atos desumanos de caráter semelhante, causando intencionalmente grande sofrimento ou ofensas graves à integridade física ou à saúde mental ou física".
Segundo o presidente da entidade e sócio do escritório Noronha Advogados, Durval de Noronha Goyos Júnior, "a União Brasileira de Escritores acredita, ainda, que tal conduta de Jair Bolsonaro representa o ato desumano de infligir dor intencional e sofrimento mental sobre as vítimas do coronel Ustra e os membros da família dessas vítimas, assim como a comunidade brasileira e as pessoas em geral."
Veja a íntegra do pedido.
Fonte: Migalhas, em 27 de abril de 2016
Foto capturada no site do jornal Opção

26 de abr de 2016

Sobre cuspes, resistências, dilemas e incompletudes - Cida Alves


 “Não junto a minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Falo da resistência, da indignação, da “justa ira” dos traídos e dos enganados. Do seu direito e de seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas” (Paulo Freire).

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Por Cida Alves

Por reconhecer o meu "natural pacífico" e por princípios éticos acredito que os meios não justificam os fins. Nesse sentido, defendo o caminho da civilidade e do diálogo. Entretanto, existe um elemento temporal em alguns contextos de violência que reduz ao limite a potência da palavra.

Como praticar o diálogo no exato momento em que sofre um beligerante ataque físico ou verbal? Somos seres vulneráveis, nem sempre temos o controle total de nossos sentimentos ou reações corporais.

Há muito tempo, antes mesmo de começar a atender pessoas em situação de violência, um amável professor me disse uma coisa que muito me ensinou. Em um pedido, quase um alerta, falou:

- Quem for meu amigo, me amarre, pois se souber que minha filha foi violentada não sei o que farei com o estuprador.

Nessa fala simples, capturei algo muito profundo. Não se pode exigir sensatez e elegância aos ofendidos, aos violados. Ponderação? Será que é justo exigir essa virtude a alguém que está sendo brutalmente oprimido, lesado em sua integridade física ou psíquica?

As cordas que amarrariam meu terno professor é uma bela metáfora do que a luta contra a barbárie criou, uma estrutura de proteção* ao desatino, à vingança, ao olho por olho, dente por dente. Uma estrutura civilizatória que visa suplementar as forças e as resistências, para que a dor dilacerante experimentada pelas vítimas não rompam as comportas do desatino.

No ato ou na dinâmica violenta é quase imoral exigir das vítimas a interdição da violência. São os outros que precisam entrar nessa cena e interromper a barbárie. São os amigos da “turma do deixa disso”, os circunstancialmente mais fortes que segura o autor da violência, o segurança ou o policial que contem ou expulsa o violadores, as leis e a justiça que responsabilizam os dolosos.  

Nas cenas dos cuspes dos últimos dias, o fracasso não foi das vítimas! Mas sim das cordas que deveriam conter a sequência ininterrupta e brutal dos ataques. Sob um ataque violento, o que cabe à vítima é exercer o direito da defesa de sua integridade, ainda que seja por meios emocionalmente débeis ou primitivos. Não é justo exigir da vítima polidez e nobreza quando ela é violentada, oprimida.

A defesa da paz não pode ser pervertida pela ideia de subserviência ao opressor, nem tampouco à ideia de resignação ante a violência.

Sei que a defesa dos princípios éticos que negam a amoralidade presente na crença de que os fins justificam os meios me coloca sempre na berlinda. Uma defesa que pode doer, por que me coloca, como cuidadora de pessoas em situação de violência, a caminhar descalça em desertos de espinhos. Dilemas e contradições antecedem meus passos e compassos nessa caminhada cotidiana.

A personagem Amadeu Prado, do livro “Um trem noturno para Lisboa de Pascal Mercier, sintetiza a força de vida e de morte de alguns dilemas humanos. A este médico é levado o corpo moribundo do maior carrasco do ditador Salazar. Em uma pequena fração de minuto ele teve que decidir entre cumprir o seu juramento como médico – salvar vidas, ou livrar o povo português de toda a vilania do maior torturador de homens e mulheres da resistência à ditadura de Salazar.

A escolha dele foi pelos princípios de sua profissão. Todavia teve que pagar um altíssimo preço por salvar a vida de um tirano cruel. Sei que existem pessoas que viveram toda a sua existência sem aprofundar sua alma em dilemas como estes. As escolhas destas pessoas serão guiadas pelos prazeres imediatos, pelo conforto e privilégios da vida material ou simplesmente para se manterem na superfície das vaidades de seu status quo.  

Minhas escolhas, como as da personagem Amadeu Prado, não são orientadas por dogmas religiosos. Por alguma razão ainda estranha a minha própria consciência, minha subjetividade não consegue ser capturada por dogmas religiosos. Todavia, semelhante ao humanista médico português, não sei viver sem ouvir os sinos das catedrais, pois não sei pensar minha existência sem valores transcendentes, que valorizam os homens e as mulheres para além vida material, do dinheiro e do status quo.

A belíssima carta“REVERÊNCIA E AVERSÃO PERANTE A PALAVRA DE DEUS”, escrita pelo então estudante Amadeu Prado, expressa com profundidade o que penso sobre a ordem religiosa que pede as vítimas sua desumanização em nome de uma falsa paz.  

“Não sei viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor seco das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dela contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. [...] Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

Mas existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver: um mundo em que se demoniza o corpo e o pensamento independente e onde as melhores coisas que podemos experimentar são estigmatizadas e consideradas pecado. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os opressores e assassinos, mesmo quando seus brutais passos marciais ecoam atordoantes pelas vielas ou quando se esgueiram, silenciosos e felinos, como sombras covardes pelas ruas e travessas para enterrar, por trás, o aço faiscante no coração de suas vítimas. Entre todas as afrontas que se lançaram do alto dos púlpitos às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamento, esse desvairado e absurdo mandamento do amor para com o inimigo, serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a autoconfiança e para torna-las maleáveis nas mãos dos tiranos, para que não consigam encontrar forças para se levantar contra eles, se necessário, com armas.” (MERCIER, 2009, p. 178 e 179).

Exatamente como Amadeu Prado - personagem por quem me enamorei irremediavelmente e me fez ir até o fim do mundo (Fisterra, Galiza -ES), me rebelo contra um preceito do magnânimo Jesus de Nazaré. Jamais, jamais defenderei que as vítimas ofereçam a outra face a tirania do opressor. A minha escolha, como todas cheia de paradoxos e contradições, é de me posicionar ao lado das vítimas, mais ainda quando elas em sua desesperada autodefesa saem de si e se desatinam.

Por fim, quero deixar aqui o meu consolo, meu cafuné nos cabelos daqueles que tiveram que perder a estribeira porque a opressão foi longe demais. Para vocês, Jean Wyllys e Zé de Abreu, um trecho de uma música que muito me fortalece e emociona:

“Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor

Tristeza, camará”

Baden Powell e Vinicius De Moraes




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*É importante esclarecer que a defesa de estruturas externas de proteção (vínculos relacionais interditores e forças da justiça social) não tem como base a concepção hobbesiano de que o “homem é lobo do homem”. Não parto de uma epistemologia instintivista que pressupõe um determinismo na condição humana, ou seja, de que o homem é naturalmente violento. Minha argumentação tem como chão a concepção de que o homem é um ser inacabado, com potencialidades a serem desenvolvidas na intersecção entre suas heranças genéticas e sua experiência história. Nesse sentido, o homem é incompleto, não está pronto e é no coletivo, na relação com o outro que é possível a superação de suas fragilidades individuais.

Fontes:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa\Paulo Freire. – São Paulo: Paz e terra, 1996.
MERCIER, Pascal. Trem noturno para Lisboa\Pascal Mercier; tradução de Kristina Michahelles. – Rio de Janeiro: Record, 2009.

Recomendação de leitura:
Capítulos 1 e 3 - “O exílio de quem ousa denunciar as violências: o mito do homem naturalmente violento”, “A força da mistificação que idealiza os pais e faz os filhos negarem em si a própria percepção de seu sofrimento”, respectivos títulos da tese ALFORRIA PELOSENSÍVEL CORPOREIDADE DA CRIANÇA E FORMAÇÃO DOCENTE. 

Foto: imagem do filme "Um trem noturno para Lisboa, capturada no R7 

25 de abr de 2016

"O Calvário das Viúvas" - Mais fascista impossível!

"A covardia é a mãe da crueldade".
Michel de Montaigne


Prezados leitores e leitoras,

Venho de público fazer um esclarecimento. Compartilhei uma postagem realizada por uma professora da região sul do pais que citava uma fala do deputado de ultra direita Jair Bolsonaro sobre as feministas e o “Calvário das Viúvas”.

Todavia, alguns leitores pediram a fonte, enquanto aguardo a resposta da referida professora retirei a citação que envolve o parlamentar de ultra direita e acrescento alguns vídeos que ilustram o discurso fascista que defende torturador, misógino, racista e homofóbico dessa triste figura nacional.


Mais fascista impossível!















O Calvário das Viúvas foi "a limpeza" das mulheres do território pós-guerra. Quando os soldados nazistas invadiam as cidades europeias, estupravam mulheres e as mantinham sob ameaças. Mulheres viúvas ou que os maridos tinham partido para a guerra, eram submetidas a todo o tipo de "trabalho" para os soldados alemães. Após a liberação dos territórios ocupados pelos alemães dos países europeus, milhares de mulheres que tinham esse tipo de relacionamento com os soldados alemães eram retiradas de suas casas para serem expostas em praças públicas pelas mãos dos homens da família “tradicional brasileira” da cidade.


Era como a caça bruxa das impuras, se houvesse um indício qualquer, a mulher tinha sua cabeça raspada e era exposta em público como desgraça da nação. Muitas vezes só raspar a cabeça não bastava, eram despidas, abusadas, desenhavam a suástica nos seus rostos, ou queimavam a marca com ferro em brasa na testa.


Elas ficavam conhecidas como "nacionalmente indignas" e além da humilhação pública, sofriam penas de seis meses a um ano de prisão, seguida da perda total de direitos civis por mais um ano, quando ainda eram violentadas e insultadas nas ruas. Muitas não suportaram a vergonha daquela situação e sucumbiram cometendo suicídio. Há um registro não oficial na França de que mais de 300.000 se suicidaram na época.


Seus filhos foram usados indiscriminadamente para testar medicamentos não aprovados. Somente em 2005, o parlamento norueguês publicou um pedido formal de desculpas a essas vítimas inocentes e aprovou a compensação para as experiências no valor de 3 milhões de euros.


É isso que um homem que defende a moral e os bons costumes da família tradicional brasileira quer que aconteça com mulheres que decidem ter uma ideologia. É isso que defende um homem que prega a justiça com as próprias mãos, como faziam com o Calvário das Viúvas - uma população despejando ódio nos seres humanos, como sempre, mais vulneráveis: As mulheres. Jair Bolsonaro não é novo, ele é só uma reprodução dos mesmos homens de antes, do que sempre aconteceu. Uma repetição de um passado que lutamos tanto progredir, que nos indignamos quando abrimos um livro de história.


Será que ainda somos os mesmos inquisidores do Calvário das Viúvas? Será que ainda não evoluímos ao ponto de proporcionar direitos humanos outros? Ao ver que ele é eleito deputado com o maior número de votos do estado do Rio de Janeiro, acredito que não mudamos, só disfarçamos nossa inquisição interna com a hipocrisia de "cidadãos que querem a democracia".







Fotos: capturadas do blog AMORALNATO

23 de abr de 2016

Socorrei-nos Tom Zé, nestes dias de desencantos e de trevas necessitamos de sua genialidade quixotesca!



Senhor cidadão

senhor cidadão

Me diga, por quê

me diga por quê

você anda tão triste?
tão triste
Não pode ter nenhum amigo
senhor cidadão
na briga eterna do teu mundo
senhor cidadão
tem que ferir ou ser ferido
senhor cidadão
O cidadão, que vida amarga
que vida amarga.


Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantas mortes no peito,
com quantas mortes no peito
se faz a seriedade?




Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
se a tesoura do cabelo
se a tesoura do cabelo
também corta a crueldade”.

Tom Zé




Ilustração capturada AQUI

21 de abr de 2016

Como a ditadura sequestrou crianças e torturou famílias para obter delações - Guilherme Balza\Uol


Na fase mais violenta da ditadura militar brasileira, quando não mais restavam técnicas de tortura para arrancar delações de suas vítimas, os torturadores recorriam a um último expediente: usar os filhos dos presos políticos, fossem eles crianças ou mesmo bebês, na última tentativa para obter informações. Ou então, torturava-se em família: pais, mães, filhos, irmãos sofrendo juntos os horrores do cárcere.
Presa aos 26 anos no DOI-Codi (centro de repressão do Exército) de São Paulo, Maria Amélia Teles relembra o dia em que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra pegou nas mãos de seus dois filhos - Edson Teles, à época com 5 anos, e Janaina, com 4 - e os levou até a sala onde ela estava sendo torturada, nua, suja de sangue, vômito e urina, na cadeira do dragão. Na mesma sala estava o marido e pai das crianças, César Teles, recém-saído do estado de coma decorrente de torturas no pau-de-arara.
"Minha filha perguntava: 'mãe, por que você ficou azul e o pai verde?' Meu marido entrou em estado de coma e quando saiu estava esverdeado. E eu estava toda roxa, cheia de hematomas e ela viu aquela cor roxa como azul. Meu filho até hoje lembra do momento em que eu falava 'Edson' e ele olhava para mim e não sabia que eu era a mãe dele. Estava desfigurada", recorda Amelinha, como é conhecida.

Militantes do PCdoB, Amelinha e César foram presos juntos, em uma rua da Vila Clementino, na zona sul de São Paulo, e levados ao DOI-Codi, que funcionava na rua Tutóia, no bairro do Paraíso. "Eles gritavam: 'você está na Oban (Operação Bandeirante). Sabe o que é a Oban? É o Paraíso no inferno. Fica no Paraíso, mas aqui é o inferno'."

TORTURA NA INFÂNCIA E SUICÍDIO

Um caso emblemático quando se trata de crianças torturadas na ditadura é o de Carlos Alexandre Azevedo, preso com os pais em 1974 quando tinha apenas um ano e oito meses.

Segundo seu pai, Dermi Azevedo, ele foi torturado nas dependências do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, sofrendo lesões que permaneceram ao longo da vida. Ao longo da vida, Carlos Alexandre teve histórico de depressão e fobia social e acabou se suicidando em fevereiro do ano passado, ao ingerir grande quantidade de remédios.
Depois que os dois foram presos, os agentes da repressão dirigiram-se até a casa da família e sequestraram as duas crianças e a irmã de Amelinha, Criméia Almeida, grávida de oito meses de João Carlos Grabois (Joca Grabois), que foi torturado antes mesmo de nascer no cárcere: sua mãe levou choques elétricos na barriga.
Enquanto Amelinha e o companheiro enfrentavam como podiam as sessões de tortura, Edson e Janaina foram trancados em quartos dentro do DOI-Codi de onde ouviam gritos dos torturados e se assustavam com uma campainha que anunciava a chegada de mais um preso. "Quando tive a oportunidade de morar com eles novamente, vi que tinham pavor de campainha. Saíam correndo para dentro do banheiro, debaixo da cama. Porque achavam que era um soldado que iria levá-los para torturar."
A ameaça contra os filhos era constante, relembra Amelinha. "Houve momentos que eles falavam. 'você viu sua filha hoje? Não viu porque ela vai ser morta. Você vai ver ela num caixãozinho. Você quer um caixãozinho branco? De que cor você quer?".


"Diziam que éramos filhos de terroristas"

Adilson Oliveira Lucena, então com 8 anos de idade, tentava aprender as primeiras letras junto com a irmã gêmea Denise e a caçula Telma, de 3 anos, no dia 20 de fevereiro de 1970. O trio não podia frequentar a escola porque os pais viviam na clandestinidade. As aulas de alfabetização eram dadas pela mãe Damaris, maranhense e militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) assim como o pai Antônio Raymundo Lucena.
Os tiros na parte externa da casa dos Lucena em Atibaia (SP) assustaram a mãe e os filhos, que se esconderam embaixo das camas. Com o fim dos disparos, Adilson correu para fora e viu o pai baleado. "Ele estava sem camisa, tinha recebido muitos impactos de bala. Entrei chorando dentro de casa. Depois saiu minha mãe com a Telma no braço e eu senti um tiro. Acho que deram o último tiro de misericórdia nele."
O dia mais triste da vida da família também marcava o início de uma saga de perseguição, tortura e humilhação. Os três foram levados a uma delegacia policial no município, onde Damaris passou pelas primeiras torturas. "Fomos tratados como delinquentes. Tinha muita gente. A notícia correu a cidadezinha", relembra Adilson, hoje professor de espanhol.
Arquivo Pessoal
Antonio Raymundo Lucena, morto em 1970
Adilson afirma que foi levado mais de uma vez até a casa em que viviam, ainda suja de sangue e toda bagunçada, para ser interrogado pelos agentes. "Pegaram uma bainha de facão do meu pai e me bateram. Disseram que já tinham feito isso com outras crianças. Chorei muito."
Os filhos foram tirados da mãe pelos agentes da repressão, que não conseguiam achar um novo lar para as crianças em orfanatos e instituições de caridade. "Ninguém queria ficar com a gente. Diziam que éramos filhos de terroristas", conta Adilson, com os olhos marejados.
Arquivo Pessoal
Foto mostra os filhos de Antonio Raymundo e Damaris Lucena. Da esquerda pra direita, Adilson, Telma e Denise. A imagem estava em poder do Dops
As crianças acabaram sendo levadas para uma instituição de menores na zona leste da capital, "praticamente uma prisão", nas palavras de Adilson, que foi separado das irmãs. "Eram muitos maus-tratos, castigos. Não deixavam a gente ver televisão, desenhos animados. As portas tinham grades."
Após alguns dias, a viúva Damaris foi levada ao temido DOI-Codi de São Paulo, onde os filhos também estiveram. "Eles insinuaram que iriam torturar a gente na frente da minha mãe. Ela ficou louca. Tiveram que dar uma injeção para acalmá-la."
A liberdade das crianças, da mãe e de outros militantes veio por meio do sequestro de um cônsul japonês Nobuo Okuchi pela VPR. A família exilou-se no México e depois em Cuba. Até hoje não se sabe o paradeiro do corpo do pai. "Em todas as culturas têm-se o direito de enterrar seus mortos. Isso é uma coisa que não conseguimos até hoje. Nós queremos recuperar essa coisa da família, talvez um último ato de enterrar seu ente querido."

Tortura em família

O jornalista Ivan Seixas foi preso em São Paulo em 1971, aos 16, junto com o pai Joaquim Alencar Seixas. Ambos eram da linha de frente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), enquanto a mãe Fanny atuava no apoio da organização de luta armada. Pai e filho foram brutalmente torturados no DOI-Codi de São Paulo, com choques elétricos e espancamento na cadeira do dragão, para que entregassem companheiros. "Pareciam cachorros loucos. Me estraçalharam de porrada."

OUTRO LADO

Na entrevista, Ivan Seixas acusa os capitães do Exército Enio Pimentel Silveira e Dalmo Lúcio Cirillo, além dos ex-delegados da Polícia Civil David dos Santos Araújo e João José Vetoratto pelas torturas contra ele e pela morte do pai.

Seixas diz ainda que o coronel Brilhante Ustra comandava as torturas no DOI-Codi de São Paulo. Maria Amélia Teles afirmou que Ustra a torturou e levou os filhos dela para presenciar os atos de violência.

A reportagem conversou com Ustra por telefone e também enviou e-mail ao militar da reserva, mas ele se recusou a falar sobre as denúncias. O Exército também foi procurado, mas não emitiu posicionamento sobre as acusações contra os capitães.

David dos Santos Araújo foi procurado na Dacala, empresa de segurança mantida por ele no Campo Belo, zona sul de São Paulo. A reportagem deixou recado com um funcionário, mas não houve retorno.

Por telefone, Vetoratto negou ter torturado Ivan e matado Joaquim Seixas e afirmou nunca ter presenciado tortura no DOI-Codi. "É mentira dele. Ele era um moleque de 16 anos, nem cheguei a conversar com ele. Ele foi condenado pela Justiça Federal. Eu não fazia nada disso (tortura). Fiquei sabendo que ele foi preso com o pai, a mãe e as irmãs, não vi nenhum deles. Só o Ivan, um dia que estava indo até a sala do rádio."
Após horas de tortura, quando percebeu que havia anoitecido, Ivan "abriu" o endereço de sua casa, na confiança de que a mãe e as duas irmãs já tivessem deixado o local para escapar dos militares. As três, no entanto, ainda estavam lá e também levadas ao DOI-Codi, onde foram espancadas. Uma das irmãs foi violentada. "Elas foram colocadas em uma sala abaixo da sala de tortura para ouvir tudo."
Ivan conta que, ao deixar o centro de repressão com os militares para uma "simulação de fuzilamento", leu em um jornal pendurado numa banca que "o terrorista Joaquim Seixas" havia sido morto. "Eu pensei: 'mataram ou vão matar meu pai'".
Quando retornou ao DOI-Codi, viu Joaquim vivo, mas ele não duraria muito: seria morto durante uma sessão de tortura horas depois. "Eu ouvi a morte, a gritaria. Ouvi eles falando: 'não precisava ter matado'. É um diálogo que a minha mãe também ouve. Aí faz um silêncio, apagam-se as luzes, e descem com o corpo. A minha mãe vê pelo vitrô as roupas dele e a cabeça envolta em jornais."
Hoje o assunto é tabu na família Seixas. "Minha mãe já morreu. Com as minhas irmãs a gente conversa, mas é muito dolorido falar sobre isso. A morte do meu pai é evitada. Porque é muito chocante", diz Ivan.

"Infância raptada"

No mesmo dia em que o AI-5 (Ato Institucional nº5) foi decretado, em 13 de dezembro de 1968, Maria Auxiliadora Arantes foi presa em Pariconha, sertão de Alagoas, com os filhos André, de 3 anos, e Priscila, com 2. Militante da Ação Popular (AP), ela fazia trabalho de base junto a camponeses e indígenas daquela região.
A família foi levada ao Dops de Maceió e depois à cadeia pública da capital alagoana, onde ficaram por algumas semanas. "Era janeiro, fevereiro, um sol abrasador em Maceió. Os dois tinham diarreia o tempo todo, pegaram uma infecção grave. Não tínhamos assistência médica", relembra Maria.



Da esquerda para direita: Maria Auxiliadora, André, Priscila e Aldo Arantes
O trio ficou preso na Escola de Aprendizes Marinheiros, onde tinham direito a um banho de sol diário de uma hora. Depois, foram enclausurados em uma policlínica da Polícia Militar, onde a diversão das crianças era contar os ratos que atravessavam o pequeno pátio em que a família fazia os banhos de sol.
"A gente ficava brincando de contar os ratos. Naquela época passava o Tom & Jerry. Era um pátio de descarte do hospital, com lixo hospitalar, material cortante", relembra Maria, hoje psicóloga. Durante o cárcere, ela tentava entreter e educar os filhos com atividades lúdicas, como montar brinquedos com os objetos descartados do hospital.
Certa vez, conta Maria, um militar da Aeronáutica pediu para que ela lhe entregasse o garoto Edson. "Ele disse que eu estava presa, o marido também, e que não tínhamos como cuidar dos filhos. Nem respondi, comecei a tremer, abracei meu filho, fui andando de costas e corri até o quarto. Fiquei assustada. Passei a andar grudada neles." 
O ex-deputado Aldo Arantes (PCdoB), marido e pai das crianças, também estava preso, em outro presídio em Alagoas, o mesmo que serviu de cárcere para Graciliano Ramos durante o Estado Novo. A família ganhou a liberdade após cinco meses de detenção até ser inocentada em um tribunal local.
As crianças viveram com uma identidade falsa até 1976, quando os pais tiveram de explicar tudo após o episódio da chacina da Lapa, em que militares mataram três militantes do PCdoB na zona oeste de São Paulo. Na ocasião, o pai Aldo foi preso novamente. "Tive que entregar os dois ao tio, que os levou para a casa da avó em Belo Horizonte."
"Só com 11 ou 12 anos de idade as crianças foram saber quem eram, que tinham família, avós, tios. Eles tiveram a infância raptada pela ditadura."





Fonte: Uol notícias, em 31 de março de 2014.
Vídeo apresentado foi produzido pela Rede Record