31 de jan de 2016

historias da unha do dedão do pé do fim do mundo - Poemas de Manoel de Barros

Um Professor de Agramática*
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.








Colaboração: Eleonora Ramos, jornalista e coordenadora do Projeto Proteger - Salvador\Bahia

28 de jan de 2016

"Reiteramos: o futuro de Goiás não merece cassetete. Educação não é caso de polícia!" (NOTA DE REPÚDIO - UFG REGIONAL GOIÁS)

NOTA DE REPÚDIO - UFG REGIONAL GOIÁS
A Universidade Federal de Goiás, Regional Goiás, por meio de seu Conselho Gestor, vem a público expressar seu repúdio em relação ao uso de violência e truculência policial, com anuência do Governador do Estado e da Secretaria Estadual de Educação, para forçar a saída dos estudantes que ocupam algumas das escolas públicas estaduais.
 Consideramos que tais ocupações, protagonizadas pelos estudantes secundaristas, sujeitos alvo de todo processo educacional, constituem uma legítima forma de defesa e luta pelo caráter público e gratuito da educação no estado de Goiás. A forma como, desde o início, o governo do Estado tem tratado as ocupações, com uso de pressão psicológica nos estudantes, pressão nos professores, corte de energia elétrica e água, manipulação da opinião pública e, agora, nítida agressão física, perpetrada por agentes do Estado, evidenciam a pouca disponibilidade para dialogar acerca de decisões fundamentais em uma área tão importante como a Educação. Por sua vez, os estudantes tomaram a cena e denunciam a urgente necessidade de democratizar a gestão escolar, estabelecer o diálogo e espaços para participação estudantil.

Reiteramos: o futuro de Goiás não merece cassetete. Educação não é caso de polícia!

Cidade de Goiás, 27 de janeiro de 2016.

27 de jan de 2016

La Educación Prohibida - Germán Doin ¬Legendado em Português

"Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos, prestativos e responsáveis possa mudar o mundo. Na verdade, é assim que tem acontecido sempre."
( Margaret Mead )





"O atual sistema "PRUSSIANO" originado do padrão militar de educação da Prússia, no século 18, tem como objetivo gerar uma massa de pessoas obedientes e competitivas, com disposição para guerrear.

As escolas são colocadas no mesmo patamar das fábricas e dos presídios, com seus portões, grades e muros; com horários estipulados de entrada e de saída, fardamento obrigatório, intervalos e sirenes indicando o início e o fim das aulas.

Ou seja, o sistema educacional vigente acaba refletindo verdadeiras estruturas políticas ditatoriais que produzem cidadãos "adestrados" para servir ao sistema; nesses termos, qualquer metodologia educacional que busque algo diferente será "proibida".

Infelizmente, esse foi o modelo que se espalhou pela Europa e depois pelas Américas. Sua principal falha está em um projeto que não leva em consideração a natureza da aprendizagem, a liberdade de escolha ou a importância do amor e relações humanas no desenvolvimento individual e coletivo.

E aqui estamos agora, com este problema enorme nas mãos...

Assim, fracassados somos todos os que compactuamos direta ou indiretamente com esta verdadeira máquina de subjugar crianças e adolescentes inocentes.

Este documentário é o resultado de mais de 90 entrevistas realizadas em 8 países através de 45 experiências educativas não convencionais e um total de 704 co-produtores.

Um projeto completamente independente de uma magnitude sem precedentes, o que explica a necessidade latente para o crescimento e o surgimento de novas formas de educação.

Colabore você também, divulgando e compartilhando o vídeo em redes sociais, promovendo um debate no seu meio social".

Colaboração: Márcia Kafuri, psicóloga da Secretaria Municipal da Saúde de Goiânia

23 de jan de 2016

Amamentação, a metáfora perfeita do amor. Sou o seu alimento! ¬ La lactancia materna, la metáfora perfecta del amor. ¡Soy tu comida!


Caetano Veloso






















Esta postagem é para manifestar minha indignação, como pode uma coisa dessa! Tivemos que sancionar uma lei para punir quem reprimi a amamentação em público. 

É inacreditável, em pleno século XXI precisarmos de uma lei para legitimar a amamentação. Puritanos e moralista tiram suas mãos de nossa intensa e explicita relação amorosa com nossas crias. 

Não vamos esconder os nossos seios, eles não são pecadores, eles não são imorais. Eles são força vital!





Fotos: Walks of Motherhood” de Tammy Nicole 

19 de jan de 2016

Sobre a alegria: uma ética de amor à vida - Adriel Dutra


Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
e mais alegre!
BEETHOVEN, Ode to Joy (9ª sinfonia)




É espantoso o quanto falamos daquilo que nos entristece e pouco falamos daquilo que nos alegra. E se a gente tirar o dever à felicidade… não sobra quase nada além de vazio e tédio. Se tivéssemos a facilidade para falar das coisas que nos alegram assim como temos para falar das coisas que nos aborrecem certamente aquilo que a gente entende por relações sociais seria dinamitado. Que força é essa, de extraordinária vitalidade e potência criadora, que irrompe em nós e… Não é em busca dessas centelhas capazes de acender o fogo da vida que um homem abdica dos confortos gregários para se enredar pelas artes, pela filosofia, por modos insólitos e andarilhos de viver?  É preciso falar da alegria.

A história tradicional do pensamento dedicou páginas e mais páginas sobre um mundo de ideais (ver Pensamento representativo, corpo, forças…), e se falou de alegria foi em algumas notas de rodapés. Fomos engordando uma consciência com fantasmas, culpas e faltas. E é aqui que chegamos a uma triste constatação, a de que a neurotização da vida é cada vez mais dominante enquanto a alegria dorme, calada, muitas vezes ao nosso alcance, por boa parte do tempo… e por vezes ela acorda, e é como mágica, e a gente sente algo pulsando dentro de nós, e o rosto vai se suavizando, o corpo se tornando bailarino, a língua se poetizando, e as moléculas se agitando em nós… e a gente sente sopros de delícia saltando pela pele, porque “o mais profundo é a pele” (Paul Valery), e é por aí que se começa a endoidecer de alegria.
Clément Rosset* diz que a forma de viver sem alegria é a neurótica, a tristeza não pode ser o oposto da alegria, esta não exclui aquela. Apesar de inúmeras as maneiras de se enredar pela neurose, nela é comum uma vida que sempre se adia pela esperança de algo que ainda não é – a felicidade?
A criança se alegra facilmente. Ela não se envergonha nem tem medo de viver. A criança cai, se machuca, fica triste… mas não faz disso um erro da vida. Mas aos poucos vai pegando uma das tantas vias da neurose e o olhar do outro passa a ser vigilante, o medo de viver vai ganhando força e a vida está prontinha para ser acusada por conta dos aspectos entristecedores que podem envolver a existência, e assim o corpo vai se fechando aos sopros vitalizantes da alegria. “O olho vê somente o que a mente está preparada para compreender” diz Bergson, e quanta feiura não se vê quando compreendemos a vida a partir de perspectivas neuróticas e paranoicas?
Ainda que tenhamos sido potencializados aos modos neurotizados de viver, nós não somos mais crianças. E agora queremos ir à contramão, porque é feio ser compassivo com a neurose, é feio demais fazer de um certo modo neurótico de viver até mesmo uma “cura”. Então é preciso falar de alegria, não porque é necessário capturá-la enquanto objeto, a alegria depende do encontro, se faz enquanto vive, é uma ética da vida, portanto, não é falar de um ponto de vista racional.
A alegria como força ética da vida escapa a toda argumentação, falar da alegria aqui é enquanto dar passagem ao pensável. Tirá-la do impensável do qual ela permanece sepultada na tradição do pensamento é abrir rachaduras na crosta neurótica que fomos ganhando.
Por que não se fala sobre a alegria? Freud, que nas ciências dá um certo corpo teórico a psiquê, não dedicou uma página à alegria! Mas não se trata de Freud. Pode se passar uma vida escolar e acadêmica inteira sem nunca falar de alegria, até mesmo em um curso de psicologia é muito provável que não se terá uma aula sobre a alegria. É espantoso o quanto falamos daquilo que nos entristece e pouco falamos daquilo que nos alegra. E se a gente tirar o dever à felicidade… não sobra quase nada além de vazio e tédio.
Se tivéssemos a facilidade para falar das coisas que nos alegram assim como temos para falar das coisas que nos aborrecem certamente aquilo que a gente entende por relações sociais seria dinamitado.
Somos capazes de tecer longas discussões baseadas em trocas de acusações e nos deliciamos com o outro que se junta a nós para falar sobre os problemas da vida e nossos dramas edipianos e nossas chatices cotidianas. Facilmente nos enturmamos com estranhos na fila do banco para reclamar sobre o país, sobre o preço do combustível, sobre o outro, sobre as dores de viver. E se tivéssemos essa mesma facilidade para enturmar com os olhares e as bocas e os jeitos que certas pessoas com que cruzamos no dia a dia nos causam calafrios de bem-estar? Se tivéssemos… se tivéssemos a facilidade para falar das coisas que nos alegram assim como temos para falar das coisas que nos aborrecem certamente aquilo que a gente entende por relações sociais seria dinamitado.

Precisamos falar de alegria…
As forças do mundo farão de tudo para intimidar as vozes da alegria e promover modos entristecedores como formas organizadoras de vida. Que todos acusem a vida de erros e falem daquilo que entristece, mas não que se é triste. É por meio das formas entristecedoras que se pode capturar vidas em formas de anormalidade e patologia, promover políticas de controle e disciplina e deixar a cargo do poder a gestão de um bem-estar social.
Se dizemos que a alegria incomoda é porque ameaça as bases neurotizadas da sociedade. Na alegria não se conserva, se cria. O tempo da alegria é o instante. Não se economiza e nem se adia (ver Equilíbrio para ter qualidade de vida? Seja um desequilibrado), e o encontro com o mundo se dá tal como ele é. Por assim dizer, a alegria é revolucionária.
Dizer que se é triste em tempos de dever à felicidade é uma anormalidade. Nós achamos que não somos tristes porque se tem uma maneira muito moderna e sociável de estar entristecido enquanto se abre a boca e mostra os dentes brancos e alinhados em forma de sorriso, chamamos isso de felicidade.
Daí é necessário distinguir alegria de felicidade, não enquanto uma guerra entre vocábulos conceituais e nem de exclusão de um termo pelo outro, o mais fundamental é a compreensão do que se está em questão, e com isso também retiramos a alegria dos lugares banais dos quais ela é encerrada. Falar de alegria não porque gente alegre é bacana, é positiva, é saudável, porque quem é alegre não morre de câncer e tem melhor qualidade de vida. Esses tons meio de deveres costumam pertencer à felicidade que é um termo inventado pela modernidade e está ancorado enquanto projeto orientado para uma vida qualificada através de universais e consagrada para o consumo – de carros, de abridores de garrafa, de práticas de ioga, de ideias, de… O futuro é o tempo da felicidade que é algo que está por vir carregado nos braços da esperança.
A alegria é um estado de tanta vitalidade que perto dela a felicidade é uma anemia.
Se a alegria é uma força de criação a felicidade é uma força de inação que fica à espera de algo que nunca vem, e quando vem se esfarela frente à expectativa que se tinha. O vazio logo dá as caras e a produção da falta nunca cessa (ver Falta e culpa na sociedade do espetáculo).
Os inimigos da alegria são muitos, como é uma força inventiva e criadora ela não se presta à conservação e cristalização dos estratos neuróticos e paranoicos da sociedade. Já a felicidade não incomoda e desfila enquanto oferta por todos os cantos na sociedade do espetáculo, nunca se viveu tão secretamente a tristeza ao mesmo tempo em que mostrar uma vida apta a ser admirada e compartilhada abertamente nas redes socais é uma preocupação concreta. É importante que a felicidade não se efetive senão em pequenas doses, e que se faça de disponível para todos, assim se mantém o consumismo e o voluntarismo à servidão aquecidos. A alegria para o consumo seria uma insanidade, pois nela nada falta.
É preciso falar de alegria…

Fonte: Letra e Filosof, em novembro de 2015.

16 de jan de 2016

AFRICAN DANCE

Aquecendo os tambores para os desafios de 2016



Colobaração: Luciana Caetano - professora de dança

13 de jan de 2016

Porque somos um país tão violento? - por Marcelo Feijó de Mello

Um texto para reflexão
Longe de querer dar uma resposta final a esta questão, ciente de que a violência é uma questão multidisciplinar, como psiquiatra tenho pensado em contribuições para entender a epidemia de violência que assola nosso país a mais de 3 décadas.
Somos infelizmente um dos países mais violentos do mundo. Os números dos homicídios, assaltos, violência doméstica contra crianças e mulheres, violência contra as minorias são vergonhosos. Com relação as crianças não estou falando de tapinhas no bumbum, e sim como medimos, tanto no Capão Redondo e Sapopemba (SP) e sim em soco na cara, queimadura com cigarro, apanhar com bastão de ferro. Nas famílias de crianças que trabalhavam nas ruas, esta é a regra. O que aconteceu em nosso país, que aprendi ter um povo cordial e alegre, porque esta assim tão violento? Porque temos medo de sair as ruas? Que o Brasil foi violento no passado longínquo, é fato, mas também eram os países desenvolvidos, que hoje ostentam baixíssimos índices de violência. A evolução das culturas, no que chamamos de países desenvolvidos, parece ter um papel importantíssimo nesta redução da violência entre humanos. Teríamos regredido em algum ponto? Que crise é esta?
A socialização está diretamente relacionada ao desenvolvimento de um país. A socialização individual vai interferir na sociedade como um todo. Um indivíduo bem adaptado socialmente é aquele capaz de se relacionar, fazer alianças, trabalhar em conjunto. Quanto maior a capacidade de um indivíduo em se adaptar socialmente, mais bem-sucedido ele será no seu grupo. Um grupo será mais bem-sucedido, se houver uma maior parcela de indivíduos com maior capacidade de socialização. A adaptação social depende da habilidade que uma pessoa tem em expressar suas ideias e afetos para os outros, assim como ter a percepção mais acurada das intenções e pensamentos dos outros. Seria aquele indivíduo capaz de ler o outro e transmitir mais claramente duas intenções.
Um grupo, como um país, seria a reunião de indivíduos, que se entendem e são aceitos como parte integrantes do país. Nosso grupo seria de mais de 200 milhões de pessoas que se consideram brasileiros. Talvez estejamos com um número mais elevado de pessoas pouco adaptadas socialmente, isto refletiria neste desequilíbrio, que levaria a esta grande incidência de violências. Dentro das consequências do aumento da violência é a falência da sociedade em conter a atividade violenta, através de mecanismos sociais, legais e policiais. Com certeza os níveis de corrupção institucionalizada, vandalismos, desrespeito ao direito dos outros, chegando aos assaltos, agressões e homicídios, vem deste desequilíbrio.
A base desta capacidade de adaptação social se inicia logo ao nascer, quando o bebe nasce ávido para a interação. O bebe vem preparado para a conexão com sua mãe, imediatamente ao nascer, e esta se estabelece numa troca de uma série de biocomportamentos de toques, cheiros, sons, temperatura entre ambos. Estes comportamentos típicos de uma “conversa” sem palavras entre mãe e bebe, são fundamentais na formação da habilidade do indivíduo adulto se adaptar ao seu grupo. É um aprendizado da linguagem emocional e percepção da emoção das outras pessoas. Toda esta interação, é promovida por sistemas biológicos, como o sistema hipotálamo-pituitário-adrenal, o sistema de resposta de ocitocina, que determinarão permanentemente como este indivíduo responderá física e emocionalmente a várias situações de interação social na vida adulta. Neste período são moldados sistemas de termoregulação, imunológico, de resposta ao estresse e de apego.
O cérebro humano nasce imaturo, e esta avidez por interação é fundamental para o seu desenvolvimento. Nosso cérebro amadurece até os 20 anos de idade, e precisa de estímulos certos nos momentos certos para que este desenvolvimento seja saudável. O neurodesenvolvimento e o desenvolvimento psicológico são aspectos diferentes do mesmo processo: amadurecimento. A separação entre mente e cérebro é mais uma criação do homem para estudar o fenômeno.
Existem evidências muito consistentes que mostram que quebras nas interações precoces, nos primeiros anos de vida, marcadas pela falta dos pais, ou mesmo com sua negligência são extremamente danosas a criança. A presença de violência nas formas de abusos sexuais, físicos ou psicológicos marcam definitivamente esta criança para o resto de suas vidas. Estas marcas, não são somente psicológicas, mas também biológicas, afetando os vários sistemas de interação e defesa, que passarão a funcionar precariamente. As marcas dos traumas estão inscritas nos genes destas crianças, dentro do núcleo de suas células. Não na sequencia do genoma, que é o mesmo, mas na função dos genes, na mudança da estrutura do genoma, através de alterações ditas epigenéticas. Alterações que ligam ou desligam genes de um indivíduo.
A educação da criança é um processo longo e continuo de demonstração do espaço de cada um, de respeito ao outro e dos limites, que temos, incluindo as consequências, quando ultrapassamos nossos limites e invadimos o dos outros. Este processo passa da relação pai/mãe/filho, para os irmãos, colegas na escola e na adolescência, para um nível mais social quando o jovem vai achar o seu caminho e lugar no grupo, incluindo seu papel sexual.
O que vemos no Brasil acredito ser um fenômeno dentro de um ciclo vicioso da violência. Esta é transmitida já em casa, assim como a negligência. Os nossos índices de violência doméstica são muito mais elevados, que na maioria dos outros países. Aliado a violência, vemos o aumento do número de bebes em lares desestruturados, onde em muitos não há presença de um pai, e quando há, os filhos nem sempre são somente deles, abrindo portas para o abuso sexual. Filhos de mães adolescentes, com 12-13 anos, são crescentes, que não terão este aprendizado social inicial adequado, por serem filhos de crianças, geralmente com problemas, que levaram a gravidez precoce. A presença epidêmica de doenças mentais no Brasil, não tratadas, nas formas do alcoolismo, depressão e abuso de substâncias, estão associadas a violência doméstica e ao prejuízo nos cuidados das crianças.
Ao crescerem, as crianças que tiveram estes problemas têm muitas chances de também desenvolverem quadros mentais, assim como terem comportamentos criminais. Os números mostram que não é ao acaso, são cerca de 7 a 10 vezes maiores as chances de terem estes problemas mentais e criminais. A doença mental e a violência têm assim características epidêmicas. É isto oque ocorre no nosso país. E estamos num processo que se auto alimenta, ciclo vicioso da violência.
O melhor caminho para a reversão desta, é a meu ver a prevenção. Deveria existir um foco de atenção, nas crianças pequenas, ainda quando estão no útero, principalmente nas classes mais desfavorecidas, onde a violência doméstica é maior, assim como as taxas de natalidade. Um trabalho de prevenção da violência doméstica, de educação sobre os cuidados das crianças, ensinar que a violência física, não é um método educativo. Um foco especial com as meninas na prevenção da gravidez, e um suporte social, intenso para aquelas grávidas, para que estas não percam o caminho de suas vidas, nem de seus filhos. A prevenção da violência está intimamente ligada aos tratamentos psiquiátricos dos quadros associados. O acesso aos tratamentos efetivos, baseados em evidências deve acontecer, porque, também já medimos, que todos os gastos na prevenção, se tornam ineficazes, se os quadros mentais dos pais e das crianças não forem tratados. A prevenção não é cara, muito já poderia estar sendo realizado, temos lugares, leis e profissionais, mas é preciso que a sociedade esteja unida, participe e cobre do governo esta atitude. Precisamos de um plano efetivo, organizado, com gestão, longe do caos que se encontra nossos serviços públicos. Na realidade, isto é urgente, a cada dia a violência cresce exponencialmente, precisamos, quebrar o ciclo da mesma.

Colaboração: Lucena Rosa, psiquiatra e terapeuta.