31 de mai de 2012

Xuxa ficou grande–Gilberto Dimenstein


 

Giberto Dim

 

Giberto Dimenstein

 

Até o domingo passado, Xuxa era apenas uma daquelas celebridades cercadas pela futilidade da fama. Exibia uma infantilidade mercadológica de quem não sabia envelhecer. Sua principal mensagem com as crianças era intermediada pelo consumo, embora tivesse um trabalho social em sua fundação. Mas domingo ela ficou grande.


Ao ter a coragem de revelar traumas de seu passado, ela se despiu. Usou seu poder de celebridade para projetar, como nunca foi projetado no Brasil, o tema da violência sexual. Coincidiu com a divulgação de dados oficiais mostrando como é disseminado o abuso sexual nas famílias.


Há exatos 20 anos, divulguei uma investigação que realizei pelo Brasil sobre violência sexual contra meninas, intitulada Meninas da Noite, quando descobri o manto de silêncio e impunidade. Vi sobretudo que as vítimas sentiam-se não apenas envergonhadas, mas culpadas pelo abuso, muitas vezes acobertado pela mãe. Por mais que mostrássemos dados, relatos e até fotos, pouco ocorria, especialmente por causa desse silêncio das famílias e do desinteresse, em geral, da mídia.


Coube a Xuxa, com seu poder midiático, quebrar o silêncio e, quem sabe, fazer mais gente lidar com o problema e falar. Agiu, em suma, como uma educadora e ficou grande.

Ela foi protagonista em um daqueles marcos de consciência que ocorrem num país.

Aproveitando o tema da família: estudos nos Estados Unidos revelam que o hábito de jantar com os pais regularmente ajuda na estabilidade emocional das crianças e adolescentes, reduzindo o risco de abuso de drogas, gravidez precoce e depressão. Há um projeto criado em Harvard para detalhar essas descobertas (veja aqui). Daí se vê o impacto da família.


Gilberto Dimenstein

Enviado por Angelica Goulart, coordenação da Rede Não Bata Eduque em 29 de maio de 2012.

Fonte: Folha de São Paulo, coluna do Gilberto Dimenstein em 22 de maio de 2012 – 07h26

29 de mai de 2012

Educar para a autonomia e o empoderamento crianças e adolescentes, uma boa forma de proteger as crianças contra a violência

 

freire_desenho

“Não creio em nenhum esforço chamado de Educação para a Paz que, em vez de revelar o mundo das injustiças, torne-o opaco e tenda a cegar suas vítimas”.Paulo Freire, 1986.

 

 

xuxa

 

 

A revelação da apresentadora Xuxa Meneghel e os consequentes comentários advindos de sua fala me alertaram para a necessidade de realizar alguns esclarecimentos à população.

 

Nessa postagem trago alguns esclarecimentos sobre o sentimento de culpa que a menina Maria da Graça Meneghel sentiu e as justificativas que ela construiu sobre os constantes abusos sexuais que vivenciou em sua infância e adolescência.

Relato da Apresentadora:

“E até hoje, se você me perguntar por que aconteceu comigo, eu ainda acho que foi por minha culpa. (...) Talvez por ser muito grande, chamar muita atenção”.

ESCLARECIMENTO:

A violência sexual, como as demais violências que atingem crianças e adolescentes, é “virulentamente democrática” (AZEVEDO E GUERRA, 1995), ou seja, ela atinge ricos e pobres, brancos e negros, magros e gordos..... Não são as características físicas, socioculturais ou étnico-religiosas que levam um adulto a violar a integridade sexual de uma criança ou de um adolescente.

Nada, absolutamente nada no corpo, no jeito de ser ou de se comportar da criança e do adolescente justificam a ocorrência de violências sexuais.

Durante 15 anos atendi centenas de pessoas que foram vítimas de violências sexuais. Os atributos físicos e as condições socioculturais dessas pessoas variavam bastante. A minha experiência de atendimento na saúde publica não permite aceitar a caracterização que alguns terapeutas fazem das vítimas de abuso sexual, em particular o incestuoso, de que elas são pessoas extremamente atraentes e sensuais. Eu ouvi essa bobagem em uma mesa que tinha como título “O manejo do desatino” em um Congresso de Psicodrama em meados de 1998.

Ora, muitas meninas, mulheres e também meninos que atendi passavam longe desse estereótipo de sex appeal. Eu atendi bebês, senhoras idosas e pessoas com graves deficiências físicas e mentais.

 

Avó mãe e filha

Meninas, meninos e mulheres não culpem os seus atributos físicos, os seus jeitos de ser e agir e suas condições culturais pela violência que sofreram. Vocês não tem nada de errado, não se sintam sujos ou desqualificados! Que fique bem claro para vocês: a violação da integridade sexual, física ou mental ocorre porque alguns adultos decidem de forma consciente* tratar crianças, adolescentes e mulheres como objetos de suas necessidades e desejos. Eles violam, invadem e ferem o corpo e a mente de suas vítimas por que acham que pode agir assim.

A importância de educar as crianças e os adolescentes para a autonomia e o discernimento

Feitos os esclarecimentos acima, considero importante destacar uma situação que pode deixar vulnerável à violência ou à exploração sexual qualquer criança e adolescente, inclusive os nossos filhos e filhas.

De acordo com a pesquisa realizada pela psicóloga Karen Michel Esber (2009), os autores de violências sexuais costumam tratar bem as crianças, para conseguirem o que querem delas. Geralmente são simpáticos, “amigos” das crianças. São pais, padrastos, tios, mães, vizinhos e vizinhas – pessoas quase sempre “acima de qualquer suspeita”.

A pesquisa que a psicóloga Karen Esber fez junto aos autores de violências revelou boas pistas de como podemos proteger nossas crianças e adolescentes. Esses autores de violência sexual evidenciaram que, em uma relação de obediência cega às ordens de adultos, as crianças comumente guardam segredos acerca da violência a que estão sendo submetidas. Ao final de seu trabalho de investigação Esber faz o seguinte alerta:

“É urgente, portanto, reforçar a ideia da criança como sujeito de direitos, amplamente preconizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Concebê-la como tal não deve significar a perda do “poder” do adulto,(...) mas sim que ela deva ser educada para dar respeito e também receber respeito – o que é muito diferente da obediência cega comumente preconizada pelas famílias. A criança deve, portanto, ser orientada de que adulto nenhum está autorizado a cometer qualquer tipo de violação de direitos” ( p.195).

 

Frase pensar e não obedecer

 

A criança e o adolescente não tem que aprender a obedecerem os adultos. Temos que ensiná-las a respeitar os adultos, mas somente os que são realmente respeitáveis! Temos que ensiná-las a discernir o que é uma ordem justa de uma injusta. Essa última jamais deverá ser obedecida, pois desde cedo a criança precisa aprender a fazer escolhas e a se proteger e proteger os demais (Cida Alves).

 

VEJA ABAIXO O PENSAMENTO DE UM DOS PRECURSORES DA EDUCAÇÃO PARA PAZ

“(...) não posso dizer a meus alunos que a única maneira de amar a lei é obedecê-la. Só posso lhes dizer que devem honrar a lei dos homens de forma que as cumpram quando sejam justas ( isto é, quando são a força do fraco); quando virem, ao contrário, que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), terão de lutar para mudá-la” (MILANI, apud JARES, 2002, p 74).

Milani defende o princípio educativo da soberania individual, ou seja, a necessidade de incentivar a autonomia individual em vez da obediência cega, maneira tal que “cada um se sinta responsável por tudo” (MILANI, apud JARES, 2002, p 74).

 

Veja mais sobre os princípios da Educação Para Paz AQUI

Os dois princípios fundantes da Educação para a Paz:

  • A recusa da violência como forma de resolver os conflitos
  • A busca da coerência entre os fins e os meios

 

*exceto nos casos que em o autor de violência tenha um transtorno mental associado. Casos como esses representam uma pequena parcela do total, algumas pesquisas estimam que atinjam apenas 10%.

Fonte: ESBER, Karen Michel. Autores de violência sexual contra crianças e adolescentes/Karen Michel Esber – Goiânia: Cânone Editorial, 2009.

28 de mai de 2012

Xuxa e a doença do coração de pedra – Cristiane Segato

 

coração iluminado

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”.

José Saramago

 

 

 

cristiane segato

 

 

 

 

 

 

 

 

Cristiane Segato*

Ela revelou que muitos brasileiros sofrem de um mal degenerativo e paralisante

 

 

Todo médico é obrigado pelo Ministério da Saúde a notificar os casos de violência infantil que lhe chegam. No ano passado, foram registradas 14 mil agressões contra menores de dez anos. O abuso sexual somou 35% dos registros. Para um país com as condições sociais e a dimensão geográfica do Brasil, são números acanhados. Um sinal de que muita gente sofre em silêncio foi a reação popular ao depoimento de Xuxa ao Fantástico.

Em apenas dois dias, 220 mil denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes chegaram à Secretaria de Direitos Humanos. Muito mais que as 30 mil ligações feitas ao Disque Denúncia (Disque 100) nos primeiros quatro meses deste ano. Xuxa encorajou as vítimas a dar o primeiro passo. Agora, o Estado precisa ser capaz de acolhê-las, investigar o que dizem e, quando for o caso, punir os culpados.

Ao revelar sua história pessoal, Xuxa cutucou uma ferida nacional das mais vergonhosas. Mostrou também que parte da sociedade brasileira sofre de uma moléstia degenerativa e paralisante: a doença do coração de pedra.

A insensibilidade expressa aos borbotões nas redes sociais demonstra que só um desavisado ainda credita ao povo brasileiro qualidades gerais como caráter amigável e solidariedade. Se uma parte de nós ainda é assim, outra parte – coesa e ruidosa – é cruel, desumana, preconceituosa.

Tornou-se uma saída fácil atribuir todas as mazelas da sociedade brasileira à falta de educação. A economia melhorou, mas a sociedade só vai avançar quando o povo tiver acesso à educação. Preconceito se combate com educação. Ouvimos isso o tempo todo, não é mesmo?

Como se explica, então, que um rapaz com doutorado no Exterior se ocupe de distribuir nas redes sociais insultos contra Xuxa? Será que o problema dele é baixa instrução? Sendo ele um homem preocupado com as questões sociais, por que a denúncia de um crime cometido cotidianamente contra meninos e meninas não o sensibiliza? Se ele cultiva uma mente aberta, com neurônios capazes de juntar lé com cré, por que reage à revelação de Xuxa como o mais obtuso dos homens das cavernas?

Enxergo uma única explicação: preconceito. Contra a beleza, a riqueza e o sucesso. Se o mesmo depoimento, com as mesmas palavras, a mesma entonação, a mesma emoção saísse da boca de uma moça pobre e anônima provavelmente a reação do rapaz fosse outra.

Saudaria a coragem da vítima, ecoaria sua denúncia e culparia a hipocrisia da sociedade brasileira e a inépcia do governo. Sendo Xuxa a vítima, o que ela merece é o linchamento moral. Xuxa declarou ter sido abusada sexualmente até os 13 anos por alguns homens. Um professor, um amigo do pai, um homem que iria se casar com a avó dela.

A cada novo abuso, ela se imaginava culpada. Talvez fosse atraente demais, desejável demais, talvez merecesse demais. É exatamente essa mensagem que, agora, os linchadores fazem questão de reforçar: se foi abusada é porque mereceu.

Qualquer pessoa que faça um relato dolorido e corajoso como Xuxa fez merece respeito. No mínimo. Não interessa se é rica, pobre, bonita, feia, criança, adulta, homem ou mulher. Não interessa se o abuso de fato ocorreu ou se é uma fantasia, uma suspeita . Quem declara o que Xuxa declarou lida com um sofrimento atroz.

Os insensíveis não são capazes de perceber. Acham que ela não passa de uma imbecil. Uma mulher frívola que inventou uma história escabrosa para voltar à mídia no momento em que só lhe resta a decadência física e artística. Só um coração de pedra e uma mente cimentada são capazes de interpretar a realidade dessa maneira.

Xuxa chegou a um momento da vida em que mídia demais só atrapalha. Não precisa disso. A entrevista ao Fantástico foi jornalismo da melhor qualidade. Todo jornalista sabe como é difícil conduzir um entrevistado àquele nível de espontaneidade. Deixar um entrevistado se sentir à vontade daquele jeito e extrair dele o ouro mais bem guardado é uma qualidade que poucos jornalistas têm.

No domingo à noite, comia um sanduíche na sala de casa enquanto conversava sobre qualquer besteira com meu marido. A TV estava sintonizada no Fantástico, mas não estávamos prestando atenção. Quando Xuxa começou a falar, nós dois entramos, naturalmente, num silêncio profundo. Em respeito à dor daquela mulher e em respeito à excelência do colega que extraíra dela aquelas revelações.

Quem era o cérebro por trás daquela entrevista? Era o queríamos saber, assim que o quadro terminou. Foi uma grata surpresa saber que o autor foi o humorista Cláudio Manoel, do Casseta & Planeta. Quem não conhece o talento dele na condução de depoimentos precisa assistir ao filme Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, um excelente e revelador documentário dirigido por Cláudio e outros colegas.

Na entrevista, Xuxa abriu o coração como nunca e prestou um serviço ao Brasil. Os críticos afirmam que ela abusou de uma criança ao contracenar nua com um menino de 12 anos no filme Amor Estranho Amor. Julgar o passado de Xuxa sem levar em conta o contexto sócio-cultural da época é uma tremenda injustiça. O Brasil ainda não tinha o Estatuto da Criança e do Adolescente, um instrumento que hoje impediria que dois adolescentes atuassem numa pornochanchada.

Xuxa tinha 16 anos. O menino, 12. Quem abusou de quem? Eram duas crianças abusadas pelo mercado, pela família, pela sociedade, pelo sistema, pelo que queiram. Mas é sempre mais fácil culpar a mulher, não é mesmo? Principalmente se for bonita e depois tiver enriquecido.

Quem busca no youtube os vídeos antigos do Xou da Xuxa e se escandaliza com os shortinhos insinuantes que ela usava num programa infantil também precisa se lembrar do que eram aqueles tempos. Os anos 80 foram trash.

As roupinhas de Xuxa e de suas paquitas eram recatadas perto do que as crianças viam em outros programas. Cresci assistindo ao Cassino do Chacrinha. Aos sábados, às quatro da tarde, não perdia Rita Cadilac e suas companheiras. Elas faziam caras e bocas, giravam o dedinho e preenchiam a tela inteira da TV com bundas enormes, redondas e seminuas a cada intervalo. Perto delas, os shortinhos de Xuxa eram pueris.

Por muito tempo, o padrão de beleza da minha infância foi Gretchen. Fazíamos concursos para coroar quem melhor reproduzisse o rebolado e a sensualidade da nossa musa. Eu, que fazia aulas de balé clássico, fracassava a cada concurso.

A sensualidade transbordava dos programas vespertinos e ditava a moda popular. Os shortinhos que víamos na TV e nas ruas eram minúsculos. Tinham uma fenda nos quadris ajustada por barbantinhos de acordo com o gosto. Em comparação, o figurino de Suellen, a piriguete da novela das 8, parece ter saído do guarda-roupa recatado de uma juíza.

E os desfiles de Carnaval? Exalavam sexo. As cabrochas eram cercadas por passistas ávidos que giravam os pandeiros na altura dos quadris delas. Enquanto os raprazes lançavam olhares sedentos para a câmera de TV, colocavam a língua de fora, a um centímetro de lamber as curvas incomparáveis das mulatas cariocas.

Não vejo nada disso quando assisto pela TV aos desfiles de hoje. Não sei se o comportamento dos passistas mudou ou se a edição das transmissões mudou. Só indo ao sambódromo para conferir... Minha memória me obriga a reconhecer que hoje a TV está mais pudica. E não mais avacalhada como tanta gente gosta de repetir.

Se comparadas às chacretes, as dançarinas do Faustão são a expressão máxima da castidade. Concordo que a TV ainda exibe mais sexo e violência do que deveria. Concordo que é preciso proteger as crianças. Mas é preciso lembrar que a situação já foi bem pior. Dito isso, volto a afirmar que Xuxa não pode ser julgada fora do contexto em que viveu e brilhou.

Isso não significa que eu goste dos programas dela. Sempre achei o Xou da Xuxa uma atração emburrecedora. Tenho orgulho de ter conseguido manter minha filha desinteressada por coisas do tipo. Ainda assim, sou capaz de enxergar em Xuxa uma pessoa que merece meu respeito. O valor de uma pessoa não pode estar atrelado a seu valor como profissional.

Muitos leitores podem achar que sou uma jornalista ruim. Ou péssima. Ainda assim, talvez eu seja uma pessoa que merece atenção e tenha algum valor. O contrário também é verdadeiro. Existem profissionais competentíssimos que, para serem consideradas pessoas de valor, precisariam nascer de novo.

Xuxa faz um trabalho social. A entrevista dela tinha um objetivo. Chamar atenção para os abusos sexuais sofridos por crianças e adolescentes. Nessa tarefa, ela foi extremamente bem sucedida. Como em outras que são pouco conhecidas.

A Fundação Xuxa Meneghel mantém uma sede em Pedra de Guaratiba, no estado do Rio, uma das regiões com os mais baixos indicadores de desenvolvimento humano do país. Mais de 400 crianças e adolescentes são educados, tratados e conduzidos ali para uma vida melhor. A fundação também oferece oficinas e atividades educativas para a comunidade. Mais de 7 mil atendimentos foram realizados no ano passado. Apoia também projetos de proteção à infância em todas as regiões do país.

Não sabia que o trabalho de Xuxa ia além da sede de Guaratiba. Descobri nesta semana, durante uma cerimônia em Brasília. Tive a felicidade e a honra enorme de ser diplomada Jornalista Amiga da Criança, um título conferido pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) aos profissionais que têm compromisso com a defesa dos direitos humanos. Lá, alguém mencionou um trabalho feito no Norte graças ao apoio da fundação de Xuxa.

Novamente, voltei a me perguntar por que ela merece tanto desprezo. Por que saudamos Bill Gates e sua digníssima esposa Melinda como beneméritos ao mesmo tempo em que achincalhamos o trabalho, as intenções e os sentimentos de Xuxa? Isso é insensibilidade, algo que não combina com o Brasil e com os brasileiros.

Antes de atirar a primeira ou a milionésima pedra, pense duas vezes. A próxima vítima pode ser você. Quando clamar por civilidade na internet é possível que ninguém mais conheça o significado da palavra. Por absoluta falta de uso.

E você? Conhece algum caso de abuso sexual na infância e na adolescência? O que acha do depoimento e da carreira de Xuxa? Conte pra gente. Queremos ouvir sua opinião.

Cristiane Segato* é repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 17 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo.

 Email:cristianes@edglobo.com.br
Twitter: @crissegatto
Rádio: ouça os comentários dela no Boletim Saúde e bem-estar da CBN e mande mensagens. Todas as segundas-feiras, às 15h30, ao vivo 

Enviado por Angélica Goulart, coordenação da Rede Não Bata Eduque em 25 de maio de 2012.

Fonte: Revista Época em 25 de maio de 2012.

27 de mai de 2012

JOANNA MARANHÃO, mais uma mulher brasileira que não se resignou à violência.

 

Joanna Maranhão

“Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”.

Guimarães Rosa

 

Joana Maranhão 4

 

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Fernando Pessoa

“Em meu trabalho como terapeuta não existem mapas de navegação precisos. Meu ato de cuidar inclui poucas certezas. Todavia, trago uma convicção comigo:


Ainda que a experiência seja radicalmente terrível, as pessoas que não sucumbem ao desatino ou a nulidade são as que não permitiram que o violador se convertesse em dono de sua alma. Em seus pensamentos e sentimentos, essas pessoas brigaram bravamente contra a visão de que as coisas são assim, que a violência sempre existiu e existirá no mundo. Inconformadas, não aceitaram a violência como algo normal, natural... Não acreditaram que por alguma razão mereceram sofrer. Não se resignaram ao sofrimento!
Mesmo que totalmente impotentes contra a violência do outro, estas pessoas mantiveram em alguma parte de sua mente um território livre da opressão. Não permitiram a colonização de sua mente!

 

joanna maranhao 2
Há então uma oportunidade pequena, mas decisiva, de salvaguardar nossa integridade, nossa natureza contra os excessos e as injustiças do mundo:


Manter dentro de nos mesmo territórios livres de ocupações arbitrárias. Há partes de nosso ser que não devem ser domesticadas. Elas não estão sujeitas a ajustes, porque isso significaria a morte de nossa identidade como pessoa” (Cida Alves, 2010) .

 

 

PAGU

“Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Uh! Uh! Uh! Uh!...

Eu sou pau prá toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Hum! Hum! Hum! Hum!
Minha força não é bruta
Não sou freira
Nem sou puta...”

 

“Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem
...”

Rita Lee

 

DENUCIE A VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTE, a ligação é gratuita, você pode ligar de qualquer lugar, inclusive de um orelhão e a denúncia pode ser anônima.

disque-100

 

Goiás tem 8 denúncias de abuso por dia

Número cresceu 84% nos primeiros quatro meses de 2012, mas estrutura de atendimento é a mesma, sem novos investimentos

Traumas podem ser superados
Especialistas apontam necessidade de as crianças abusadas sexualmente serem ouvidas e levadas a sério. Na maioria dos casos, parentes das vítimas não dão importância ao que elas relatam

25 de mai de 2012

Os “Indignados” da Espanha é tema de palestra no Ciclo de Estudos e Debates do Núcleo de Direitos Humanos

 

Indignados

 

Ciclo de Estudos e Debates recebe o Prof. Dr. Enrique Alonso, da Universidad Autonoma de Madrid, Espanha.

 

Dia: 01 de junho (sexta-feira)

Horário: 19 horas.

Local: Prédio da Faculdade de Direito da UFG – subsolo

Compareça!

Os “Indignados” da Espanha é tema de palestra no Ciclo de Estudos e Debates do Núcleo de Direitos Humanos

Dando início às atividades do Ciclo de Estudos e Debates 2012 o NDH-UFG (Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Direitos Humanos da UFG) recebe o Prof. Dr. Enrique Alonso, da Universidad Autonoma de Madrid, Espanha.

É aberta a todos os interessados no assunto.

 

La Reacción Civil en España.

Los “Indignados”

Indiinados

O professor Alonso resume abaixo o tema da palestra:

La crisis financiera iniciada en 2009 está provocando en muchos países europeos -Islandia, Irlanda, Portugal, Grecia, España e Italia- la desaparición progresiva del Estado de Bienestar. Esto supone también la caída, el desplome, de la poderosa clase media que hasta ahora había sido el eje central y el motor de la economía europea. Se trata, por tanto, de un fenómeno sin precedentes en un continente que parecía haber dejado atrás las grandes convulsiones de otras épocas.

Las grandes corporaciones industriales, banca, industria, servicios, en perfecto acuerdo con los partidos políticos tradicionales no pueden disimular que el fin de este proceso es la aparición de una nueva clase obrera empobrecida y con unas expectativas muy inferiores a las de la generación anterior. Ante esta evidencia, los restos de la clase media, políticamente inactiva hasta ahora, ha iniciado un proceso de reacción cívica cuya expresión más evidente son los Indignados españoles, conocidos también como Movimiento 15m -por la fecha de su aparición, el 15 de mayo de 2011-, pero que se ha extendido por otras partes del continente, e incluso de Estados Unidos -Occupy Wall Street-.

En esta exposición solo pretendo ofrecer material de primera mano para aquellos que estén interesados en seguir de cerca un proceso histórico de final incierto que no ha hecho más que comenzar y que es fácil seguir en la distancia gracias a la fuerte participación de las nuevas tecnologías en ese proceso de reacción civil pacífica.

 

Assista o Vídeo com o belíssimo depoimento de Eduardo Galeano sobre o movimento dos INDIGNADOS DA ESPANHA:

 

“UM OUTRO MUNDO ESTÁ NA BARRIGA DESTE, INFAME”

Eduardo Galeano

 

 

Fonte: Núcleo de Direitos Humanos da Universidade Federal de Goiás.

Enviado pelo professor dr. Magno Medeiros, diretor da Facomb/ UFG em 21 de maio de 2012.

Sobre Xuxa, canalhas e invejosos –artigo de Artur Xexeo

 

“O abuso sexual contra crianças é um assunto tabu no Brasil. Muita gente acredita que isso só existe nos EUA, onde o tema é tratado à exaustão em filmes que passam sempre na TV e em autobiografias de qualquer celebridade. No Brasil, é como se ele não existisse. Um assunto para ser resolvido em família. Xuxa escancarou uma porta que teimava em permanecer fechada. O resto é canalhice e inveja”.

 

artur-xexeo

 

 

 

 

 

 

Jornalista Artur Xexeo

 

Em evento promovido pela “Folha de S. Paulo” que celebrava a chegada de seu 80 aniversário — a data da comemoração será no dia 24 de outubro —, Ziraldo aproveitou para defender um de seus maiores amores, o objeto livro, atacando um de seus maiores inimigos, a internet. “Tudo de que você precisa está dentro de um livro”, disse ele. “Seu filho não pode chegar à internet sem passar pelo livro. Se não for capaz de escrever o que pensa e de entender o que lê, vai para a internet para virar um idiota. A internet está cheia de idiotas. Ela conseguiu dar palco para o canalha, para o invejoso. A Humanidade não presta. E você multiplica a potencialidade dessa maldade na internet.”


Ziraldo exagerou na primeira parte de seu raciocínio, mas foi preciso na segunda. Afinal, livros, hoje, não existem só em papel. A internet está cheia de livros. Todos os livros de qualidade encontrados em livraria — que estão cheias de livros idiotas também — estão na internet. Alguns estão só na internet. Imaginar que a criança do século XXI passará pelo livro antes de chegar à internet é ingenuidade. Na escola, ela aprende na internet. Ela se comunica com os amigos pela internet. Ela satisfaz sua curiosidade na internet. Com muito mais facilidade e imediatismo do que minha geração ou a de Ziraldo conseguia pelo livro. Não é a internet que vai impedir a criança de escrever o que pensa ou entender o que lê. É a educação. E não é o livro das livrarias que vai resolver este problema.


Mas Ziraldo acertou em cheio ao criticar a idiotice que reina no mundo virtual. A internet tornou-se mesmo palco para canalhas e invejosos. Protegida, muitas vezes, pelo anonimato, essa turma ocupa o espaço de comentários nos blogs, usa a rapidez de se soltar um pitaco no Twitter, aproveita-se da força viral de um e-mail para emitir pensamentos pouco elaborados e, na maioria das vezes, agressivos, inconsistentes, precipitados, raivosos... resumindo, cheios de canalhice e inveja.


O mais democrático dos meios de comunicação proporcionou uma liberdade de escrita que, no jornalismo impresso tradicional, por exemplo, não é permitida nem na seção de cartas dos leitores. E esta liberdade vem revelando um caráter da Humanidade que era escondido pelos meios anteriores à revolução digital. O mais recente exemplo disso pode ser visto na reação cibernética à entrevista dada por Xuxa no último “Fantástico”. A famosa apresentadora de TV revelou que sofreu abusos sexuais na infância e no começo de sua adolescência. O governo levou a sério. A secretária de Dieitos Humanos, Maria do Rosário, soltou nota oficial em que definia a revelação de Xuxa como uma “atitude de coragem”. A classe política também. O senador Magno Malta (PR/ES), presidente da CPI da Pedofilia, quer ver Xuxa no ato de assinatura da Lei Joanna Maranhão, que permitirá que adultos denunciem abusos sofridos durante a infância. O Ministério Público considera a entrevista um incentivo para que abusos sejam denunciados. Mas na internet...


Nas 24 horas seguintes ao depoimento, cerca de 29 mil tuítes comentavam o assunto. Foram mais de 20 mensagens por segundo. E, na grande maioria, Xuxa era chamada de louca, acusada de fazer a denúncia “para aparecer”, objeto de piadas.
O cidadão tem todo o direito de pensar duas vezes antes de acreditar em qualquer história do passado de Xuxa. Ela mesma faz questão de apagar este passado. Não existe sua aparição para a vida artística no concurso de panteras promovido num carnaval por Ricardo Amaral. Não existe seu namoro com Pelé. Não existem as fotos eróticas que fez para revistas. Não existe o filme em que interpretava uma prostituta. Xuxa sempre quis dar a impressão de que nascera com 30 anos de idade. Por isso mesmo, como duvidar de um depoimento que expõe tanto sua intimidade?

O abuso sexual contra crianças é um assunto tabu no Brasil. Muita gente acredita que isso só existe nos EUA, onde o tema é tratado à exaustão em filmes que passam sempre na TV e em autobiografias de qualquer celebridade. No Brasil, é como se ele não existisse. Um assunto para ser resolvido em família. Xuxa escancarou uma porta que teimava em permanecer fechada. O resto é canalhice e inveja.

Fonte: Blog do Artur Xexeo, 24 de maio de 2012. 

Enviado por Eleonora Ramos, jornalista e coordenadora do Projeto Proteger – Salvador/Bahia em 24 de maio de 2012.

24 de mai de 2012

DISQUE 100 recebe mais de 220 mil ligações e novas denúncias de abusos contra crianças e adolescentes após as declarações de Xuxa Meneghel

 

Xou da XUXA

 

COMO ALGUMAS PESSOAS SÃO INCLEMENTES EM RELAÇÃO AO SOFRIMENTO DO OUTRO. NÃO É A TOA QUE NOSSAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES SENTEM TANTO MEDO DE REVELAR A HISTÓRIA DE SEUS ABUSOS SEXUAIS.

 

Mas vejam, há quanto anos nós - defensores de direitos de crianças e adolescentes, estamos na luta para alertar pais e educadores sobre a elevadíssima incidência de situações de violência sexual contra crianças e adolescentes? Mais de duas décadas não é mesmo! Ao longo desses anos quantas pessoas, direta ou indiretamente, nós conseguimos atingir? Com certeza muitas! Mas quantas pessoas a Xuxa Meneghel conseguiu atingir, em todo esse vasto país, em um depoimento de poucos minutos? MILHÕES DE PESSOAS! Será que ela tem a consciência da grandeza e do valor de seu depoimento.


Tenho certeza absoluta que uma menina ou um menino que é vítima de violência sexual e que mora em algum rincão desse gigantesco Brasil vai se ver diferente a partir do corajoso e sincero depoimento da Xuxa. Quantas meninas e meninos vão se identificar com a coragem dela e vão procurar ajuda? Nossa! Não tenho dúvida que a atitude da Xuxa é uma inestimável contribuição ao enfrentamento da violência e exploração sexual de crianças e adolescentes. A ELA DEVEMOS MUITA GRATIDÃO! (Cida Alves)

Fonte: Facebook da Rede Não Bata Eduque

23 de mai de 2012

Impactos e conseqüências da violência sexual contra crianças e adolescentes

 

Para contribuir com o aprofundamento da compreensão dos impactos e consequências da violência sexual no desenvolvimento e na saúde de crianças e adolescentes apresento de forma sintética alguns quadros psicológicos que TENDEM a se desenvolverem se as violências não forem interditadass e as vítimas e seus familiares não receberem o adequado acompanhamento psicossocial.

 

De acordo Tilman Furniss, a gravidade das danos psicológicos decorrentes da situação de violência sexual estão relacionados a sete fatores:

  1. A idade do início do abuso;
  2. A duração do abuso;
  3. O grau de violência ou ameaças de violência;
  4. A diferença de idade entre a pessoa que comete o abuso e a criança que sofreu o abuso;
  5. Quão estreitamente a pessoa que cometeu o abuso e a criança eram relacionadas;
  6. A ausência de figuras parentais protetoras;
  7. Grau de segredo; [1]

•Características da personalidade da vítima;

•Mitos familiares e crenças religiosas e culturais;

•Extensão da divulgação do abuso;

•Dissonância ou convergência com a identidade em construção da vítima.

Observação. os itens em destaque são acréscimos meus.

 

Motivos que podem levar a criança a se submeter a um abuso sexual:

  • Tem medo de magoar os sentimentos do homem;
  • Quer e precisa de afeto e esta é a única maneira que lhe é oferecido;
  • Teme que, se resistir, o homem a machucará ou irá se vingar em alguém que ela ama;
  • Abusador ameaça que irá dizer que ela é quem estava querendo e assim, lhe causará problemas;
  • A criança é pega de surpresa e não tem a menor idéia do que fazer;
  • homem lhe diz que aquilo é certo, que está ensinando-a, que todo mundo também faz;
  • Ela aprendeu a obedecer, indicriminadamente, aos adultos; e
  • Acha que não tem outra escolha. [2]

 

Quando um homem usa sexualmente uma menina, está lhe passando uma forte mensagem sobre o mundo:

  • Que ela só é importante por causa de sua sexualidade;
  • Que os homens querem que as meninas dêem sexo e que os relacionamentos são insuficientes sem sexo;
  • Que ela pode usar sua sexualidade como uma forma de chamar a atenção e conseguir o afeto de que necessita;
  • Que sexo é um instrumento;
  • Quando ele lhe diz para não contar a ninguém, ela aprende que alguma coisa relacionada com sexo é vergonhosa e má;
  • Que ela, por ter tomado parte nisso, é ruim e indecente, e que ele, pelo mesmo motivo também é assim;
  • Aprende que o mundo está cheio de sexo, que é mau e imoral, e, portanto, nada confiável e
  • Percebe que mesmo aqueles em quem deveria confiar podem traí-la; e que ela própria pode se trair. [2]

 

SINAIS DE ALERTA EM RELAÇÃO À VÍTIMA:

  • Manchas no corpo, roupas rasgadas, dificuldades para caminhar, manchas de sangue;
  • Queixas de hemorragia vaginal ou retal, dor ao urinar, cólicas intestinais, corrimentos;
  • Doenças sexualmente transmissíveis;
  • Vômitos, gravidez precoce e/ou indesejada;
  • Dizer que foi ou está sendo atacado(a);
  • Inquietude corporal, agitação motora;
  • Usar roupa inadequada para o clima;
  • Ausência ou atrasos na escola, ou nós atendimentos de saúde;
  • Perder a fala;
  • Problemas de sono;
  • Urinar na roupa ou na cama depois de 7 anos, quando não há nenhum problema físico;
  • Problemas alimentares, comer demais ou de menos;
  • Cansaço, sonolência, agitação noturna, pesadelos;
  • Abuso de drogas e álcool;
  • Prática de delitos ( pequenos roubos ou furtos);
  • Prostituição;
  • Dificuldades de concentração na escola ou no trabalho;
  • Poucas relações de amizade;
  • Comportamento agressivo, auto-destrutivo, tímido, passivo, submisso, retraído;
  • Tristeza constante, choro freqüente, pensamentos suicidas;
  • Depressão, fobias, quadros de pânicos;
  • Desconfiança, estado de alerta permanente, esperando algo de ruim;
  • Medo de ficar só ou em companhia de determinada pessoa, fugas de casa. [3]

 

CONSEQUÊNCIAS PSICOLÓGICAS

1.Dificuldades de adaptação afetiva:

1.1 Sentimento de culpa

Tsai e Wagner – três fatores:

  • Participa do complô do silêncio – sofre por não revelar e pelo medo das ameaças, receia o descrédito por parte dos adultos;
  • Experimentar culpa por ter vivenciado algum prazer físico, a despeito da situação aversiva;
  • Pode envergonhar-se por ter deixado ser abusada por muito tempo ( 4 anos em média no estudo de Tsai).

“Ainda é possível que a culpa esteja ligada a sentimentos de ódio para com o pai ou mãe – ambivalência, pois os pais são figuras “para serem amadas”.

1.2 Sentimento de auto-desvalorização

  • Está ligado ao sentimento de culpabilidade – se vêem como inferiores e desvalorizadas em relação a outras mulheres.

Segundo Herman (1981) 60% das mulheres vitimizadas na relação pai-filha tem uma auto-imagem deteriorada. “Estas mulheres julgam que o que as singulariza é fato de serem más... referem a si próprias como “cadelas, putas e bruxas.”

1.3 Depressão

  • Herman – 60% das vítimas mostraram sintomas importantes de depressão

 

2.  Dificuldades na Adaptação Interpessoal

  • Recusa no estabelecimento de relações com homens
  • As vítimas fogem de relacionamentos duradouros. Esta recusa parece estar ligado ao que certos autores denominam “MEDO DA INTIMIDADE”. As vítimas apresentam o medo de estabelecer uma ligação afetiva caracterizada por abertura, confiança, atenção recíproca, responsabilidade e respeito.
  • A intimidade pode aumentar a possibilidade de reavivar experiências traumáticas vividas com um agressor, como pode também representar um sentimento profundo de desconfiança para com o ser humano em geral, experimentado por aquelas que foram abusadas por um pai ou uma pessoa da relação de confinça e nem defendidas pela mãe.

2.1 Estabelecimento de relações apenas transitórias com homens

 

  • Presença de promiscuidade sexual e prostituição.

Herman apresenta a seguinte hipótese no caso da violência sexual se de caráter incestuoso: “o pai , ao vitimizar a filha, força-a a pagar com seu corpo, pelo afeto e pelos cuidados que deveriam ser-lhe dispensados gratuitamente. Ao fazê-lo, ele destrói o liame protetor que deve existir entre pai e filha, iniciando-a na prostituição, isto é, no comércio do próprio corpo. Por outro lado, não se pode esquecer que muitas adolescentes vitimizadas fogem do lar e a prostituição acaba sendo um caminho de sobrevivência”.

2.2 Tendência a supersexualizar todas as relações com os homens

Tentativas de explicações:

  • Incapacidade para distinguir relação sexual e afeto (Meiselman, 1978);
  • Podem ter aprendido a recorrer a ardis sexualizados como forma de chamar a atenção (Herman, 1981) e
  • Outras podem estar experimentando uma necessidade compulsiva de relações sexuais como prova de que são amadas e como forma de se sentirem adequadas (Courtois, 1979).

3. Dificuldades de Adaptação Sexual

Área mais seriamente afetada.

Os problemas nem sempre ocorrem no início de uma nova relação, se expressam algum tempo depois – MEDO DA INTIMIDADE.

Estão ligados a uma negação de todo e qualquer relacionamento sexual

  • Perda completa ou parcial da motivação sexual;

Becker. Skinner, Abel and Treacy (1982), verificou-se que 33% das vítimas de incesto declararam não experimentar desejo sexual.

Tentativas de explicações:

  • Reações fóbicas, provocando na vítima um medo intenso e irracional das relações sexuais – Becker e colaboradores constataram em seus estudos que 75% das vítimas falam de seu pavor das relações sexuais;
  • Ou a incapacidade de vivenciar relacionamentos sexuais satisfatórios.
  • Insatisfação sexual

Não é universal nas vítimas de abuso.

Meiselman – foram detectados problemas em atingir o orgasmo em 74% das vítimas de incesto pai-filha. “Algumas vítimas só eram capazes de atingir o orgasmo em condições muito específicas: ou quando se masturbavam, ou quando bebiam ou com um parceiro paciente e não agressivo, ao contrário da figura do agressor de sua infância”.

Bagley (1978-1982) identificou as seguintes seqüelas:

  • “ – gestos e tentativas de suicídio (provavelmente em cerca de 5% de todas as jovens sexualmente vitimizadas);
  • •Problemas de personalidade incluindo culpa, ansiedade, medos, depressão (provavelmente na maioria das vítimas do sexo feminino);
  • Problemas mais agudos de personalidade, incluindo psicose, automutilação, obesidade induzida, anorexia, crises histéricas e estilo de vida cronicamente autopunitivo (provavelmente em cerca de 5% das crianças abusadas do sexo feminino);
  • Prostituição ou um estilo de vida dominado pela exploração sexual (provavelmente em 5% das vítimas do sexo feminino);
  • Retração, frigidez ou falta de confiança em relações de natureza psicossexual (provavelmente em 5 a 10% das vítimas do sexo feminino);
  • Agressão, desordens de personalidade do tipo agressivo e delinqüência crônica (em cerca de 5% das vítimas); e
  • Abuso de drogas e de álcool, conduzindo a dependência e problemas de saúde (em cerca de 5% das vítimas)”. [4]

 

REFERÊNCIAS:

[1] FURNISS, Tilman. Abuso sexual da criança: Abordagem Multidisciplinar, Manejo, Terapia e Intervenção Legal Integrados - Tilman Furniss; Maria Adriana Veríssimo Veronesse. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993

[2] BASS, Ellen  e THORNTON, Louise. Nunca Contei a Ninguém. Editora HARPER & ROW DO BRASIL LTDA.

[3] BRASIL. Direitos Humanos e violência Intrafamiliar - Informações e orientações para Agentes Comunitários de Saúde. Ministério da Saúde/Ministério da Justiça, Brasília 2001.

[4] AZEVEDO, Maria Amélia, GUERRA, Viviane N. Azevedo - Crianças vitimizadas: sindrome do pequeno poder. Violência física e sexual contra crianças e adolescentes. São Paulo: Iglu, 1989

 

Um alerta importante:

Cada situação de violência envolvi uma rede complexa de intervenientes, as pessoas, o grupo familiar, as características do autor de violência e as tipologias da violência não são iguais, portanto, cada caso é um caso. Por fim, informo que estou à disposição do leitor do blog caso sinta a necessidade de obter mais informações ou maiores esclarecimentos.

 

22 de mai de 2012

"Foi uma atitude de coragem que merece respeito", diz Maria do Rosário sobre revelação de Xuxa

 

jung

“O que não enfrentamos em nós mesmos encontramos como destino”.

Carl Gustav Jung

Ministra falou sobre o depoimento da apresentadora, no qual ela revelou que sofreu abusos

Ministra à frente da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário conversou por telefone com ZH sobre a importância que o depoimento da apresentadora Xuxa, veiculado ontem no Fantástico, na RBS TV, tem para a causa.

Xuxa ao lado do diretor do quadro O que vi da vida Cláudio Manoel

Xuxa ao lado do diretor do quadro “"O que vi da vida", Cláudio Manoel

Foi uma atitude de coragem, que merece muito respeito — disse. Ressaltou que há estudos que mostram que a violência sexual produz dores muito fortes, marcas além da dimensão física. São dores psicológicas e as pessoas guardam muitas vezes para si essa situação pela vida inteira. Citou, então, três principais pontos da revelação da apresentadora.

— Em primeiro lugar, representou o que muitas pessoas já sofreram e nunca tiveram coragem de falar. Faz um alerta para essa realidade, que pode ser muito maior que se imagina. Em segundo lugar: chama a atenção para o fato de esse problema acontecer muitas vezes dentro da própria família ou na comunidade na qual a criança está inserida. E em terceiro, acredito que o que ela pediu foi que as pessoas acreditem no que as crianças dizem. Isso é fundamental. Ela disse que não contou porque achava que não iriam acreditar nela e achariam ela culpada. As crianças precisam ter certeza que que os adultos vão acreditar nelas. Precisam confiar neles.

Maria do Rosário se disse ainda muito sensibilizada com a revelação.

— Eu e Xuxa trabalhamos juntas há muito tempo, ela é uma das principais colaboradoras do Disque 100. Ela representou muito bem as pessoas que ainda não tiveram coragem de falar. Gosto ainda mais dela por isso.

Nesse sentido, Maria do Rosário salientou a importância da Lei Joanna Maranhão, que entrou em vigor na última sexta-feira, dia 18 de maio. A Lei, de nº 12.650, altera as regras sobre a prescrição do crime de pedofilia e também o estupro e o atentado violento ao pudor praticados contra crianças e adolescentes.

Agora, a contagem de tempo para a prescrição só vai começar na data em que a vítima fizer 18 anos, caso o Ministério Público não tenha antes aberto ação penal contra o agressor. Até então, a prescrição era calculada a partir da prática do crime. O entendimento é que, alcançada a maioridade, a vítima ganha condições de agir por conta própria.

Joanna Maranhã

Joanna Maranhão depondo na CPI da Pedofilia

A Lei leva esse nome em homenagem à nadadora Joanna Maranhão, que denunciou os abusos a que foi submetida durante a infância por um treinador.

Fonte: Zero Hora em 20 de maio de 2012, foto: Matheus Cabral - TV Globo / Divulgação.

20 de mai de 2012

Violência sexual na infância, o comovente e sincero depoimento de Xuxa Meneghel


 

Eu acredito que quando uma pessoa liberta uma verdade de dentro de si, ela não só ajuda a si mesmo como  abre portas para que tantas outras libertem também as suas verdades. Parabéns Xuxa por sua coragem e solidariedade com quem como você já sofreu pela violência sexual.

 

Xuxa Meneghel 1

“E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema
.”

Manuel de Barros

 

“Quando me chamaram pra fazer a campanha do “Não bata, eduque”, que seria tentar mudar a cabeça das pessoas. E descobri que as crianças que estão na rua, 80% das pessoas que estão nas ruas se prostituindo - a palavra nem seria essa, porque elas não sabem o que estão fazendo-, roubando, se drogando, sofreram algum tipo de abuso dentro de casa. Algum tipo de violência dentro de casa que fez com que ela saísse.


E quando as pessoas começam a me falar sobre as histórias dessas crianças, que muitas vezes isso acontece dentro de casa, ou com o pai, ou com a mãe, ou com o tio ou com o melhor amigo do pai, ou padrasto. Ou seja: alguém muito conhecido dentro de casa que acabou abusando sexualmente dessa criança e ela resolve sair de casa. Mas para ela poder comer ela acaba fazendo isso nas ruas.

Isso me dá um embrulho no estômago porque eu consigo não só me colocar no lugar delas, como eu abracei essas causas todas porque eu vivi isso. Na minha infância até a minha adolescência, até os meus 13 anos de idade foi a última vez.


Pelo fato de eu ser muito grande, chamar a atenção, eu fui abusada, então eu sei o que é. Eu sei o que uma criança sente. A gente sente vergonha, a gente não quer falar sobre isso. A gente acha que a gente é culpada. Eu sempre achei que eu estava fazendo alguma coisa: ou era minha roupa ou era o que eu fazia que chamava a atenção, porque não foi uma pessoa, foram algumas pessoas que fizeram isso. E em situações diferentes, em momentos diferentes da minha vida. Então ao invés de eu falar para as pessoas, eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada. E se eu não tivesse uma mãe, se eu não tivesse o amor da minha mãe, eu teria ido embora, porque o medo de você ter aquelas sensações de novo, passar por tudo isso, é muito grande. Só que eu não falei pra minha mãe, eu não tinha essa coragem de falar com ela. E a maioria das crianças, dos adolescentes passa por isso.

 

Xuxa criança 1

"Quero ter duendes a meu redor, porque sou corajoso. A coragem que afugenta os fantasmas cria seus próprios duendes: a coragem quer rir”!

Friedrich Nietzsche

Eu não me lembro direito porque eu era muito nova, eu me lembro do cheiro. Tinha cheiro de álcool, tinha cheiro de alguma coisa e eu não sei quem foi. E depois aconteceram muitas vezes. Parou aos 13 anos, quando eu consegui fugir. Agora tem essas coisas que pra mim doem, me machucam, me dá vontade de vomitar. Quando eu lembro que tudo isso aconteceu e eu não pude fazer nada porque eu não sabia, eu não tinha experiência. O que uma criança pode fazer? Eu tinha medo de falar pro meu pai e meu pai achar que era eu que estava fazendo isso. Porque uma das vezes que aconteceu foi com o melhor amigo dele, que queria ser meu padrinho. Eu não podia falar pra minha mãe, porque uma das vezes também foi com um cara que ia casar com a minha avó, mãe dela. Então, a errada era eu. Eu não tinha experiência, não sabia o que era. Professores. Um professor chegou pra mim e disse: ‘Não adianta você falar porque entre a palavra de um professor e de um aluno eles vão acreditar no professor, não no aluno. E até hoje, se você me perguntar por que aconteceu comigo, eu ainda acho que foi por minha culpa. E a gente não pode pensar assim. Porque a criança não tem culpa, a criança não sabe. O cara, o adulto, o homem, a mulher, a pessoa que faz isso com uma criança sabe, mas a criança não.


Talvez eles deveriam ter notado que quando eu não estava falando muito, eu que sou de falar demais, é porque estava acontecendo alguma coisa comigo. Mas na inocência da minha mãe, que casou tão nova e com cinco filhos, ela não reparou que eu que falava muito, em alguns momentos eu me calava. Por que você acha que eu não consigo casar e ficar muito tempo com uma pessoa? Deve ter uma explicação. Quem sabe não deve ser tudo isso que eu vivi? O fato de eu me achar horrível, me achar feia, e as pessoas falarem: ‘Não, é bonita’. E eu falar: ‘Não, não sou’. Deve ter a ferida ali.


Eu nunca falei pra ninguém porque eu achava que as pessoas vão me olhar diferente. Ou talvez não vão entender. Ou vão entender da maneira delas. Mas eu só queria dizer que eu não entendo muitas vezes porque aconteceu comigo. E porque eu não falei. E por que eu não soube dizer não, eu não sei. Talvez eu tivesse que passar por tudo isso pra hoje eu chegar e dizer: ‘Eu quero lutar por elas’. Eu tenho um sonho de um dia nenhuma criança sofrer nada porque criança é um anjo. Aquele cheiro, que eu gosto de cheirar o pescoço, que tem...

Acesse a entrevista completa AQUI

Fonte: Fantástico em 2o de maio de 2012.

19 de mai de 2012

“Não cunhem nelas a tirania, eu vou denunciar!”, diz poema de Elisa Lucida

 

Adornos tribais 1

Para o poeta Mário Quintana “Um bom poema não é o que a gente lê, mas o que lê a gente”.

 

 

Adornos tribais 7

E foi com um bom poema que Elisa Lucinda arrebatou os participantes da solenidade de entrega do Prêmio Neide Castanha 2012. E é com esse comovente poema que inicio a postagem de domingo. 

 

 

Meninos José

Toda criança me arrebata.

Toda criança, por me olhar,

me arregaça as mangas do amor

e dele, desse amor, morro de emoção.

Há nisso mais do que o fato

de criança ser igual a flor,

mais do que criança ser da vida

a metáfora das coisas e seu verdadeiro valor.

Vejo José pousando sobre a casa,

as asas dele mudam o episódio lar.

Abraço o José em todo riso

e mesmo quando não o tenho no

colo o tempo todo...

evento de criança soprando a casa!  

Eu fico com as pernas bambas

quando quem me aponta é uma criança. José é Júlia, também Carolina, também Pedro, também

Clara, também Olívia, também Antônio, também Valentina,

também Lina, também João, também Luísa,também

Nicolau, também Juliano, Guilherme, Diogo, Jonas, Mayara,

Vinícios, Leon, Irene, Natássia...

José é todas as galáxias de meninos,

porque são só verdades,

belas verdades,

límpidas eternidades,

futuros mundos.

Belas!  

Tenho vontade de defendê-las

das injustiças dos ditos maiores,

dos esticados que,

aprisionados,

querem aprisionar.

Por todo o sempre e agora,

toda criança quando chora,

respondo: que foi?

Quem não te tratou direito?

(Toda criança quando chora

acho que me diz respeito.)  

Quero as palavras delas,

a nitidez sublime das conversas

delirantes e sábias,

quero os descobrimentos que trazem

em sua transparência natural!

José voa na casa e eu pulso

no ventre como uma grávida perene,

meu Deus, todo filho do mundo

é um pouco filho meu!  

Como me amolece o coração

barulho-som de grito de infância

no colégio de manhã!

Como é para o meu frio, lã,

uma mãozinha pequenina

dizendo pra mim dos caminhos...,

elaçadinha dentro da minha,

como o dia carregando a noite e seu luar,

e aquela vozinha sem gastar,

me pedindo com carinho e desamparo:

me leva lá?  

Não mimem crianças em vez de amá-las,

para não adoecê-las,

para não encouraçá-las!

Não oprimam crianças na minha frente,

vou interferir, vocês vão se danar,

vou escancarar!

Não usem criança na minha presença,

tomarei o partido delas,

não terão minha parcimônia,

não vou compactuar!

Não cunhem nelas a tirania,

eu vou denunciar!

Sou maternal de universo,

mil crianças caminham comigo!

Sou árvore cuja semente

se chama umbigo.

Ai... toda criança quando grita mamãe,

respondo: que foi?

(Acho que é comigo!) 

Prêmio Berta Lutz - Elisa Lucinda se formou em jornalismo, profissão que exerceu na sua cidade natal, Vitória do Espírito Santo, até se mudar para o Rio de Janeiro, há 21 anos. Desde então imprime sua marca como atriz atuando para teatro, cinema e televisão.<br />Em 1995 publicou seu primeiro livro de poesia “O Semelhante” e suas poesias tomaram os palcos durante seis anos com este, que foi o primeiro espetáculo-poesia de uma série de sucessos que surpreendem os espectadores do Brasil e do exterior.
Elisa Lucinda

 

 

Adornos tribais 5

 

 

Acesse as fotos da Solenidade de entrega do Prêmio Neide Castanha 2012 nos links abaixo:

Malú Moura - Prêmio Neide Castanha 2012

Beijos e abraços na Malú Moura - Prêmio Neide Castanha 2012

 

 

Saiba mais sobre a Solenidade de entrega do Prêmio Neide Castanha

Ministra pede mobilização nacional pelo fim da exploração sexual de crianças e adolescentes

 

Adornos tribais 3

 

Veja ainda o debate que a TV Câmara promoveu sobre  a erotização precoce e o papel da mídia

Debatedoras:
Iolete Ribeiro -  presidente do Conselho Regional de Psicologia de Manaus, Amazonas
Raquel Moreno - representante do Observatório da Mulher
Cenise Monte Vicente - presidente do Conselho da Agência de Notícias dos Direitos da Infância

 

As fotos das crianças africanas postadas acima são uma homenagem a três extraordinárias descendentes da nossa grande Mãe África: Elisa Lucinda, Malú Moura e Iolete Silva.

Fotos enviadas por José Carlos Lima em 15 de abril de 2012. Veja mais fotos AQUI