20 de jan de 2019

"Também morre quem atira" - Marcelo Yuka Presente!



Hey Joe

Hey joe
Onde é que você vai
Com essa arma aí na mão?

Hey joe
Esse não é o atalho
Pra você sair dessa condição!

Dorme com tiro acorda ligado
Tiro que tiro
Trik-trak boom
Para todo lado

Meu irmão, é só desse jeito
Consegui impor minha moral...
Eu sei que sou caçado
E visto sempre como um animal
Sirene ligada os homi
Chegando trik-trak
Boom boom
Mas eu vou me mandando

Hey joe
Assim você não curte o brilho
Intenso da manhã
Acorda com tiro dorme com tiro

Hey joe
O que o teu filho vai pensar
Quando a fumaça baixar

Fumaça de fumo
Fogo de revólver
E é assim que eu faço, eu faço a minha história
Meu irmão, aqui estou por causa dele
E eu vou te dizer
Talvez eu não tenha vida
Mas é assim que vai ser
Armamento pesado
O corpo é fechado
Eu quero é mais ver
Mais vai ser difícil me deter

Hey joe
Muitos castelos já cairam e você tá na mira

Também morre quem atira
Menos de 5% dos caras do local
São dedicados a alguma atividade marginal
E impressionam quando aparecem no jornal
Tapando a cara com trapos
Com uma uzi na mão
Parecendo árabes, árabes, árabes do caos
Sinto muito cumpadi
Mas não é burrice pensar
Que esses caras
É que são os donos da biografia
Já que a grande maioria
Daria um livro por dia
Sobre arte, honestidade e sacrifício
Sacrifício...
Arte, honestidade e sacrifício...

O Rappa


17 de jan de 2019

Nós, pré-históricos - Jânio de Freitas

O homem das casernas quer o seu contemporâneo de volta à autodefesa



O argumento de que a livre posse de armas de fogo, como diz Jair Bolsonaro, "é para garantir às pessoas o legítimo direito de defesa", dá uma decoração enganosa ao seu teor pré-histórico: o governo militarizado entrega à população a tarefa de defender-se da criminalidade que a aflige. O homem das casernas quer o seu contemporâneo de volta à autodefesa que restava ao homem das cavernas.

De alguns milênios para cá, a defesa dos cidadãos é atribuição das forças do Estado para isso mantidas. E aos governos compete dirigi-las com inteligência e civilidade. Na falta dessas qualidades, o roteiro cênico que o governo militarizado propõe é empolgante. Segue-se um trailer.

É nas ruas, nas lojas, nos espaços e eventos públicos que a criminalidade assola o cidadão. Se deve praticar a autodefesa armada, a vítima precisaria fazê-lo, a bala, no lugar público onde é atacada. Como são incontáveis os ataques diários, havendo inúmeros casos sem registro policial, o que o governo militarizado espera é um tiroteio assombroso produzido pelas autodefesas. Seriam tiros o dia todo, todos os dias, em toda a cidade, qualquer que seja. 

Pior do que a massificação das armas é a obtusidade em que se ampara tal "reforma". O problema da criminalidade se manifesta pela já existente posse (ilegal) de armas. Armar suas vítimas para pretensa autodefesa não reduz, antes amplia os crimes de tentativa e de homicídio mesmo, agora praticados pelos antigos e por novos usuários de armas. A posse livre e legal de armas não tem como contribuir para a redução da criminalidade cometida como meio de vida ou melhora de vida. Não há como atribuir a raciocínios inteligentes o armamentismo trazido pelo governo militarizado. 

Por desídia, incompetência, corrupção ou o que mais, as forças do Estado têm perdido, até com humilhação, no confronto com o fenomenal avanço do chamado crime organizado. Mesmo o Exército não consegue se impor, no máximo evitando o insucesso óbvio, com medidas incipientes como as da intervenção no Rio. Por mais chocante que pareça, é justo reconhecer que as grandes facções têm comprovado muito mais criatividade, ordem interna e funcionalidade estrutural do que a variedade de forças a que enfrentam. 

Principal incumbido do problema, Sergio Moro ainda não descobriu que a corrupção não é tudo, não é o mais difícil e nem mesmo o principal entre as obrigações do Ministério da Justiça. E entre os males mais urgentes e perigosos no país, sua atenção continua concentrada na "criminalização do caixa dois", nas "contrapartidas em doações", no "aumento de penas", por aí. Nem uma palavra, antes ou depois de empossado, sobre políticas e táticas de ação contra a violência sempre crescente. Nem mesmo as duas semanas do show dado contra policiais e militares no Ceará desligou-o do seu samba de um assunto só.

A propósito, o governador petista do Ceará, Camilo Santana, cometeu um deslize. Recebida a Força Nacional para socorrê-lo, elogiou Sergio Moro como um aliado contra o crime organizado. Moro, na verdade, recusou o envio da Força, que assim mesmo Jair Bolsonaro determinou. Desperdiçar uma oportunidade de referência positiva a Bolsonaro, ainda mais equivocada, é imperdoável. Afinal, não se sabe quando, e se, haverá outra. A pré-história não oferece muito o que imitar.


15 de jan de 2019

Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance? - Ivana Bentes




“Se estamos em uma ‘guerra cultural’ é a cultura que tem o maior poder de produzir um curto circuito em ‘tudo que está ai’. Uma arte sim brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror!”

Ivana Bentes



Sejamos literais! O que é chocante nessa performance que foi censurada na Casa França Brasil não são as baratas de plástico e nem a mulher de pernas abertas. O chocante é que o governador do Rio de Janeiro, o presidente da República, seus filhos parlamentares e parte do seu eleitorado defendem o torturador que colocava baratas e ratos nas vaginas das mulheres presas pelo regime militar. E a performance nos lembra dessa ignomínia e nos faz ver o horror e a demência desses que vestem camisetas com o rosto do Coronel Ustra e o chamam de herói.


Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance? Porque ela produz na sua literalidade e “mau gosto” a crueza e o horror desses atos. Diante do horror e das palavras e atos brutais de nossos governantes só nos resta o “choque do real” na mesma moeda e com o mesmo “mau gosto” e demência.


Censurada pelo governador, a performance aconteceu na rua e foi enviada a Polícia Militar para quem sabe nos impedir de ver o óbvio e/ou “tirar as crianças da sala”.


O que não podemos ver afinal que o Coronel Ustra fazia e gabava-se e seus seguidores celebram? Se celebram porque querem esconder? Por que sabem que é vergonhoso e a performance expõe o óbvio. Aliás as mulheres também eram mantidas nuas nas sessões de tortura! Porque agora querem censurar a nudez?


Se estamos em uma “guerra cultural” é a cultura que tem o maior poder de produzir um curto circuito em “tudo que está ai”. Uma arte sim brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror!










Ivana Bentes

Foi secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura. É professora, curadora e pesquisadora acadêmica, atua na área de comunicação e cultura, foi diretora da Escola de Comunicação da UFRJ.





Foto: Letícia Sabbatini

Fonte: Mídia Ninja
 

13 de jan de 2019

Mulher do Fim do Mundo - Elza Soares




Mulher do Fim do Mundo

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qual é

Pirata e Super-Homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha paz
Na avenida deixei lá
A minha farra minha opinião
A minha casa minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou e vou até o fim cantar

Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qual é

Pirata e Super-Homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha paz
Na avenida deixei lá
A minha farra minha opinião
A minha casa minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou e vou até o fim cantar

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou, eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Até o fim eu vou cantar, eu quero cantar
Eu quero é cantar eu vou cantar até o fim
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Elza Soares

8 de jan de 2019

Princesas, príncipes e as crianças sem cor do Brasil - Paloma Jorge Amado


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Princesas, príncipes e as crianças sem cor do Brasil

Há 83 anos, meu pai, o escritor Jorge Amado, publicou seu quinto livro. Ele tinha apenas 23 anos. O romance “Capitães da Areia” retratava a vida dos meninos de rua da Cidade da Bahia, que ele tão bem conhecia. Nos contava que naquele então eles não eram mais que 300 adolescentes e crianças. Podia-se conhecê-los pelo nome. Hoje, nas estatísticas oficiais, são 24.000 no Brasil. Será? Acho que são muitos mais.

A publicação daquele que tem sido o maior best seller de Jorge Amado nos seus quase 100 anos de autor publicado, com alguns milhões de exemplares vendidos no mundo todo e ainda hoje tendo novos contratos a cada ano, coincidiu com a Ditadura do Estado Novo, de Vargas. A Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado preconizava o conservadorismo no lema “Deus, Pátria e família”. Resultado: Livro apreendido, queimado em grande fogueira em praça pública, com decreto em Diário Oficial e tudo. O livro ganhou público através de sua versão para o espanhol, em seguida para o francês. Demorou a sair no Brasil. Desde então, é o mais vendido sempre. 


A história de Pedro Bala e do grupo de jovens marginais, de porte bem menor, se comparado com o que se vê hoje nas comunidades dominadas pelas gangues de narcotraficantes e de milicianos, e de Dora, menina que conseguiu fugir aos ataques sexuais de homens perversos, quando da morte da mãe por bexiga negra (e falta de qualquer tratamento), ganhou mundo como um grito de socorro para o gravíssimo problema que, já naqueles idos de 35, chamava a atenção para a total falta de sensibilidade em relação às crianças pobres do Brasil.


Nos anos 50, João e eu estudávamos no Colégio Andrews (único colégio particular que frequentamos na vida, e por pouco tempo), quando uma escola adotou como leitura para seus alunos adolescentes o livro de José Condé, “Um ramo para Luísa”, e o “Capitães “ de papai. Um grupo de mães e pais foi contra, buscaram os jornais:


- Minha filha jamais será uma Luisa, não quero que ela conheça o lado ruim da vida...
- Meu filho é um menino decente e não um “capitão d’areia”, para que ler tal barbaridade?


Me lembro das conversas em casa, com Zé Condé e papai, todos muito tristes por não serem minimamente compreendidos. Afinal, quem se preocupava com os menores abandonados? Os socialistas, é claro. “Uma corja... ”


O patrulhamento religioso, naquele tempo, também era grande para as crianças na escola. Millor Fernandes publicou uma piada em sua página semanal em “O Cruzeiro”. A piada era:


Jesus, da cruz, olha para Madalena e diz:
 

- Hoje não, Madalena, estou pregado.
A discussão pegou fogo no Andrews. João, meu mano, foi dos poucos ( o único?) a defender Millor.


- Ele tem o direito de falar de quem quiser, não temos censura no Brasil, que é um país laico ...


No final das aulas, tomou uma surra gigante. Teve a camisa rasgada, o que desgostou muito nossa mãe, pois custava caro e os tempos eram bicudos. Remendou e Juca foi remendado o resto do período letivo. 


Nos últimos 40 anos, Capitães da Areia é sempre adotado pelas escolas como leitura obrigatória. Não só no Brasil! Conheci meninos portugueses, franceses e angolanos que leram o livro e aprenderam sobre cuidar da infância com este clássico de Jorge Amado, recomendado por suas escolas.

Assisti à posse do novo presidente, assim como alguma coisa da transmissão dos cargos dos novos ministros. Gosto de estar por dentro daquilo que me causa medo e horror. Foi pior do que pensei. Ouvi da Ministra Damares Alves, o que conta esta nota de jornal:

“Futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves defendeu nesta terça-feira (11) uma “contrarrevolução cultural” e disse que meninas devem ser tratadas como princesas e meninos, como príncipes.
“No momento em que coloco a menina igual ao menino na escola, o menino vai pensar: ela é igual, então pode levar porrada. Não, a menina é diferente do menino. Vamos tratar meninas como princesas e meninos como príncipes”, declarou.


“É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa", afirmou a ministra.


A advogada e pastora evangélica assumiu o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos nesta quarta-feira . Em discurso na solenidade de transmissão de cargo a ministra afirmou: "O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã". 


Como assim, Cara Pálida?

Dá medo, não é? A mim deu! Meninas de rosa, meninos de azul. Os que estão na rua, sem a menor chance de nada seriam o que? Provavelmente os de marrom desbotado. Esses ficam para lá, não são mencionadas ações para restabelecer seus direitos como ser humano. Que oportunidades os meninos e as meninas têm, quais suas opções? Infelizmente sabemos que são cooptados pelos bandidos, prostituídos, brutalizados. Eles não querem ser príncipes e nem princesas, querem ter o que vestir, não importa a cor.


É terrível, a gente tem que engolir o discurso em libras da primeira dama, vestida de princesa (vestido copiado da Princesa Aurora, da Disney, que por sua vez copiou de Grace Kelly), para distrair os brasileiros que ainda acreditam em uma “mudança”. Grande marqueteiro eles têm! Nossa primeira dama é uma princesa! E por isso ela se vestiu como uma das que está no imaginário da população. A primeira mulher do seu marido fugiu dele, foi para a Noruega, prestou queixa por agressão e na campanha voltou atrás... mas esta o ama e o beija na boca para que todos os brasileiros vejam... Vamos, meu povo, quem sabe despertem dessa história de conto de fadas, como aconteceu com a Princesa Aurora, a Bela Adormecida. Quem sabe um beijo pelas crianças desamparadas do Brasil, aquelas sem cor, faça com que abram os olhos.
 

Mal acabara de escrever estas reflexões, e quem eu vejo sendo entrevistada na televisão? A própria ministra Damares. O assunto do rosa e do azul (os príncipes e princesas fizeram menos sucesso de público...) como tema palpitante. Ela fala em metáfora, em combater a discriminação na escola dos que usam azul e rosa, o bullying feito às crianças que querem ser tratados por príncipe e princesas que querem ficar longe da realidade da vida, isso lhe parece cruel... Não vejo esta resposta como coisa séria. Sobre o menor abandonado nenhuma palavra, também não foi perguntada. Certamente para este tema a resposta seja a diminuição da maioridade legal e balas a queima roupa. Pobres Pedros Balas, Sem Pernas, Gatos, Doras... 

Sempre saindo pela tangente, de repente uma resposta, na hora do Ping Pong, é dada sem exitação. Qual o seu escritor brasileiro preferido?


- Vocês vão se surpreender! É Jorge Amado...


O jornalista quis saber porque deveria ficar surpreendido. Eu, que de verdade fiquei surpresa, pensei com meus botões: Vai falar agora de comunismo, da esquerda perversa, etc. Nada disso, motivo do espanto para ela é por ser autor que fala de sexo em suas obras! 


Falou de Tieta e Gabriela. Eu aproveito aqui para falar também de Tereza Batista, menina vendida pela tia ao Capitão sado-masoquista. O povo brasileiro, que Tereza representa, é tão forte e formidável, que mesmo sem os apoios necessários consegue dar a volta por cima, enfrentar a crueldade, lutar. Um grupo feminista italiano usa seu nome como emblema.


Gostaria de aproveitar este gancho e pedir à Ministra que, sendo mesmo fã de meu pai, leia “Capitães da Areia” e “Tereza Batista, cansada de guerra”. Leia e reflita. E leia tantos autores maravilhosos que existem no Brasil. Não deixe que a literatura brasileira seja banida das escolas, ela que tem contribuído para a formação do hábito de leitura de nossos meninos e meninas. Ler a boa literatura brasileira, do velho Graciliano, passando por Milton Hatoun e Raduan Nassar, chegando aos jovens como Giovani Martins, é muito melhor que os contos de fadas da Disney. Refletir sobre o que é o nosso país é sem dúvidas um caminho melhor para a formação da nossa juventude, do que sonhar com príncipes e princesas. 


Finalmente, gostaria de dizer que eu sou socialista. Aprendi com meus pais que nós, seres humanos, somos iguais, nascemos para ter liberdade, pensar pela própria cabeça, sermos unidos em irmandade, compartilharmos ao máximo o que temos em excesso com os que têm menos. Faço, da minha parte, tudo o que posso, com alegria e gratidão por esse maravilhoso povo brasileiro.


Bom domingo a todos.


Paloma Jorge Amado











  
Jorge Amado, Zélia Gattai e seus filhos Paloma (no colo) e João Jorge no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em 1952. De volta do exílio em Praga (Foto: acervo Folha Press)


Fonte: Facebook de Paloma Amado