28 de nov. de 2020

Eros Volúsia - a menina que pulava muros para dançar no terreiro


 

“Eu queria era dançar aquela dança estado de alma, aquela dança que fosse um um pensamento, uma emoção, a dança vida, porque vida é movimento e dança é movimento”

Eros Volúsia





Assista o documentário EROS VOLÚSIA e a DançaMestiça


20 de nov. de 2020

Quando Sofia Loren dançou com Elza Soares - Trilha sonora de Rosa e Momo

Sophia Loren e seu filho Edoardo Ponti – foto dovulgação


 “Malandro!

Eu sei que você
Nem se liga pro fato
De ser capoeira
Moleque mulato
Perdido no mundo
Morrendo de amor...

Malandro!
Sou eu que te falo
Em nome daquela
Que na passarela
É porta estandarte
E lá na favela
Tem nome de flôr...”

Jorge Aragão e Jotabe







13 de nov. de 2020

Ato em defesa de Mari Ferrer expõe outro caso de violência contra a mulher - Armando Araújo


DEPOIMENTO ESPECIAL - O poder da escuta durante o atendimento de vítimas de violências, veja mais AQUI 

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Ato #JustiçaporMariFerrer em Goiânia, Praça Cívica. Foto: Ângela Macário


Todos os municípios brasileiros devem instituir uma rede de proteção especializada e integrada para atender mulheres vítimas de estupro.

 

No último dia 8 de novembro, durante o ato em defesa de Mari Ferrer, cujo estuprador foi absolvido a partir da tese de “estupro culposo”, o depoimento público de Bianca Rosa, também vítima de violência, chamou a atenção das organizações e pessoas presentes.

Em um relato contundente e emocionado, ela compartilhou o drama vivido diante da suspeita de sua filha, de apenas dois anos, ter sido vítima de violência sexual por uma pessoa de confiança da família. Para confirmar esse fato, a criança deve ser ouvida em um espaço especializado de acolhimento e escuta, inexistente no município onde mora.

O Decreto nº 9.603/2018 e a Lei nº 13.431/2017 determinam a implantação de mecanismos de escuta especializada para o depoimento especial de crianças ou adolescentes testemunhas ou vítimas de violências. Todos os municípios brasileiros devem instituir essa rede de proteção especializada e integrada, mas a maioria não conta com essa estrutura, o que prejudica os processos de apuração e responsabilização do autor de violência, podendo até invalidá-los caso a criança ou adolescente for ouvido de outra forma.

A escuta especializada é o procedimento realizado pelos órgãos da rede de proteção nos campos da educação, da saúde, da assistência social, da segurança pública e dos direitos humanos, com objetivo de assegurar o acompanhamento da vítima ou da testemunha de violência para superação das consequências da violação sofrida, limitado ao estritamente necessário para o cumprimento da finalidade de proteção social e de provimento de cuidados. Seu objetivo é a proteção da criança e do adolescente, e não a coleta de provas para eventual procedimento criminal, razão pela qual as perguntas devem se limitar ao necessário para garantir proteção e cuidados ao infante.

Especialistas alertam que não se deve confundir a escuta especializada com o depoimento especial, realizado perante autoridade policial ou judiciária, com a finalidade de produzir provas para o processo. Em ambas as modalidades, frisa-se a necessidade de preparo do profissional que conduzirá a oitiva, que deve receber formação quanto à maneira correta para acolher o depoimento, formular perguntas em linguagem simples e evitar atos de revitimização.

     “Quando uma criança é violentada sem lesões aparentes, é muito, muito difícil, ter uma prova de que alguma coisa aconteceu. E nem ser ouvida a criança pode, pois o estado não possui aparato legal para isso, deixando pedófilos muito à vontade para cometer seus crimes. A solicitação para que minha filha seja ouvida encontra-se na 1ª Vara Criminal, mas o município onde moro não possui a estrutura exigida pela lei. Se a sociedade não se unir, minha filha e diversas outras crianças com histórias parecidas serão sempre só mais um número. Seus casos ficarão impunes e sem solução”, desabafa Bianca Rosa.

Bianca durante ato público de apoio a Mari Ferrer em Goiânia - Foto: Magno Medeiros


Além dessa espera angustiante, Bianca contou ainda ter sido agredida fisicamente pelo pai de sua filha, já tendo passado por cinco cirurgias reparadoras. “Nesse mês, comecei uma batalha que imaginava ser em parceria com o poder público, mas os fatos mostram que não é assim. Sou ignorada por quem deveria me proteger”, denuncia. Ela explica que já fez apelos e manifestações exigindo justiça e ações de enfrentamento à violência doméstica por parte dos Poderes Executivo e Legislativo municipais e estaduais, mas nada foi feito.

Sua trajetória de vida foi marcada pela violência desde sua infância. Ela foi vítima de estupro dos 3 aos 11 anos pelo padrasto, presenciou o assassinato da tia e o suicídio do tio. Quando finalmente teve coragem de contar ao pai as agressões que sofreu por anos seguidos, foi acusada de ser culpada pela violência sofrida. “Se somos ignoradas, tratadas com desrespeito de forma doentia e maldosa, o machismo e a cultura do mal vencem”, afirma.

Números nacionais

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que Goiás foi o oitavo estado com maior índice de estupro de mulheres em 2019. Segundo o relatório, foram registrados 2.741 casos, o que representa uma média de 7,5 estupros por dia.

No Brasil, meninas são estupradas em suas casas por homens da família e agregados. E esses fatos são comprovados. Se acordo com o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil bateu o recorde de casos de violência sexual em 2018, sendo 66 mil vítimas de estupro no Brasil, o maior índice desde o início do estudo em 2007. A maioria das vítimas (53,8%) é composta de meninas de até 13 anos, sendo que 4 meninas até essa idade são estupradas por hora no país. A maioria das mulheres estupradas é negra (50,9%).

Repercussão

“O grito das mulheres goianienses somaram-se às vozes de tantas outras mulheres Brasil afora. Vozes carregadas de indignação que gritam por justiça e respeito. Estamos aqui não somente por Mari Ferrer, mas por todas nós. Somos todas vítimas do machismo e do patriarcado que ainda está presente em nossa sociedade. Este ato vem evidenciar gritos que se tornam mais fortes a cada dia. Basta de violência contra a mulher”, diz Maria Aurora Neta, representante do Bloco Não é Não, um dos organizadores do ato.

Diante de casos de violência contra as mulheres, Patrícia Vieira, produtora cultural e ativista do movimento feminista, conta que encontra amparo, acolhida e força junto a inúmeras mulheres e coletivos em Goiânia que, juntos, buscam contribuir de alguma forma. “Nós precisamos de um levante feminino e feminista que possa dizer para a sociedade: nós não aceitamos, e foi aí que nos juntamos e, de forma muito democrática e apartidária, resolvemos nos colocar na rua para dizer não, não à violência institucionalizada. Mari Ferrer provocou um levante de uma luta que nós vivemos diariamente. Uma luta cotidiana de nos confrontarmos com a brutal realidade de que a cada 11 minutos uma mulher é violentada no país. Nos levantamos para dizer não à cultura do estupro. Nos levantamos para discutir o patriarcado, discutir um Direito Penal que não silencie as vítimas, mas que as acolham e as tratem com dignidade”, afirma.

Sara Alves, outra integrante do Bloco Não é Não, garante que “a luta não acabou e vamos continuar lutando para que os agressores sejam presos e paguem por seus atos. Nós, mulheres, não vamos nos calar e estamos cada vez mais unidas para colocar esses canalhas na cadeia. Mexeu com uma, mexeu com todas”, garante ela.

“A cultura do estupro é algo que precisa ser conversado e debatido diariamente. Nós, mulheres goianas, exigimos que o estado e seus organismos oficiais cumpram sua função social com espaço para discutir e enfrentar esse problema. Somente dessa forma poderemos mudar a realidade massacrante da violência de gênero. Precisamos implementar políticas públicas de proteção às vítimas, espaços qualificados para receber as denúncias e reconhecimento de que estamos diante de um problema sociocultural. A pergunta que precisa ser feita diariamente para desfazer esse padrão patriarcalista é: “Homem, por que me tomas? Vamos ressignificar juntas”, afirma Je Costa, integrante do Coletivo de Mulheres Goianas.  

Armando Araújo - GO 554 JP

Assessoria de Comunicação e Jornalismo

(62) - 3229-3195- (62) – 996293800

armandoconsultoria@terra.com.br / anma1609@gmail.com

11 de nov. de 2020

Algo mudou no Brasil - Paula Bianchi do The Intercept Brasil

 








 

Fotos: Ângela Macário – Ato #JustiçaporMariFerrer em Goiânia, 8 de novembro de 2020.


"Em meio a tanta dor, traz alento perceber a união formada em torno dessa ideia simples e poderosa: se uma mulher for estuprada, jamais será sua culpa, e muito menos podemos consentir com a tese de que alguém pode cometer um ato sexual sem ter plena certeza de que a mulher consentiu. Não existe estupro culposo."

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Imagine uma vítima de violência sexual que passa dois anos denunciando seu agressor sem que nada aconteça. Imagine também que em meio a sua luta por justiça, ela é humilhada, agredida e desrespeitada por quem um dia jurou defender a lei e os direitos humanos. 

Essa é a realidade da promotora de eventos Mariana Ferrer, que desde 2018 denuncia ter sido estuprada pelo empresário André de Camargo Aranha. Na semana passada, Mariana finalmente foi ouvida. 

A reportagem do Intercept sobre o caso parou o país. Em poucas horas o vídeo que mostra a violência a qual Mariana foi submetida durante uma audiência se espalhou e foi visto por milhões, causando indignação, mobilizando manifestações de apoio à jovem e expondo uma realidade que afeta todos os dias as mulheres brasileiras. Furamos todas as bolhas e conseguimos fazer com que todo mundo, do STF aos veículos de imprensa, de deputados a artistas, jovens e idosos, todos olhassem para aquela situação e pedissem justiça. O caso de Mariana, graças ao jornalismo, não será mais um em que a vítima é esmagada por nosso sistema penal. Não será mais um caso em que a vítima será "culpada" pela violência que sofreu. 

A reportagem de Schirlei Alves revelou imagens revoltantes, expôs a conduta desrespeitosa, para dizer o mínimo, de Cláudio Gastão da Rosa Filho, advogado do réu, e mostrou como vítimas de crimes sexuais são tratadas no país. Mariana não é a única e por isso essa matéria teve uma repercussão inédita na história do Intercept. 

Na terça à noite o texto já havia sido lido por milhões. "Estupro culposo", expressão que resume a absurda tese do promotor ao defender a absolvição de Aranha, argumentando que o acusado não tinha como saber se Mariana estava em condições de discernir ou de oferecer resistência ao ato sexual, dominava as redes sociais e foi repercutida por praticamente todos os veículos brasileiros. Vimos incrédulos o Jornal Nacional exibir um material produzido pelo TIB — vocês sabem que isso não aconteceu nem na Vaza Jato. Jornais e sites nos Estados Unidos, Espanha, Portugal e França também noticiaram — para citar apenas o que nós vimos. Atos foram realizados no Brasil e em outras capitais pelo mundo levando milhares de pessoas às ruas. Pesquisadores, criminalistas, jornalistas, professores, juízes escreveram sobre o caso, seus desdobramentos e, claro, fizeram críticas ao nosso trabalho, o que é parte do jogo quando você produz o tipo de jornalismo que nós produzimos. Tudo muito bem-vindo, porque o jornalismo existe pra isso: para mobilizar a sociedade, denunciar malfeitos, promover justiça, mudar o mundo. 

Na Câmara Federal, grupos de deputadas protocolaram dois projetos de lei: o 5091/20, que tipifica o crime de “violência institucional” praticado por agente público — com pena de três meses a um ano de detenção e multa; e o 5960/2020, que veda qualquer parte envolvida e o juiz de se manifestarem sobre fatos e provas que não estão nos autos. A Comissão Nacional da Mulher Advogada da OAB Nacional repudiou a condução da audiência e pediu a apuração da ação ou omissão de todos os agentes envolvidos. O ministro do STF Gilmar Mendes classificou como “tortura” a humilhação promovida contra Mariana e pediu investigação. A Procuradoria da Mulher do Senado vai pedir a anulação da sentença que inocentou Aranha.  

Testemunhei nos últimos dias milhares de mensagens, vídeos, charges de apoio a Mariana e ao nosso trabalho. Algo mudou de terça-feira pra cá e foi o jornalismo o motor dessa mudança. Pela primeira vez vi um caso de violência sexual mobilizar tanta gente e do jeito certo. 

Histórias como essa são sempre difíceis de reportar. Porque expõem as vítimas e podem causar sérios danos a elas. A gente nunca sabe como será a repercussão e o que ela pode gerar. É preciso muito cuidado e paciência. Há pouco tempo, trabalhamos exaustivamente nos casos relacionados ao produtor Gustavo Beck, aquela história que foi marco do movimento Me Too no Brasil. A repercussão também foi enorme, especialmente fora do país, e ficamos felizes de ver que as vítimas não foram publicamente questionadas. O jornalismo cumpriu seu papel e o fez da melhor maneira possível.

O caso de Mariana tomou outras proporções e foi muito, muito bom perceber como foi positivo o retorno da sociedade. A vítima foi respeitada, acolhida e a ela se juntaram milhões pedindo justiça. Como afirmei na nossa newsletter de sábado junto com o editor Alexandre de Santi:

"Em meio a tanta dor, traz alento perceber a união formada em torno dessa ideia simples e poderosa: se uma mulher for estuprada, jamais será sua culpa, e muito menos podemos consentir com a tese de que alguém pode cometer um ato sexual sem ter plena certeza de que a mulher consentiu. Não existe estupro culposo."

Quis escrever para trazer um balanço dos impactos desse caso para você. Os primeiros dias foram muito intensos e talvez você não tenha conseguido acompanhar tudo. Eu também quero agradecer a cada pessoa que lê, compartilha, espalha e defende o trabalho do Intercept. Milhões de novos leitores chegaram no site na semana passada, mas você faz parte do nosso time há um tempo e sabe que reportagens assim estão no coração do TIB.

Fazer investigações de grande impacto e responsabilizar pessoas com poder para se safar da justiça é a nossa missão. O Intercept não tem rabo preso, não tem acordo com governo, com empresas, com juízes. Nosso único compromisso é com nossos leitores e com cada pessoa vítima de injustiça. Essa independência e coragem nós devemos a pessoas como você, que nos apoiam todos os dias, doando e nos protegendo dos ataques daqueles que querem nos parar.  


5 de nov. de 2020

Tese ALFORRIA PELO SENSÍVEL - CORPOREIDADE DA CRIANÇA E FORMAÇÃO DOCENTE no Buteco CNV - José Maria e Daniella Dutra

 



Convite do Buteco CNV

Olá!!!!😃
Esta semana vamos receber no nosso *Buteco.CNV* Maria Aparecida Alves da Silva @ccidalves. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás em intercâmbio com a Universitat de Barcelona, psicóloga do Núcleo de Vigilância das Violências e Promoção da Saúde da SMS de Goiânia, ativista dos Direitos Humanos, feminista, integrante da Associação Mulheres na Comunicação e da Rede Não Bata Eduque, administradora do blog Educar Sem Violência e cofundadora do bloco carnavalesco Não é Não.

*Cida Alves* vai falar sobre a sua tese de doutorado, *ALFORRIA PELO SENSÍVEL - CORPOREIDADE DA CRIANÇA E FORMAÇÃO DOCENTE.* Ela aborda a necessidade de desnaturalização da violência física intrafamiliar como método educativo punitivo disciplinar.

Para fundamentar seus argumentos ela fala da desconstrução do mito de que a violência constitui a natureza humana; da importância da diferenciação entre o conceito de agressividade e de violência; como a dinâmica que funda o modelo relacional dominador-dominado no mundo social está encarnado, incorporado nos indivíduos por meio do Habitus; e como violência física intrafamiliar como método punitivo disciplinar, aliada a violência psicológica, cria condições para o surgimento de pessoas que desenvolvem e estabelecem uma relação de indiferença frente ao sofrimento do outro e o que experiência em sua própria vida.

Esta é uma oportunidade para *mães, pais, cuidadoras/es, educadoras/es, psicólogas/os e pessoas abertas ao diálogo* sobre algo tão naturalizado na nossa cultura, que é a violência física como método educacional.
Vemmmmmm!!!🍻

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Mulheres no Cinema - 5º Festival de Nacional Cinema de Senador Canedo – CURTA CANEDO 2020

 


Respeitando todos os protocolos de mitigação de contágio do COVID-19, o Festival de Cinema de Senador Canedo Goiás – 5º CURTA CANEDO, também se materializa de forma diferente em 2020. Programado para o mês de Novembro, o evento será realizado em formato online. Caso os decretos municipais e estaduais que estabelecem o isolamento social e a proibição de aglomerações sejam retirados, ele volta a acontecer de forma presencial. Ao longo desses cinco anos, o Festival CURTA CANEDO acompanhou de perto a história do cinema brasileiro. Por nossas sessões, passaram importantes nomes e obras da cinematografia nacional. O Festival também contribuiu para que novos realizadores se lançassem no mundo do cinema, isso se deu por meio de nossas atividades de formação, da oferta de uma programação gratuita de filmes inéditos goianos, nacionais e internacionais e da promoção do contato com realizadores e produtores de outras partes do Brasil.

Em nossas sessões, o público assiste a uma vasta seleção de obras de curta metragens (até 25 min), diversos formatos e gêneros, que formam um panorama das mais representativas obras em longa e curta-metragem do cinema nacional contemporâneo. Nossa programação tem como objetivo valorizar as produções dos mais diversos estilos, tendo várias mostras temáticas, inclusive direcionada também ao público infantil e infanto-juvenil.

Como Funciona? A partir do dia 01 de Novembro de 2020 os filmes estarão disponíveis para assistir online e você pode ser um de nossos jurados assistindo e votando no melhor filme. Acompanhe abaixo as artistas homenageadas e a sinopses e artes dos 50 filmes selecionados para esta edição do Curta Canedo 2020 online

Fortaleça o cinema independente e a cultura regional!

Assistam AQUI


Conferência Online MOSTRA MULHERES NO CINEMA – Convidadas

Dia: 7 de novembro de 2020

Horário: 18 horas





3 de nov. de 2020

JULGAMENTO DE INFLUENCER MARIANA FERRER TERMINA COM SENTENÇA INÉDITA DE ‘ESTUPRO CULPOSO’ E ADVOGADO HUMILHANDO JOVEM - Schirlei Alves, Intercept Brasil

Foto: Advogado que humilhou Mari Ferri em audiência. “Aranha é defendido no processo por Cláudio Gastão da Rosa Filho, um dos advogados mais caros de Santa Catarina. Ele já representou Olavo de Carvalho em uma ação movida contra o historiador Marco Antonio Villa e chegou a defender a ativista antiaborto Sara Winter quando ela foi presa pela Polícia Federal por manifestações contra o STF.


Imagens inéditas da audiência mostram defesa do réu usando fotos sensuais da jovem para questionar acusação de estupro.



Assista o vídeo da audiência imagens AQUI


 NA SEGUNDA SEMANA de setembro, a hashtag #justiçapormariferrer alcançou aos trend topics do Twitter. O motivo: chegava ao fim o julgamento do empresário André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a jovem promoter catarinense Mariana Ferrer, de 23 anos, durante uma festa em 2018. Ele foi considerado inocente.

Segundo o promotor responsável pelo caso, não havia como o empresário saber, durante o ato sexual, que a jovem não estava em condições de consentir a relação, não existindo portanto “intenção” de estuprar. Por isso, o juiz aceitou a argumentação de que ele cometeu “estupro culposo”, um “crime” não previsto por lei. Como ninguém pode ser condenado por um crime que não existe, Aranha foi absolvido.

A excrescência jurídica, até então inédita, foi a cereja do bolo de um processo marcado por troca de delegados e promotores, sumiço de imagens e mudança de versão do acusado. Imagens da audiência as quais o Intercept teve acesso mostram Mariana sendo humilhada pelo advogado de defesa de Aranha.

A defesa do empresário mostrou cópias de fotos sensuais produzidas pela jovem enquanto modelo profissional antes do crime como reforço ao argumento de que a relação foi consensual. O advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho analisou as imagens, que definiu como “ginecológicas”, sem ser questionado sobre a relação delas com o caso, e afirma que “jamais teria uma filha” do “nível” de Mariana. Ele também repreende o choro de Mariana: “não adianta vir com esse teu choro dissimulado, falso e essa lábia de crocodilo”.

A jovem reclamou do interrogatório para o juiz. “Excelentíssimo, eu tô implorando por respeito, nem os acusados são tratados do jeito que estou sendo tratada, pelo amor de Deus, gente. O que é isso?”, diz. As poucas interferências do juiz, Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, ocorrem após as falas de Gastão. Em uma das situações, o juiz avisa Mariana que vai parar a gravação para que ela possa se recompor e tomar água e pede para o advogado manter um “bom nível”.

Apesar do processo correr em segredo de justiça, foi a própria Mariana que tornou seu caso público pelas redes sociais, em maio de 2019. Segundo ela, foi uma forma de pressionar a investigação que considerava parada devido à influência de Aranha. Filho do advogado Luiz de Camargo Aranha Neto, que já representou a rede Globo em processos judiciais, Aranha é empresário de jogadores e é visto com frequência ao lado de figuras como o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário e Gabriel Jesus. Na festa em que Mariana afirma ter sido estuprada, por exemplo, ele estava acompanhado de Roberto Marinho Neto, um dos herdeiros da Globo.

O perfil de Mariana no Instagram, em que ela compartilhava detalhes do caso, foi removido pela rede social em agosto deste ano. Na ocasião, a página contava com mais de 850 mil seguidores. Pelo Twitter, ela compartilhou um print em que a plataforma justifica que a conta foi removida “devido a um processo judicial”. Segundo Mariana, Aranha teria solicitado a remoção do conteúdo na justiça.

O perfil de Mariana no Instagram, em que ela compartilhava detalhes do caso, foi removido pela rede social em agosto.

Aranha é defendido no processo por Cláudio Gastão da Rosa Filho, um dos advogados mais caros de Santa Catarina. Ele já representou Olavo de Carvalho em uma ação movida contra o historiador Marco Antonio Villa e chegou a defender a ativista antiaborto Sara Winter quando ela foi presa pela Polícia Federal por manifestações contra o STF.

O estupro, segundo Mariana, teria ocorrido na noite de 15 de dezembro de 2018, na festa de abertura do verão Music Sunset do beach club Café de la Musique, em Jurerê Internacional, em Florianópolis, praia conhecida por ser point de ricos e famosos. Os ingressos para os eventos no local variam entre R$ 100 e R$ 1,5 mil, dependendo da festa. O passaporte de acesso aos camarotes pode custar muito mais.

Mariana, na ocasião com 21 anos, trabalhava como promotora do evento, responsável por divulgar a festa nas redes sociais. Um vídeo, que mostra Mariana grogue subindo uma escada com a ajuda de Aranha em direção a um camarim restrito da casa, foi vazado na internet. Eles sobem os degraus às 22h25. Seis minutos depois, ela desce, seguida de Aranha. A polícia só solicitou o material de forma oficial ao beach club meses depois do início das investigações, e a boate alegou que o dispositivo de armazenamento exclui as imagens após quatro dias. Por isso, apesar de a boate ter 37 câmeras de segurança, não foi possível recuperar imagens do resto da noite. Mesmo assim, o vídeo vazado na internet foi incluído no processo.

Em seu depoimento à polícia, Mariana afirmou que teve um lapso de memória entre o momento em que uma amiga a puxou pelo braço e a levou para um dos camarotes do Café em que o empresário Aranha estava e a hora em que “desce uma escada escura”. Ela acredita ter sido dopada. A única bebida alcoólica anotada na comanda do bar em seu nome foi uma dose de gim. Mariana era virgem até então, o que foi constatado pelo exame pericial.

Tanto a virgindade dela quanto a sua manifestação nas redes sociais foram usadas pelo advogado do empresário, que alega que ela manipulou os fatos. “Tu vive disso? Esse é teu criadouro, né, Mariana, a verdade é essa, né? É teu ganha pão a desgraça dos outros? Manipular essa história de virgem?”, disse Cláudio Gastão durante a audiência de instrução e julgamento.

Um vídeo, que mostra Mariana grogue subindo uma escada com a ajuda de Aranha em direção a um camarim restrito da casa, foi vazado na internet.

Como ‘estupro de vulnerável’ virou ‘estupro culposo’

Em julho de 2019, o primeiro promotor a assumir o caso, Alexandre Piazza, denunciou André de Camargo Aranha por estupro de vulnerável, quando a vítima está sob efeito de álcool ou de algum entorpecente e não é capaz de demonstrar consentimento ou de se defender. Ele também pediu a prisão preventiva de Aranha, aceita pela justiça e depois derrubada em liminar na segunda instância pela defesa do empresário. Aranha cumpriu apenas medidas cautelares como a apreensão do passaporte.

Na denúncia a que tivemos acesso, Piazza considerou como prova o material genético colhido na roupa de Mariana e um copo no qual Aranha bebeu água durante interrogatório na delegacia. O promotor também levou em conta “as mensagens desconexas encaminhadas pela vítima aos seus colegas” após descer as escadas do camarim onde o crime ocorreu, além dos depoimentos de Mariana, de sua mãe e do motorista de Uber que a levou até em casa.

Luciane Aparecida Borges, a mãe de Mariana, contou ter sentido um cheiro forte de esperma quando a filha chegou em casa após a festa. Segundo ela, Mariana não costumava beber e nunca havia chegado em casa naquele estado. O motorista citado pelo promotor na denúncia disse que a jovem passou a viagem chorando e falando com a mãe ao telefone. Para ele, ela parecia estar sob o efeito de drogas.

Também foram anexados ao processo áudios enviados por Mariana a pelo menos três amigos após descer as escadas do camarim. Em um deles, ela diz: “amiga, pelo amor de Deus, me atende, eu tô indo sozinha, não aguento mais esse cara do meu lado, pelo amor de Deus”. O promotor pediu ainda que fosse averiguada a conduta do primeiro delegado que atendeu a ocorrência e não solicitou as imagens das 37 câmeras de segurança do clube.

O entendimento do Ministério Público sobre o que aconteceu naquela noite, porém, mudou completamente na apresentação das alegações finais. O promotor Piazza deixou o caso para, segundo o MP, assumir outra promotoria, e quem pegou o processo foi Thiago Carriço de Oliveira. É nas alegações finais de Oliveira que aparece a tese do estupro “sem intenção”.

Para o novo promotor, não foi possível comprovar que Mariana não tinha capacidade para consentir com o ato sexual, desqualificando assim o crime de estupro de vulnerável descrito na denúncia pelo seu colega. Ele se baseia principalmente nos exames toxicológicos que não reconheceram nem álcool nem drogas no sangue de Mariana naquela noite e na aparente sobriedade indicada pela postura de Mariana ao sair do Café de la Musique e se deslocar até outro beach club em busca das amigas captada pelas câmeras da rua, da Polícia Militar.

No seu primeiro depoimento, em maio de 2019, ainda na delegacia, André de Camargo Aranha negou que tivesse tido contato com Mariana. No ano seguinte, quando prestou depoimento em juízo, mudou sua versão e afirmou ter feito apenas sexo oral nela.

Segundo o empresário, Mariana teria se aproximado dele no momento em que ele foi pagar a conta no bar e teria feito um carinho em seu cabelo. Em seguida, segundo Aranha, ela teria pedido para ir ao banheiro – momento em que subiram as escadas para usar o banheiro do camarim restrito. Ele teria então feito sexo oral e logo deixado o local por decisão de Aranha.

Ao aceitar o pedido de absolvição, o juiz Rudson Marcos concordou com a tese do promotor e afirmou que é “melhor absolver 100 culpados do que condenar um inocente”. A defesa de Mariana recorreu da decisão.

Filho do advogado Luiz de Camargo Aranha Neto, que já representou a rede Globo em processos judiciais, Aranha é empresário de jogadores e é visto com frequência ao lado de figuras como o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário e Gabriel Jesus.

 

Foto: Reprodução

Para a promotora Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, a tese jurídica da condição “culposa” para casos de estupro abre precedente para dificultar a demonstração desses crimes. Ela destaca que os tribunais costumam ter posicionamento firme pela consideração da palavra da vítima como prova de estupro e que os laudos periciais desses casos costumam ser negativos porque os vestígios desaparecem em poucas horas. Ela avalia que o rompimento do hímen e a presença de esperma, detectados pelo exame de corpo de delito, porém, são provas contundentes. “Denunciei centenas de processos de estupro, mas em nenhum dos meus casos me deparei com uma alegação como essa, é bastante diferente do que acontece nos processos de estupro”.

A delegada Bárbara Camargo Alves, da Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande, considera a tese de estupro culposo perigosa, uma vez que esses crimes costumam ocorrer entre quatro paredes e a única prova acaba sendo a palavra da vítima. “[A tese] está dando para o homem o ensinamento diverso daquele que a gente está tentando mostrar, de que não é não. Se a pessoa não está completamente capacitada para consentir, ele não deve manter a relação sexual. E não importa se ela está bêbada porque quis se embriagar ou porque foi dopada. Não é esse o tipo de resposta que a gente espera do poder Judiciário. Se não tem como provar que ele sabia ou não que ela estava bêbada, vai absolver?”, disse.

Conversei com a OAB de Santa Catarina, que confirmou que teve acesso à cópia do processo judicial e informou que oficiou o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho para que preste esclarecimentos sobre sua conduta na audiência do caso. A instituição não deu mais detalhes porque o processo ético disciplinar corre em sigilo e qualquer divulgação de informação pode anular o procedimento. Ao ser questionado sobre suas ações durante o interrogatório, o advogado informou que não iria comentar um processo sob segredo de justiça, “principalmente em face de indagações descontextualizadas que revelam má fé e parcialidade”.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos também disse que remeteu ofícios às corregedorias do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e do Ministério Público de Santa Catarina, à Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Nacional de Justiça e Conselho Nacional do Ministério Público para que esses órgãos investigassem as condutas dos profissionais que estavam presentes na audiência. O Conselho Nacional do MP, o Conselho Nacional de Justiça e o Tribunal de Justiça catarinense, porém, afirmam não ter recebido nenhuma notificação ou denúncia sobre o caso.