22 de jul de 2015

Aborto de “bandidos” no útero: Ou como o poço não tem fundo no Brasil - Leonardo Sakamoto

“Um dia, nós chegaremos a um estágio no qual seremos capazes de determinar se a criança no útero da mãe tem tendências criminais e, se sim, a mãe não será autorizada a dar à luz.''

A declaração teria sido por Laerte Bessa (PR-DF), relator do projeto de redução da maioridade penal, ao jornal inglês The Guardian e resgatada pela revista Fórum, no melhor estilo Minority Report – aquele filme em que Tom Cruise prende os bandidos antes deles cometerem os crimes. Uma outra declaração dada por ao jornal afirma que, em duas décadas, reduziremos a maioridade para 12 anos.

Em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, ele disse que não falou em aborto e que a matéria escrita em inglês “ganhou interpretações erradas''.

Mas, vejamos: recebi, meses atrás, uma doce mensagem de leitor dizendo que “mãe de bandido deveria ser esterilizada''.

Não fiquei chocado porque, depois da popularização da internet, nada me choca. Ok, talvez Datena como possível candidato à prefeitura de São Paulo mas, fora isso, nada. O pior é que se perguntar para o missivista se é a favor de garantir às mulheres a autonomia sobre o próprio corpo, ele cospe na sua cara.

Daí, tentando seguir essa linha de pensamento ignorante e imbecil, ironizei o comentário do leitor, em um post em abril deste ano:

“Talvez seja essa a saída e não a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos: Esterilizar úteros que pariram criminosos de forma a interromper o terreno fértil para crimes. Ou, talvez, se nossa ciência permitir, descobrir com cálculos precisos os úteros ruins e impedir que deles brote algo.''

Um amigo jornalista, que leu o post na época, me alertou para tomar cuidado com textos ficcionais que forçavam a barra. “Tá louco, Saka? Quem toparia uma aberração dessas? Não viaja…''

Rá!

Leia também:
Ao invés de reduzir a maioridade, que tal esterilizar mães de bandidos?

Isso ensina uma lição, meu caro amigo: Pense no pior filme B de terror? Ele não se compara à realidade brasileira.

Escrevi naquele post também que, conhecendo nossa sociedade, os “úteros ruins'' passíveis de aborto forçado não serão úteros ricos, que sempre tiveram acesso a tudo e que repousam em lençóis de algodão egípcio – mesmo que de alguns deles tenha brotado os que põem fogo em indígenas em pontos de ônibus, espancam pessoas em situação de rua ou atropelam ciclistas.

Mas úteros negros e pardos, que lavam roupa, fazem faxina e não raro criam os filhos sozinhos. Úteros que andam de ônibus, ganham uma miséria, dividem-se entre o trabalho e a família. E, por isso, não vivem, apenas sobrevivem, enfileirando dias e noites, na periferia de alguma grande cidade.

Depois desse episódio profético, se eu fosse você, acreditaria no alerta que venho fazendo há tempos: com esse Congresso Nacional, nada está a salvo. Nem o direito das mulheres ao voto, nem a República, muito menos a Lei Áurea.


Fonte: Blog do Sakamoto

20 de jul de 2015

Vendem-se milagres! - Luiz Ruffato

Aceitar que Eduardo Cunha paute as demandas da sociedade com suas ideias retrógradas é admitir melancolicamente que já não alimentamos sonhos de um futuro melhor

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O presidente da Câmara, Eduardo Cunha. / FABIO RODRIGUES POZZEBOM (AGÊNCIA BRASIL)


Por Luiz Ruffato

Em agosto, a Câmara dos Deputados vota, em segundo turno, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos, projeto imposto pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como solução para a violência urbana no país. Cunha, com sua estreita visão populista, consegue mobilizar a parte da população que acredita poder resolver profundos problemas estruturais com rasas ideias salvacionistas. O que ele oferece ao Brasil são milagres – e quem busca milagres são aqueles que já perderam toda a esperança.

A questão é que aqueles que perderam a esperança não pensam racionalmente, mas agem por impulso na crença em algo improvável. É assim que crescem as seitas fundamentalistas, é assim que surgem as lideranças messiânicas. Uma sociedade desencantada é um organismo refém de aventureiros. Já vivenciamos situação semelhante em tempos recentes, quando, em 1990, com o país destruído pelos militares e pela gestão desastrosa de José Sarney, entregamos a Presidência da República a Fernando Collor de Melo, um político obscuro que transformou a administração pública num balcão de negócios.

Aquele conturbado período de desmandos provocou um sério desvio de conduta na jovem democracia brasileira. Se num primeiro momento pensamos que aoperação que forçou Collor a renunciar extirpara de vez o tumor da corrupção, logo o vimos ressurgir, agressivo e devastador, alastrando por todos os setores da sociedade e atingindo até mesmo políticos e partidos que julgávamos imunes àdoença, como o PSDB de Fernando Henrique Cardoso e o PT de Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, as metástases desse câncer colocam em risco a própria sobrevivência da nossa democracia.

Aceitar que Eduardo Cunha paute as demandas da sociedade com seu catálogo de ideias retrógradas é admitir melancolicamente que já não alimentamos sonhos de um futuro melhor. Cunha, que surgiu para a política pelas mãos do então tesoureiro de Collor, Paulo Cesar Faria, de funesta memória, possui extensa ficha corrida na Justiça, incluindo citação no processo daOperação Lava Jato. Seu discurso oportunista viceja entre os despossuídos sociais, os desamparados ideológicos, os fracos de vontade, os ignorantes.

A primeira e necessária condição para tentar resolver um problema é aceitar que temos um problema. Nossa sociedade, individualista e narcisista, embora perceba que algo não vai bem no seu entorno, prefere responsabilizar o próximo pelas mazelas e aguardar de braços cruzados soluções mágicas. A violência urbana não é enfermidade, mas sintoma. A inacreditável taxa de homicídios – 29 assassinatos a cada 100 mil habitantes, a 11º do ranking mundial – tem que ser compreendida de maneira ampla. São várias as suas causas: o tráfico de drogas, a desigualdade social, a disseminação de armas de fogo, o álcool, a corrupção, a educação de péssima qualidade, o desemprego, a impunidade, a aceitação pela população da ruptura jurídica (chacinas, execuções sumárias, tortura), a desestruturação dos núcleos familiares, o racismo, o machismo, a homofobia, o desrespeito aos direitos básicos dos cidadãos.

Chega a ser patético pensar que a maior parte da população acredita – pois trata-se de questão de fé – que a diminuição da maioridade penal de 18 para 16 anos significará um passo adiante no enfrentamento do complexo tema da violência urbana. Enquanto nos mantemos alienados, recusando a assumir nossa cota de responsabilidade, delegamos a solução do problema a curandeiros, que oferecem milagres a baixo custo. O ponto é que, atuando assim, nos tornamos dependentes de ações complementares, e o curandeiro ganhará mais e mais espaço em nossa vida. Vivemos numa democracia, imperfeita, mas em curso. Resta saber o queremos legar aos nossos descendentes. Podemos pensar grande e nos orgulharmos de deixar para eles um país mais decente, mais justo, mais solidário. E podemos assumir nossa mediocridade, acatando as promessas que o camelô espiritual da esquina nos oferece.


Fonte: El país em 15 de julho de 2015

17 de jul de 2015

Cora Coralina, do século passado e do umbigo do mundo – Goiás\Brasil ¬ Cora Coralina, del siglo pasado y del ombligo del mundo - Goiás\Brasil




De tudo que já li sobre a solidariedade entre mulheres - da filosofia, passando pela antropologia, sociologia e seguindo para o campo literário, nada me comove tanto como o poema “Todas as vidas”, de Cora Coralina. Colocar todas as mulheres dentro de si, integrando-as ao seu ser é um dos gestos poéticos mais belos que já testemunhei. Todavia, mais que expressar a beleza da compaixão por suas irmãs de condição, Cora Coralina se faz libertária ao declarar que sua vida é “a vida mera das obscuras”. Somos todas iguais, sentencia a senhora do século passado que nasceu no umbigo do mundo. “Todas as vidas” não toca somente meu coração, faz vibrar de emoção todas as minhas entranhas, pois igual a Cora sou uma obscura, que nesse mundo muitas vezes precisou fazer das vísceras, das tripas, um coração.

De todo lo que he leído sobre la solidaridad entre las mujeres - de la filosofía, seguiendo a la antropologia y la sociologia, hasta el campo literario, nada mí conmove tanto como el poema "Todas las vidas" de Cora Coralina. Poner todas las mujeres dentro de si misma, integrándolas en su ser es uno de los más bellos gestos poéticos que he presenciado. Sin embargo, más allá de expresar la belleza de la compasión por sus hermanas de condición, Cora Coralina se hace libertaria al declarar que su vida es la misma “vida vana de las oscuras”. Todas somos iguales, concluye la señora del siglo pasado, que nació en el ombligo del mundo. "Todas las vidas" no sólo toca mi corazón, hace vibrar de emoción a todas mis entrañas, porque igual a Cora soy una oscuro, que en este mundo a menudo tuve que hacer de las vísceras, de las tripas, un corazón.

TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

                        Cora Coralina


TODAS LAS VIDAS

Vive dentro de mí
una cabocla* vieja
de ojo maligno, agazapada al pie de las cenizas
mirando para el fuego
Reza quebrantamiento
Pone hechizo...
Ogum. Orixá
macumba, herrero.
Ogã, padre-de-santo

Vive dentro de mí
la lavandera del Río Vermelho**.
Su olor sabroso
de agua y jabón.
Cuerdas de paño.
Paquete de ropa,
piedra añil.
Su corona verde santo-Caetano

Vive dentro de mí
la mujer cocinera.
Pimienta y cebolla.
Cocretas bien hechas.
Olla de barro
Estante de Leña
cocina vieja
Toda negrita
Bien rizada de cenizas
Piedra puntiaguda.
Cuenco de coco
Aplastando ajo-sal

Vive dentro de mí
la mujer del pueblo.
Bien proletaria
Bien lenguaraz,
insolente, sin prejuicios.
de gruesa corteza
sencillas sandalias
y llena de críos.

Vive dentro de mí
la mujer del campo
Injerto de la tierra,
Medio cabriada
Que mucho trabaja.
Que despierta temprano
Analfabeta.
De pie en el suelo.
De muchos nacimientos
que creó muchos niños
Sus doce hijos.
Su veinte nietos.

Vive dentro de mí
la mujer de la vida.
Mi hermanita…
Tan despreciada
Tan murmurada…
Fingiendo alegre su triste fado.
Todas las vidas dentro de mí:
En mí vida -
la vida vana de las oscuras.

Cora Coralina
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*Cabocla – hija de la mescla de negro con indio.
** Rio Vermelho – rio que cruza la ciudad  natal de la poetiza Cora Coralina
Colaboração: Osair Manassan e Ademar de Queiroz