17 de jul de 2015

Cora Coralina, do século passado e do umbigo do mundo – Goiás\Brasil ¬ Cora Coralina, del siglo pasado y del ombligo del mundo - Goiás\Brasil




De tudo que já li sobre a solidariedade entre mulheres - da filosofia, passando pela antropologia, sociologia e seguindo para o campo literário, nada me comove tanto como o poema “Todas as vidas”, de Cora Coralina. Colocar todas as mulheres dentro de si, integrando-as ao seu ser é um dos gestos poéticos mais belos que já testemunhei. Todavia, mais que expressar a beleza da compaixão por suas irmãs de condição, Cora Coralina se faz libertária ao declarar que sua vida é “a vida mera das obscuras”. Somos todas iguais, sentencia a senhora do século passado que nasceu no umbigo do mundo. “Todas as vidas” não toca somente meu coração, faz vibrar de emoção todas as minhas entranhas, pois igual a Cora sou uma obscura, que nesse mundo muitas vezes precisou fazer das vísceras, das tripas, um coração.

De todo lo que he leído sobre la solidaridad entre las mujeres - de la filosofía, seguiendo a la antropologia y la sociologia, hasta el campo literario, nada mí conmove tanto como el poema "Todas las vidas" de Cora Coralina. Poner todas las mujeres dentro de si misma, integrándolas en su ser es uno de los más bellos gestos poéticos que he presenciado. Sin embargo, más allá de expresar la belleza de la compasión por sus hermanas de condición, Cora Coralina se hace libertaria al declarar que su vida es la misma “vida vana de las oscuras”. Todas somos iguales, concluye la señora del siglo pasado, que nació en el ombligo del mundo. "Todas las vidas" no sólo toca mi corazón, hace vibrar de emoción a todas mis entrañas, porque igual a Cora soy una oscuro, que en este mundo a menudo tuve que hacer de las vísceras, de las tripas, un corazón.

TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

                        Cora Coralina


TODAS LAS VIDAS

Vive dentro de mí
una cabocla* vieja
de ojo maligno, agazapada al pie de las cenizas
mirando para el fuego
Reza quebrantamiento
Pone hechizo...
Ogum. Orixá
macumba, herrero.
Ogã, padre-de-santo

Vive dentro de mí
la lavandera del Río Vermelho**.
Su olor sabroso
de agua y jabón.
Cuerdas de paño.
Paquete de ropa,
piedra añil.
Su corona verde santo-Caetano

Vive dentro de mí
la mujer cocinera.
Pimienta y cebolla.
Cocretas bien hechas.
Olla de barro
Estante de Leña
cocina vieja
Toda negrita
Bien rizada de cenizas
Piedra puntiaguda.
Cuenco de coco
Aplastando ajo-sal

Vive dentro de mí
la mujer del pueblo.
Bien proletaria
Bien lenguaraz,
insolente, sin prejuicios.
de gruesa corteza
sencillas sandalias
y llena de críos.

Vive dentro de mí
la mujer del campo
Injerto de la tierra,
Medio cabriada
Que mucho trabaja.
Que despierta temprano
Analfabeta.
De pie en el suelo.
De muchos nacimientos
que creó muchos niños
Sus doce hijos.
Su veinte nietos.

Vive dentro de mí
la mujer de la vida.
Mi hermanita…
Tan despreciada
Tan murmurada…
Fingiendo alegre su triste fado.
Todas las vidas dentro de mí:
En mí vida -
la vida vana de las oscuras.

Cora Coralina
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*Cabocla – hija de la mescla de negro con indio.
** Rio Vermelho – rio que cruza la ciudad  natal de la poetiza Cora Coralina
Colaboração: Osair Manassan e Ademar de Queiroz

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