31 de mai de 2016

Brasil: a cada 6 horas uma mulher é assassinada por um agressor conhecido, alerta ONU Mulheres - ONUBR

“Instamos as autoridades a empenhar todo o peso da lei contra os agressores e proteger a dignidade das vítimas”, disse a diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe, Luiza Carvalho, que assina nota da agência sobre estupros coletivos ocorridos no Brasil.



Participantes de ato unificado pelo fim da violência contra a mulher, realizado em São Paulo. Foto: Flickr CC/Mídia Ninja


Participantes de ato unificado pelo fim da violência contra a mulher, realizado em São Paulo. Foto: Flickr CC/Mídia Ninja
A diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe, Luiza Carvalho, assinou uma nota da agência comentando os casos recentes de estupros coletivos ocorridos no Brasil.
“Nenhuma forma de violência contra as mulheres e meninas pode ser aceita: pelo fim da cultura de tolerância com a violência contra as mulheres. Pelo fim da impunidade”, destacou ela no comunicado divulgado neste domingo (29).
“Proteger a vida de mulheres e meninas é uma responsabilidade de toda a sociedade”, acrescenta a nota.
O escritório regional da ONU Mulheres ressaltou que a tolerância social da violência contra as mulheres e meninas é “sistemática” e inclui violência física, psicológica e econômica, ocorrendo tanto nos espaços públicos como nos privados.
Luiza Carvalho, diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe. Foto: Bruno Spada/ONU Mulheres
Luiza Carvalho, diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe. Foto: Bruno Spada/ONU Mulheres
“A Oficina Regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe se une ao repúdio do atroz caso de estupro perpetrado por 30 homens contra uma adolescente no Rio de Janeiro, Brasil. Além da brutalidade com que o crime foi cometido, a degradação contra a vítima foi acentuada por imagens e gravações publicadas na internet sobre este ato condenável.
Preocupa, ainda, outro estupro coletivo registrado em Bom Jesus, estado do Piauí, onde outra adolescente foi vítima de violação por parte de cinco homens, cujo crime segue em investigação.
Esses acontecimentos têm causado a mais forte rejeição e comoção na comunidade internacional. Diversas entidades públicas, organizações da sociedade civil, agências do Sistema das Nações Unidas, meios de comunicação social, assim como personalidades dos âmbitos artístico e cultural se pronunciaram com contundência.
Deste Escritório Regional, somamos a nossa voz para a enérgica condenação e instamos as autoridades competentes a empenhar todo o peso da lei contra os agressores e a proteger a intimidade e a dignidade das vítimas.
A tolerância social da violência contra as mulheres e meninas é sistemática e vai desde a violência física, psicológica, econômica e acontece tanto nos espaços públicos como nos privados. A violência se mantém durante desastres naturais e conflitos armados e permanece para sempre na vida de homens e mulheres e com consequências nefastas para toda a sociedade. Dados da OPAS [Organização Pan-Americana da Saúde] relevam que:
A iniciação sexual forçada e não desejada acontece desde cedo na vida de muitas meninas na América Latina e Caribe:
Proporções expressivas de mulheres jovens, em todas as pesquisas, informaram que a sua primeira relação sexual havia sido forçada. Os esposos, companheiros, namorados e outros parceiros eram os agressores informados com maior frequência nas pesquisas com tais indicadores.
A exposição à violência na infância aumenta o risco de outras formas de violência em etapas posteriores da vida e tem importantes efeitos intergeracionais negativos:
A exposição à violência na infância pode ter efeitos de longo prazo e intergeracionais. A prevalência da violência por parte do esposo/companheiro era significativamente maior (em geral umas duas vezes maior) entre as mulheres que informaram ter sido maltratadas fisicamente na infância na comparação com aquelas que não tinham passado por tais violências na infância.
A proporção de mulheres que informaram que seu pai (ou padrasto) agredia a sua mãe (ou madrasta) variava amplamente segundo o país, entre a oitava parte (12,6 %) no Haiti, em 2005/6, e quase a metade (48,3 %) na Bolívia, em 2003. Em sete de 13 países, a quarta parte ou mais das mulheres informaram exposição a algum tipo de violência doméstica.
A impunidade frente aos crimes cometidos contra as mulheres e as meninas e a alta tolerância social com a violência contra elas posicionaram a América Latina e Caribe como a região com mais assassinatos de mulheres. De acordo com a Convenção de Genebra, no seu relatório de 2011, dos 2,5 países com mais altas taxas de feminicídio, 14, mais de 50%, estão na América Latina e Caribe. Calcula-se que, no Brasil, a cada 6 horas uma mulher é assassinada por um agressor conhecido.
Na Colômbia, a cada 6 dias, uma mulher é assassinada pelas mãos de seu companheiro ou ex-companheiro. No México, um recente estudo sobre as tendências dos últimos 25 anos do Instituto Nacional das Mulheres e ONU Mulheres demonstra que, mesmo com reduções das taxas de assassinatos de mulheres, segue, de maneira preponderante, os crimes cometidos por companheiro e ex-companheiro.
Para muitas pessoas, as reivindicações das mulheres, nos últimos anos, significam que estas violações sistemáticas dos direitos humanos são coisa do passado. Mas lembremos que, em âmbito mundial, 35% dos assassinatos de mulheres são cometidos por parceiro, comparado com 5% para os homens de acordo com estudos preliminares da Organização Mundial da Saúde. Esses cálculos devem ser vistos como modestos porque não há informação comparável entre os países, o que alimenta a cultura da impunidade.
Como explicou a relatora especial das Nações Unidas para Eliminação da Violência contra as Mulheres, suas causas e consequências, os assassinatos de mulheres relacionados com gênero, mais do que uma nova forma de violência, constituem a manifestação extrema das formas de violência que existem contra a mulher. Não se trata de incidentes isolados que ocorram de maneira repentina e imprevisto. São os últimos atos de violência que acontecem numa violência contínua.
Ao ver de maneira sistemática a violência que acontece no Brasil e no resto da América Latina, não podemos deixar de ver as correlações entre os crimes cometidos contra as mulheres pelo fato de serem mulheres, incluindo o estupro, com altas taxas de feminicídio em âmbito nacional e regional.
Portanto, fazemos um chamado para garantir o devido acesso aos serviços de atenção e proteção às vítimas, assegurando que incorporem a devida perspectiva de gênero e preservem a segurança, a dignidade e a privacidade das vítimas, evitando expô-las novamente a situações de risco e revitimização.
Assim, convidamos para uma reflexão profunda e urgente sobre a cultura da impunidade e tolerância a essas agressões, dos valores culturais e modelos negativos de masculinidade que estão por trás desses atos, que reproduzem e garantem condutas de agressão, dominação e violência contra mulheres e meninas.
Luiza Carvalho
Diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe
Fonte: Nações Unidas no Brasil, 30 de maio de 2016.

30 de mai de 2016

Cultura do estupro e a máfia fraterna dos homens - Por Maurício Ayer

“De como não só o delegado, mas também os ‘homens de bem’, cândidos privilegiados, sustentam o sorriso de escárnio dos estupradores”


"E o que o conceito de ~ cultura do estupro ~ mostra é que essa comunidade sitiada pelo crime é esta aqui, a minha comunidade. Eu vivo nessa comunidade que pratica cotidianamente o crime. Se alguém se sente à vontade de ser violento, verbal, física ou simbolicamente, ao meu lado é porque sou seu aliado, seu sorridente cúmplice. É porque fui eu mesmo violentado em minha humanidade, que preciso recuperar não só para os atos extremos mas para toda e qualquer violência. Se as pequenas violências não fossem toleradas e estimuladas, as grandes não seriam possíveis"


Por Maurício Ayer


A República do Escárnio, como bem definiu o [Vladimir] Safatle ao tratar dos sitiadores do governo federal, está toda no sorriso de pop star do estuprador e divulgador do vídeo expondo a menina agredida ao sair de seu depoimento na delegacia.
A polícia diz ter dúvidas se foi estupro e não achou que a divulgação do vídeo de uma menina de 16 anos com a genitália sangrando dê ensejo a um flagrante. Não entendo de direito criminal, não sei quais são todos os crimes implicados neste ato, mas a polícia obviamente sabe. E deu plena sustentação ao sorriso escarnecedor deste indivíduo.
Mas é outra sustentação ao sorriso do estuprador que nós homens precisamos enfrentar. Ele só sorri e acena para as câmeras porque chegará em sua casa, em sua comunidade, em sua rua, e rirá junto com outros muitos homens. Imagino o que é viver numa comunidade dessas, onde os estupradores são tratados não apenas como pessoas normais, mas até como pop stars, gente que de repente ficou famosa porque  ousou ~ ir além do ~ ordinário ~, que seria estuprar, e ~ lacrou nas redes ~ mostrando e falando a escrotidão mais inacreditável. Que cara foda!
E o que o conceito de ~ cultura do estupro ~ mostra é que essa comunidade sitiada pelo crime é esta aqui, a minha comunidade. Eu vivo nessa comunidade que pratica cotidianamente o crime. Se alguém se sente à vontade de ser violento, verbal, física ou simbolicamente, ao meu lado é porque sou seu aliado, seu sorridente cúmplice. É porque fui eu mesmo violentado em minha humanidade, que preciso recuperar não só para os atos extremos mas para toda e qualquer violência. Se as pequenas violências não fossem toleradas e estimuladas, as grandes não seriam possíveis.
O único caminho que nos resta é o de agir ativamente pela destruição desse estado violento, do qual muitos de nós se aproveitam e do qual podemos ser cândidos beneficiários – das vantagens, dos melhores pagamentos, de ter mais voz nos espaços, de não ser o objeto direto e imediato da violência física.
Não se trata de ter vergonha de ser homem. É ter vergonha na cara. É ter o orgulho de ser homem que enfrenta o seu desafio histórico: o de desmantelar essa organização criminosa, essa máfia – fraterna – em que fomos metidos e que age em nós, por nós.

Fonte: OutrasPalavras, 30 de maio de 2016. 

Fonte: Ruth Orkin, “American Girl in Italy”, 1951

29 de mai de 2016

BRASIL: UM PROJETO VITORIOSO - Luiz Antonio Simas

"Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, apologia ao estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.
O projeto de normatização desse Brasil de horrores, para que seja bem-sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos". 


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O Brasil que anda se vendo no espelho é aquele formado por capitães do mato, capatazes, senhores de engenho, feitores, bandeirantes apresadores de índios e destruidores de quilombos, etnocidas, torturadores, coronéis, pistoleiros, membros do esquadrão da morte, misóginos, homofóbicos, ágrafos, parasitas sociais, fanáticos religiosos e arrivistas inescrupulosos.
Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, apologia ao estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.
O projeto de normatização desse Brasil de horrores, para que seja bem-sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura do estupro e da violência: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal. Esse Brasil é um país de corpos doentes e todos nós compartilhamos dos ambientes doentios em que corpos brasileiros são condicionados e educados para o horror.
É preciso encarar que na mesma semana em que um clube de ricaços estabeleceu que corpos subalternos não podem frequentar banheiros destinados aos corpos bem-nascidos, trinta e três corpos educados para a boçalidade estupraram um corpo historicamente destinado à inexistência. Corpos de senzala e corpos de casa-grande; corpos de mulheres preparados para o estupro e corpos machos de algozes preparados para as funções de capitães do mato, adequadamente propícios para um país que é obra pensada: somos feitos do que Joaquim Nabuco chamou de obra da escravidão.
Há quem diga que o Brasil deu errado. Discordo e recentemente escrevi sobre essa ideia. O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro. Somos isso tudo, não? Neste sentido, desconfio que nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo. Somos um empreendimento escravagista fodidor dos corpos extremamente bem-sucedido.

Fazer o Brasil começar a dar errado é a nossa tarefa mais urgente".





Luiz Antonio Simas é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou em parceria com o caricaturista Cássio Loredano, pela editora Folha Seca, o livro O vidente míope, sobre o desenhista J. Carlos e o Rio de Janeiro da década de 1920.  É coautor, ao lado de Alberto Mussa, do ensaio Samba de Enredo, História e arte, lançado pela editora Civilização Brasileira (2010). Em 2012 publicou, na coleção Cadernos de Samba, o livro Portela – tantas páginas belas, pela editora Verso Brasil. Em 2013 lançou, pela Mórula Editorial, “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”, reunindo 41 pequenos ensaios sobre cultura popular carioca, originalmente publicados no jornal O Globo. 


Fotos: Sobrenatural, 20 de junho de 201 e Correio Popular, 20 de outubro de 2015

27 de mai de 2016

Criolo ao lado do pai - “Até quando temos que fazer sala, aguardando que os senhores saiam da mesa abastarda para recolhermos as migalhas”.

Leitores (as) do blog Educar Sem Violência,
Não dá para simplesmente dizer Feliz Final de Semana. Então, deixo com vocês a cena que mais me confortou nesses dias: dois homens, um filho ao lado de um pai. Carinhos, abraços, olhares cúmplices, corpos que se aproximam e se deixam tocar por amor, simples e delicado amor.
Cida Alves

ÉCORCHÉ* da Cultura do Estupro, dissecando o discurso que culpa e pune a vítima - Cida Alves


“Nunca vi uma mulher ser estuprada lavando louça na cozinha”

Sórdido comentário feito em rede social sobre o estupro coletivo cometido contra uma menina de 16 anos na Zona Oeste do Rio de Janeiro

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Uma frase curta que encerra em si toda uma cultura, a naturalização da violência contra os corpos femininos. Corpos que são entendidos como públicos, que todos podem ter acesso, passar a mão na rua, encoxar no ônibus ou no trem, exibir como troféu de predador mor por meio de vídeos e fotos íntimas e até mesmo violentar se a situação for favorável (ver abaixo reportagem sobre estudo liderado pelo professor Sarah Edwards e publicado em Violence and Gender).

Na cultura do estupro o corpo da mulher é público. Entretanto, sua condição feminina exige o claustro da vida privada.  Às mulheres é negado o espaço público, pois este é o lugar legítimo da vida política e da cidadania dos homens livres. Sob a égide da cultura do estupro, as mulheres não acenderam ainda à condição de cidadãs livres, são meros objetos sexuais, servas dos trabalhos domésticos, que devem limitar suas vidas às sombras do mundo privado. 

Para além da delimitação do espaço público e privado, a pequena frase esconde um mito e ostenta uma ameaça. O mito de que as violências ocorrem apenas no espaço público, na rua e que os algozes são os estranhos.

NÃO, CARA PÁLIDA! 
Pesquisas nacionais e internacionais já desmascaram essa mentira há mais de três décadas. Mais de 70% das violências sexuais, especialmente as que são cometidas contra crianças e adolescentes, ocorrem na esfera doméstica. Violências que são cometidas dentro de casa quando as meninas estão lavando louças, esfregando o chão, tomando banho, brincando com suas bonecas, dormindo em suas camas.... Infelizmente para nós mulheres não existe um lugar plenamente seguro.

A BÉLICA AMEAÇA!
A violência sexual é também uma arma de combate à emancipação e autonomia feminina. A violência sexual cometida contra as mulheres serve muito bem ao moralismo patriarcal. Parece uma contradição, mas de fato não é, o moralismo, a repressão sexual e as violências sexuais são diferentes faces da mesma moeda. O moralismo e a repressão sexual têm por finalidade inibir ou bloquear a liberdade sexual das mulheres. A violência sexual por vezes assume a função de punir as manifestações de avanço e liberdade sexual das mulheres. Nesse sentido, o estupro é uma “lição”, tem feito pedagógico. Por mais cruel que seja, ele é muito oportuno à moral patriarcal. Com o estupro fica dado o recado: 

- tá vendo menina, quem mandou querer ser uma igual a nós homens. Você não é cidadã. Você não é livre, nós que é mandamos no pedaço e podemos fazer com seu corpo o que bem entendermos.


Cida Alves
Goiânia, 27 de maio de 2016


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*ÉCORCHÉ – ESTUDOS DE ANATOMIA

Grande parte dos artistas que retratam a figura humana buscam conhecimento de anatomia para entender a estrutura que sustenta o corpo, a disposição dos ossos, o funcionamento das articulações, a origem e inserção dos músculos, acúmulos de gorduras, veias e tudo aquilo que constitui a figura que estão vendo e que buscam representar.

Ilustração: écorchés feito a partir de dissecação capturado no blog Ars Disegno

Nota de repúdio do Necrivi em relação ao “Regulamento Inter UFG 2016”.



Benjamin Garcia, Submariner, 2014

Nota de Repúdio

Nós, do Núcleo de Estudos Sobre Criminalidade e Violência (NECRIVI) da Universidade Federal de Goiás (UFG), vimos a público repudiar a imagem que está circulando nas redes sociais, intitulada “Regulamento Inter UFG 2016”.
O tal “regulamento” incita uma disputa que trata as mulheres como objetos, utilizando seus corpos como critérios de pontuação. Todas as categorias levantadas e suas respectivas pontuações merecem repúdio e indignação, pois são esses comportamentos tidos por muitos como “brincadeira” que resultam em assédios, estupros e homicídios.
Devemos ressaltar as categorias de caráter racista, que inferiorizam as mulheres negras de várias formas, e também o conteúdo transfóbico disseminado.  Uma pesquisa recente realizada pela própria UFG revela a sensação de insegurança vivida por sua comunidade, onde casos de assédio sexual, machismo, racismo e LGBTfobia foram denunciados por, aproximadamente, 50% dos entrevistados.
Não podemos aceitar esse tipo de manifestação misógina, uma prova viva da cultura de estupro que temos presenciado em nossa sociedade, principalmente quando se trata de um meio acadêmico, que tem como função a formação crítica, ética e profissional de seus universitários.

Goiânia, 26 de maio de 2016

Núcleo de Estudos sobre Criminalidade e Violência (NECRIVI)


Publicado originalmente em: https://necrivi.cienciassociais.ufg.br/

26 de mai de 2016

30 homens estupram uma menina no Rio de Janeiro – Brasil e a cultura do estupro ¬ 30 men rape one teenagers in Rio de Janeiro - Brazil and rape culture




O que é escandaloso? O que te indigna?

Para os falsos moralistas que tomaram de assalto o poder central em Brasília o estupro de uma mulher não os indignam. De palavras às ações eles demonstram claramente isso. 

O deputado federal Bolsonaro falou para quem quisesse ouvir que só não estuprava a deputada Maria do Rosário por que ela era “feia”. Na vergonhosa votação do dia 17 de abril esta mesma desprezível criatura elogiou o torturador que estuprava suas vítimas enfiando baratas e ratos vivos em suas vaginas.

Por coincidência ou não, o presidente interino do Brasil, Michel Temer, foi arrolado, junto com o deputado Paulo Maluf, como testemunha de defesa deste mesmo torturador, o carrasco Brilhante Ustra.

Dias atrás os deputados federais Bolsonara e Feliciano posaram ao lado de pastor condenado em 2013 por estuprar uma fiel na sede de sua própria igreja.  

E ontem (25 de maio), o ministro interino da Educação recebeu em seu gabinete o ator pornográfico que fez apologia ao estupro no programa do humorista canastrão Rafinha BastosAlexandre Fronta, tirando onda de fodão, dramatizou no palco o estupro que diz ter cometido contra uma mulher

Cida Alves 
Goiânia, 26 de maio de 2016.

Trinta homens, por Luara Colpa

Se me vejo me veem - Foto: Evelyn Ruman

“Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira”
Legião Urbana


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Trinta homens, por Luara Colpa

Trinta.
Vinte e nove
Vinte e oito
Vinte e sete
Vinte e seis
Vinte e cinco
Vinte e quatro
Vinte e três
Vinte e dois
Vinte e um
Vinte
Dezenove
Dezoito
Dezessete
Dezesseis
Quinze
Quatorze
Treze
Doze
Onze
Dez
Nove
Oito
Sete
Seis
Cinco
Quatro
Três
Dois
Um
Nenhum.
Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste momento, irmã.  Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o cheiro deste lugar, as lembranças. Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de casa. Todos eles.
Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para todos. Trinta.
Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.
Foram Trinta.
Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”. Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir a um criminoso.
Trinta.
Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram. Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco procuram o vídeo neste momento.
Agora o número se torna uma projeção geométrica. A misoginia aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira reação do público masculino em geral é ver o vídeo.
No entanto, quando pensei que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram seis, sete, oito, trinta.
Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares por você. Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague, mana!
E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe.
Que ecoe: Daqui vocês não passam.  Não passarão.
Que cada uma de nós seja porta voz do ocorrido¹. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher periférica, que nossas mãos sejam denúncia.
Na violência contra a mulher todas metemos a colher.
DENUNCIE.
No site do Ministério Público, Polícia Federal e disque 180. Mexeu com uma, mexeu com todas.

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¹- Em tempo: Acaba de ser noticiado via redes sociais, que uma garota “Bia” fora estuprada por 30 homens no RJ. O motivo é vingança do ex namorado, que convidou mais 29 “amigos” para estuprar a vítima. Nenhum se absteve, nenhum deles parou os amigos, nenhum saiu do local, nenhum deles se compadeceu com a vítima (que neste momento está hospitalizada).
Não obstante, filmaram o ocorrido, postaram no twitter e muitos outros homens compartilharam em suas redes sociais, fizeram piada e justificaram o crime.
Em segundos, milhares de mulheres se uniram na tarefa da conscientização de umas às outras, da denúncia formal, via PF, MP e Disque 180.
“O correto, nesses casos, não é denunciar o perfil do divulgador do material pela “timeline” da rede social.
Ajudem a denunciar, copiando a URL dos twittes e colando nos locais de denúncia dos sites :
Na ouvidoria no site do Ministério Público do RJ (mprj.mp.br/cidadao/ouvidoria) É importante se identificar.
O Ligue 180 também é um caminho para denunciar.”
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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 
FOnte: GGN, em 26 de maio de 2016.

25 de mai de 2016

Jodie Foster reclama de estupros criados por roteiristas com o único propósito de ‘motivar’ a personagem feminina - Prosa Livre


Jodie Foster esteve em Cannes na semana passada para apresentar o filme “Jogo do Dinheiro”, no qual atua como diretora, e que possui George Clooney e Julia Roberts no elenco. A produção é a quarta dirigida por Foster, que também trabalhou por trás das câmeras em outros longas e em episódios de “Orange Is The New Black” e “House of Cards”.
No Festival, além de exibir o filme, ela participou do bate-papo “Mulheres no Cinema”, promovido pela revista Variety e pela marca Kering, e falou sobre suas experiências na indústria. Com 50 anos de trabalho, Jodie tem muito o que contar.
Um dos tópicos discutido por ela foi o uso banal do estupro, feito com o único propósito de ‘motivar’ a personagem feminina.
“Uma das coisas que mais me irritava como atriz era ver que, quando os roteiristas homens buscavam uma motivação para a mulher, eles a estupravam”, contou a diretora. “Eu me perguntava por que ela era triste. Ah, ela foi estuprada. Eu me perguntava por que ela tinha problemas com o chefe. Ah, ela foi estuprada. Era ridículo. Estava em todo o filme que eu assistia. Se você procurasse pelo grande fator de motivação, era sempre o estupro, porque por alguma razão, os homens o viam como algo incrivelmente dramático. ‘Bem, isso é fácil! Vou criá-lo do nada e aplicá-lo nela’.”


O estupro tornou-se um recurso narrativo muito frequente na cultura pop, sendo empregado em diversas produções do cinema e nos seriados. Contudo, nem sempre ele é escrito de forma que faça sentido à trama ou de forma que não perpetue ideias erradas sobre esse crime, como vimos em “Game of Thrones” e na minissérie “Ligações Perigosas”. Se no caso do primeiro todos as cenas de violência sexual não acrescentaram nada ao arco das personagens, no segundo houve uma romantização de um evento que é extremamente traumático para vítimas.
Por isso, é preciso ter cautela ao escrever um estupro, pois grandes são as chances de que ele seja desnecessário ou que reforce estereótipos, como o de que a mulher estava se fazendo de ‘difícil’ ou de que o comprimento da roupa seja um indicativo de que ela estava ‘pedindo por algo’ (lembrete: ela nunca está), ou de que estupradores são monstros que vivem em ruas escuras, quando na verdade, em 70% dos casos os homens são conhecidos das vítimas.
Não só isso, o estupro em filmes e séries pode ainda reforçar de que consentimento e o direito da mulher sobre o próprio corpo pouco importam. Um pequeno estudo do ano passado trouxe um resultado preocupante: 31% dos jovens forçariam uma mulher a ter relações sexuais com eles caso ‘não houvesse consequências’. Isso mostra como falhamos em reconhecer as mulheres como seres humanos e como não conseguimos conversar sobre o estupro, de forma que procuramos nos distanciar dele, ao invés de tratá-lo como deveria ser tratado: um crime. E quando a mídia erra ao retratá-lo, ela dá continuidade a essa violência.
Dito isso, não quero dizer que estupro não deva ser retratado, mas que seja de forma responsável e com um propósito que não seja o de ‘motivar’ a personagem feminina ou apenas para chocar a audiência.
Para ajudar nessa tarefa, Jada Young, autora de um artigo sobre estupros da personagem Pennsatucky, de “Orange Is The New Black”, criou um teste, uma espécie de Teste Bechdel, mas com o objetivo de avaliar a necessidade do estupro em uma cena. São três perguntas:
  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?
  2. A cena de estupro possui o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?
Collant Sem Decote ainda adicionou mais um elemento: o corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objetivo de sexualização? Ou seja, em caso positivo para essa questão e negativo para todas as outras, é melhor deixar para trás a ideia do estupro de uma personagem.
Ter mais mulheres atuando atrás das câmeras ajuda a mudar a forma como as mulheres são retratadas em cena. Um estudo deste ano revelou que quanto maior o número de mulheres roteiristas em uma produção, melhor é a representação feminina nela.
Ainda assim, para Jodie Foster, os “executivos dos estúdios têm medo” de contratar mulheres, pois veem isso como um risco financeiro. Contudo, ela afirma que viu mudanças ao longo de sua carreira e defendeuuma participação maior das mulheres em filmes.
“Tudo mudava quando as mulheres estavam nos sets de filmagem. Parecia mais como uma família. Os sets ficavam mais saudáveis.”

Fonte: Prosa Livre, 16 de maio de 2016
Colaboração: Carolina Arcari, psicopedagoga e coordenadora do Instituto Cores que atua na prevenção de violências sexuais de crianças - Rio Verde\ Goiás.