13 de jan de 2016

Porque somos um país tão violento? - por Marcelo Feijó de Mello

Um texto para reflexão
Longe de querer dar uma resposta final a esta questão, ciente de que a violência é uma questão multidisciplinar, como psiquiatra tenho pensado em contribuições para entender a epidemia de violência que assola nosso país a mais de 3 décadas.
Somos infelizmente um dos países mais violentos do mundo. Os números dos homicídios, assaltos, violência doméstica contra crianças e mulheres, violência contra as minorias são vergonhosos. Com relação as crianças não estou falando de tapinhas no bumbum, e sim como medimos, tanto no Capão Redondo e Sapopemba (SP) e sim em soco na cara, queimadura com cigarro, apanhar com bastão de ferro. Nas famílias de crianças que trabalhavam nas ruas, esta é a regra. O que aconteceu em nosso país, que aprendi ter um povo cordial e alegre, porque esta assim tão violento? Porque temos medo de sair as ruas? Que o Brasil foi violento no passado longínquo, é fato, mas também eram os países desenvolvidos, que hoje ostentam baixíssimos índices de violência. A evolução das culturas, no que chamamos de países desenvolvidos, parece ter um papel importantíssimo nesta redução da violência entre humanos. Teríamos regredido em algum ponto? Que crise é esta?
A socialização está diretamente relacionada ao desenvolvimento de um país. A socialização individual vai interferir na sociedade como um todo. Um indivíduo bem adaptado socialmente é aquele capaz de se relacionar, fazer alianças, trabalhar em conjunto. Quanto maior a capacidade de um indivíduo em se adaptar socialmente, mais bem-sucedido ele será no seu grupo. Um grupo será mais bem-sucedido, se houver uma maior parcela de indivíduos com maior capacidade de socialização. A adaptação social depende da habilidade que uma pessoa tem em expressar suas ideias e afetos para os outros, assim como ter a percepção mais acurada das intenções e pensamentos dos outros. Seria aquele indivíduo capaz de ler o outro e transmitir mais claramente duas intenções.
Um grupo, como um país, seria a reunião de indivíduos, que se entendem e são aceitos como parte integrantes do país. Nosso grupo seria de mais de 200 milhões de pessoas que se consideram brasileiros. Talvez estejamos com um número mais elevado de pessoas pouco adaptadas socialmente, isto refletiria neste desequilíbrio, que levaria a esta grande incidência de violências. Dentro das consequências do aumento da violência é a falência da sociedade em conter a atividade violenta, através de mecanismos sociais, legais e policiais. Com certeza os níveis de corrupção institucionalizada, vandalismos, desrespeito ao direito dos outros, chegando aos assaltos, agressões e homicídios, vem deste desequilíbrio.
A base desta capacidade de adaptação social se inicia logo ao nascer, quando o bebe nasce ávido para a interação. O bebe vem preparado para a conexão com sua mãe, imediatamente ao nascer, e esta se estabelece numa troca de uma série de biocomportamentos de toques, cheiros, sons, temperatura entre ambos. Estes comportamentos típicos de uma “conversa” sem palavras entre mãe e bebe, são fundamentais na formação da habilidade do indivíduo adulto se adaptar ao seu grupo. É um aprendizado da linguagem emocional e percepção da emoção das outras pessoas. Toda esta interação, é promovida por sistemas biológicos, como o sistema hipotálamo-pituitário-adrenal, o sistema de resposta de ocitocina, que determinarão permanentemente como este indivíduo responderá física e emocionalmente a várias situações de interação social na vida adulta. Neste período são moldados sistemas de termoregulação, imunológico, de resposta ao estresse e de apego.
O cérebro humano nasce imaturo, e esta avidez por interação é fundamental para o seu desenvolvimento. Nosso cérebro amadurece até os 20 anos de idade, e precisa de estímulos certos nos momentos certos para que este desenvolvimento seja saudável. O neurodesenvolvimento e o desenvolvimento psicológico são aspectos diferentes do mesmo processo: amadurecimento. A separação entre mente e cérebro é mais uma criação do homem para estudar o fenômeno.
Existem evidências muito consistentes que mostram que quebras nas interações precoces, nos primeiros anos de vida, marcadas pela falta dos pais, ou mesmo com sua negligência são extremamente danosas a criança. A presença de violência nas formas de abusos sexuais, físicos ou psicológicos marcam definitivamente esta criança para o resto de suas vidas. Estas marcas, não são somente psicológicas, mas também biológicas, afetando os vários sistemas de interação e defesa, que passarão a funcionar precariamente. As marcas dos traumas estão inscritas nos genes destas crianças, dentro do núcleo de suas células. Não na sequencia do genoma, que é o mesmo, mas na função dos genes, na mudança da estrutura do genoma, através de alterações ditas epigenéticas. Alterações que ligam ou desligam genes de um indivíduo.
A educação da criança é um processo longo e continuo de demonstração do espaço de cada um, de respeito ao outro e dos limites, que temos, incluindo as consequências, quando ultrapassamos nossos limites e invadimos o dos outros. Este processo passa da relação pai/mãe/filho, para os irmãos, colegas na escola e na adolescência, para um nível mais social quando o jovem vai achar o seu caminho e lugar no grupo, incluindo seu papel sexual.
O que vemos no Brasil acredito ser um fenômeno dentro de um ciclo vicioso da violência. Esta é transmitida já em casa, assim como a negligência. Os nossos índices de violência doméstica são muito mais elevados, que na maioria dos outros países. Aliado a violência, vemos o aumento do número de bebes em lares desestruturados, onde em muitos não há presença de um pai, e quando há, os filhos nem sempre são somente deles, abrindo portas para o abuso sexual. Filhos de mães adolescentes, com 12-13 anos, são crescentes, que não terão este aprendizado social inicial adequado, por serem filhos de crianças, geralmente com problemas, que levaram a gravidez precoce. A presença epidêmica de doenças mentais no Brasil, não tratadas, nas formas do alcoolismo, depressão e abuso de substâncias, estão associadas a violência doméstica e ao prejuízo nos cuidados das crianças.
Ao crescerem, as crianças que tiveram estes problemas têm muitas chances de também desenvolverem quadros mentais, assim como terem comportamentos criminais. Os números mostram que não é ao acaso, são cerca de 7 a 10 vezes maiores as chances de terem estes problemas mentais e criminais. A doença mental e a violência têm assim características epidêmicas. É isto oque ocorre no nosso país. E estamos num processo que se auto alimenta, ciclo vicioso da violência.
O melhor caminho para a reversão desta, é a meu ver a prevenção. Deveria existir um foco de atenção, nas crianças pequenas, ainda quando estão no útero, principalmente nas classes mais desfavorecidas, onde a violência doméstica é maior, assim como as taxas de natalidade. Um trabalho de prevenção da violência doméstica, de educação sobre os cuidados das crianças, ensinar que a violência física, não é um método educativo. Um foco especial com as meninas na prevenção da gravidez, e um suporte social, intenso para aquelas grávidas, para que estas não percam o caminho de suas vidas, nem de seus filhos. A prevenção da violência está intimamente ligada aos tratamentos psiquiátricos dos quadros associados. O acesso aos tratamentos efetivos, baseados em evidências deve acontecer, porque, também já medimos, que todos os gastos na prevenção, se tornam ineficazes, se os quadros mentais dos pais e das crianças não forem tratados. A prevenção não é cara, muito já poderia estar sendo realizado, temos lugares, leis e profissionais, mas é preciso que a sociedade esteja unida, participe e cobre do governo esta atitude. Precisamos de um plano efetivo, organizado, com gestão, longe do caos que se encontra nossos serviços públicos. Na realidade, isto é urgente, a cada dia a violência cresce exponencialmente, precisamos, quebrar o ciclo da mesma.

Colaboração: Lucena Rosa, psiquiatra e terapeuta.

2 comentários:

  1. No momento penso que, se o mundo realmente pudesse educar sem violência, então não era mundo. Não é raro pessoas que só aprendem a tomar vergonha na cara e passam a entrar na linha só depois que são violentadas.

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  2. Excelente texto! Concordo plenamente com esta reflexão, um estado que valoriza a vida em sua fase de modelagem nos tornaria, nas próximas gerações, uma sociedade que pensa de maneira parecida e se une. Sinto que vivemos em uma época onde há uma extrema gritaria e discussões intermináveis, incapaz de propor soluções eficientes para qualquer coisa. É como uma lavoura, se os frutos de agora estão com problemas vamos corrigir para que a próxima colheita seja melhor.

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