26 de abr de 2016

Sobre cuspes, resistências, dilemas e incompletudes - Cida Alves


 “Não junto a minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Falo da resistência, da indignação, da “justa ira” dos traídos e dos enganados. Do seu direito e de seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas” (Paulo Freire).

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Por Cida Alves

Por reconhecer o meu "natural pacífico" e por princípios éticos acredito que os meios não justificam os fins. Nesse sentido, defendo o caminho da civilidade e do diálogo. Entretanto, existe um elemento temporal em alguns contextos de violência que reduz ao limite a potência da palavra.

Como praticar o diálogo no exato momento em que sofre um beligerante ataque físico ou verbal? Somos seres vulneráveis, nem sempre temos o controle total de nossos sentimentos ou reações corporais.

Há muito tempo, antes mesmo de começar a atender pessoas em situação de violência, um amável professor me disse uma coisa que muito me ensinou. Em um pedido, quase um alerta, falou:

- Quem for meu amigo, me amarre, pois se souber que minha filha foi violentada não sei o que farei com o estuprador.

Nessa fala simples, capturei algo muito profundo. Não se pode exigir sensatez e elegância aos ofendidos, aos violados. Ponderação? Será que é justo exigir essa virtude a alguém que está sendo brutalmente oprimido, lesado em sua integridade física ou psíquica?

As cordas que amarrariam meu terno professor é uma bela metáfora do que a luta contra a barbárie criou, uma estrutura de proteção* ao desatino, à vingança, ao olho por olho, dente por dente. Uma estrutura civilizatória que visa suplementar as forças e as resistências, para que a dor dilacerante experimentada pelas vítimas não rompam as comportas do desatino.

No ato ou na dinâmica violenta é quase imoral exigir das vítimas a interdição da violência. São os outros que precisam entrar nessa cena e interromper a barbárie. São os amigos da “turma do deixa disso”, os circunstancialmente mais fortes que segura o autor da violência, o segurança ou o policial que contem ou expulsa o violadores, as leis e a justiça que responsabilizam os dolosos.  

Nas cenas dos cuspes dos últimos dias, o fracasso não foi das vítimas! Mas sim das cordas que deveriam conter a sequência ininterrupta e brutal dos ataques. Sob um ataque violento, o que cabe à vítima é exercer o direito da defesa de sua integridade, ainda que seja por meios emocionalmente débeis ou primitivos. Não é justo exigir da vítima polidez e nobreza quando ela é violentada, oprimida.

A defesa da paz não pode ser pervertida pela ideia de subserviência ao opressor, nem tampouco à ideia de resignação ante a violência.

Sei que a defesa dos princípios éticos que negam a amoralidade presente na crença de que os fins justificam os meios me coloca sempre na berlinda. Uma defesa que pode doer, por que me coloca, como cuidadora de pessoas em situação de violência, a caminhar descalça em desertos de espinhos. Dilemas e contradições antecedem meus passos e compassos nessa caminhada cotidiana.

A personagem Amadeu Prado, do livro “Um trem noturno para Lisboa de Pascal Mercier, sintetiza a força de vida e de morte de alguns dilemas humanos. A este médico é levado o corpo moribundo do maior carrasco do ditador Salazar. Em uma pequena fração de minuto ele teve que decidir entre cumprir o seu juramento como médico – salvar vidas, ou livrar o povo português de toda a vilania do maior torturador de homens e mulheres da resistência à ditadura de Salazar.

A escolha dele foi pelos princípios de sua profissão. Todavia teve que pagar um altíssimo preço por salvar a vida de um tirano cruel. Sei que existem pessoas que viveram toda a sua existência sem aprofundar sua alma em dilemas como estes. As escolhas destas pessoas serão guiadas pelos prazeres imediatos, pelo conforto e privilégios da vida material ou simplesmente para se manterem na superfície das vaidades de seu status quo.  

Minhas escolhas, como as da personagem Amadeu Prado, não são orientadas por dogmas religiosos. Por alguma razão ainda estranha a minha própria consciência, minha subjetividade não consegue ser capturada por dogmas religiosos. Todavia, semelhante ao humanista médico português, não sei viver sem ouvir os sinos das catedrais, pois não sei pensar minha existência sem valores transcendentes, que valorizam os homens e as mulheres para além vida material, do dinheiro e do status quo.

A belíssima carta“REVERÊNCIA E AVERSÃO PERANTE A PALAVRA DE DEUS”, escrita pelo então estudante Amadeu Prado, expressa com profundidade o que penso sobre a ordem religiosa que pede as vítimas sua desumanização em nome de uma falsa paz.  

“Não sei viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor seco das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dela contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. [...] Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

Mas existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver: um mundo em que se demoniza o corpo e o pensamento independente e onde as melhores coisas que podemos experimentar são estigmatizadas e consideradas pecado. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os opressores e assassinos, mesmo quando seus brutais passos marciais ecoam atordoantes pelas vielas ou quando se esgueiram, silenciosos e felinos, como sombras covardes pelas ruas e travessas para enterrar, por trás, o aço faiscante no coração de suas vítimas. Entre todas as afrontas que se lançaram do alto dos púlpitos às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamento, esse desvairado e absurdo mandamento do amor para com o inimigo, serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a autoconfiança e para torna-las maleáveis nas mãos dos tiranos, para que não consigam encontrar forças para se levantar contra eles, se necessário, com armas.” (MERCIER, 2009, p. 178 e 179).

Exatamente como Amadeu Prado - personagem por quem me enamorei irremediavelmente e me fez ir até o fim do mundo (Fisterra, Galiza -ES), me rebelo contra um preceito do magnânimo Jesus de Nazaré. Jamais, jamais defenderei que as vítimas ofereçam a outra face a tirania do opressor. A minha escolha, como todas cheia de paradoxos e contradições, é de me posicionar ao lado das vítimas, mais ainda quando elas em sua desesperada autodefesa saem de si e se desatinam.

Por fim, quero deixar aqui o meu consolo, meu cafuné nos cabelos daqueles que tiveram que perder a estribeira porque a opressão foi longe demais. Para vocês, Jean Wyllys e Zé de Abreu, um trecho de uma música que muito me fortalece e emociona:

“Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor

Tristeza, camará”

Baden Powell e Vinicius De Moraes




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*É importante esclarecer que a defesa de estruturas externas de proteção (vínculos relacionais interditores e forças da justiça social) não tem como base a concepção hobbesiano de que o “homem é lobo do homem”. Não parto de uma epistemologia instintivista que pressupõe um determinismo na condição humana, ou seja, de que o homem é naturalmente violento. Minha argumentação tem como chão a concepção de que o homem é um ser inacabado, com potencialidades a serem desenvolvidas na intersecção entre suas heranças genéticas e sua experiência história. Nesse sentido, o homem é incompleto, não está pronto e é no coletivo, na relação com o outro que é possível a superação de suas fragilidades individuais.

Fontes:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa\Paulo Freire. – São Paulo: Paz e terra, 1996.
MERCIER, Pascal. Trem noturno para Lisboa\Pascal Mercier; tradução de Kristina Michahelles. – Rio de Janeiro: Record, 2009.

Recomendação de leitura:
Capítulos 1 e 3 - “O exílio de quem ousa denunciar as violências: o mito do homem naturalmente violento”, “A força da mistificação que idealiza os pais e faz os filhos negarem em si a própria percepção de seu sofrimento”, respectivos títulos da tese ALFORRIA PELOSENSÍVEL CORPOREIDADE DA CRIANÇA E FORMAÇÃO DOCENTE. 

Foto: imagem do filme "Um trem noturno para Lisboa, capturada no R7 

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