22 de abr de 2011

Tragédia do Realengo: entrevista com Paulo Amarante


O crime ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio, protagonizado por Wellington Menezes de Oliveira, o atirador que matou 12 crianças, causou perplexidade no Brasil e no mundo. Uma das reações imediatas por parte da imprensa foi procurar pessoas ligadas a Wellington.

Algumas logo disseram que se tratava de um “maluco”. Em vídeo, postado no site do Globo.com, um ex-colega de turma do autor dos disparos, não titubeou: “dava pra ver que ele era doido”. No mesmo caminho, o governador Sergio Cabral resumiu: “é um psicopata”. Para o médico psiquiatra Paulo Amarante, essa é uma reação, até certo ponto natural, embora preconceituosa, na busca por respostas a situações inesperadas.

“Nós sempre tendemos a encontrar soluções no que é mais rápido, mais aparente. É natural que isso aconteça, mas não é bom, porque nos impossibilita de refletir melhor sobre a situação”, diz Amarante, que também é diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e editor da Revista Saúde em Debate. Nesta entrevista, ele critica a profusão de informações desencontradas contra os loucos geradas pela tragédia e aponta, entre outras coisas, que o caso prova o quanto a saúde mental no Rio de Janeiro está precarizada.


1) Logo após a tragédia ocorrida na escola de Realengo, o governador Sérgio Cabral chamou o atirador de psicopata. Em seguida, o termo muito citado pelos diferentes meios de comunicação, em falas de pessoas entrevistadas, era de que Wellington Menezes de Oliveira seria louco. Como o senhor viu essa construção do perfil do homem que invadiu a escola Tasso da Silveira e matou 12 crianças?

Encontrar as explicações rápidas, imediatas, é muito natural. Muito perigosa também. A primeira explicação sempre recorre aos nossos preconceitos, aos nossos estigmas. Se é negro falam: “isso é coisa de negro”, se é judeu, “isso é coisa de judeu”, se é árabe, “isso é coisa de fundamentalista”, “muçulmano”. Nós sempre tendemos a encontrar soluções no que é mais rápido, mais imediato, e mais aparente. É natural que isso aconteça, mas não é bom, porque nos impossibilita de refletir melhor sobre a situação. No caso da loucura, isso é muito comum, toda explicação para qualquer evento inexplicável, incompreensível, recorre para a loucura, considerada como ato exorbitante, exótico, que transborda as raias da compreensão mais imediata e, portanto, responsável pelos atos inexplicáveis. Eu me lembro sempre de um filme antigo do Wood Allen (Take the Money and Run/ Um assaltante bem trapalhão) em que ele se torna um assaltante. O filme é como se fosse um documentário no qual os entrevistados falam sobre essa pessoa “criminosa”. E todo mundo, inclusive os pais dele, falam que ele sempre foi assim. No campo dos estudos da sociologia, da antropologia sobre estigmas, isso é considerado como ressignificação, ou seja, o passado é reescrito a partir do presente. Depois que alguém fez uma coisa estranha, diferente, aí tudo recebe um valor novo. Você olha para o passado e começa a dizer que a pessoa era esquisita, assim, assado, de tal maneira que tudo recebe um novo significado, o que não impede que a pessoa pudesse ter determinados comportamentos estranhos, diferentes, etc. Mas tudo recebe uma coloração diferente e que dá outro valor às coisas do passado. Isso é uma questão natural, mas é muito simplista.

É comum mesmo vindo de uma autoridade, como o governador?

Eu acho que isso vem nessa tentativa de dar alguma resposta rápida para a população, e também desse consumo: a violência vira mercado! Você vê a imprensa, que é muito responsável pela construção deturpada desses fenômenos, ou melhor, ela é absolutamente irresponsável em relação a isso. Pegue o exemplo do casal Nardoni. A tevê mostra a cena da simulação jogando a criança várias vezes da janela de um prédio. Chega ao ponto de banalizá-la. Depois de olhar várias vezes uma criança sendo lançada para a morte, se olha para aquilo jantando e sem nenhuma indignação, sem nenhuma perplexidade. Há uma exploração do aspecto violento até o momento em que ele se torna naturalizado na concepção social. Lembremos do caso do Chile, recentemente, em que o presidente aproveitou o resgate dos mineiros para fazer um grande reality show, já que esses episódios ganham tanto destaque que a imprensa, os políticos e vários outros atores sociais querem tirar proveito.

Episódios como esse da escola podem de alguma forma prejudicar a luta antimanicomial?

Em todas as situações em que uma pessoa comete algum ato que, num primeiro momento é incompreensível, vem a justificativa da loucura, a idéia de que a loucura é perigosa, que a causa é a loucura. Remeter essa situação, genericamente, à loucura, é culpabilizar vários sujeitos com transtorno mental e sofrimento psíquico, que jamais cometeriam crimes dessa natureza, ou das situações de extermínio que nós já vimos aqui no Brasil. Tivemos outras situações de extermínio, as crianças da Candelária, a de Vigário Geral e quantas outras crueldades como o do índio dormindo na rua, em Brasília, sendo queimado por filhos de desembargadores. É uma violência estrutural, que vai se incorporando na sociedade. É um cinismo dizer que é a primeira vez. É diferente. Mas são situações que estão se repetindo.

Qual o caminho mais razoável para compreender uma atitude bárbara como essa?

Eu penso que necessitaria, como se denomina na Análise Institucional, considerar estes episódios como “analisadores”. Eles serviriam para que nós parássemos para pensar o que está acontecendo na sociedade. Que essa situação sirva para repensar a educação. Não se pode dizer agora que a escola é perigosa; que todo sujeito com transtorno mental é perigoso, e nem mesmo que todo deliquente é perigoso e com isso criar práticas fascistas contra os outros, os diferentes, aqueles que não compreendemos de imediato e que podem representar uma ameaça ao que está estabelecido. E o próximo passo pode ser o “fazer justiça com as próprias mãos”. Veja. Esse rapaz, Wellington, na sua concepção ele produziu justiça com as próprias mãos, com o seu passado, com a sua história, com as suas mágoas. Quando ele volta à escola, ele volta ao passado, onde ele foi educado para dizer o que pensa daquele lugar, daquela instituição e daquela sociedade. E não é essa justiça com as próprias mãos que toda a sociedade está condenando? Mas, logo são chamados os psiquiatras, os psicanalistas para explicar o episódio, dando a idéia de que é um fenômeno individual, que o problema está naquele sujeito exclusivamente. Como se não fosse um problema de uma violência que está se transformando socialmente, que está sendo permanentemente mitificada e valorizada pela mídia. Antes de falar em desarmamento, por exemplo, por que não pensar o motivo pelo qual estamos estimulando o armamento? Por que a televisão, a produção cinematográfica de sucesso, a arte em geral, falam tanto em violência? Você liga a televisão às duas da tarde e vê o mocinho matando milhares de japoneses, de índios, de bandidos, de mexicanos, fazendo justiça com as próprias mãos, sempre em situações muito violentas. É uma ingenuidade pensar que isso não se incorpora ao comportamento dos sujeitos como soluções possíveis e necessárias. Não devemos falar em censura da imprensa ou da mídia, mas é necessário pensar em regulação e compromisso e ética da responsabilidade. E se a sociedade precisa ouvir especialistas, seria muito mais útil e adequado ouvirmos sociólogos, antropólogos, filósofos, etc, sujeitos que pensam a sociedade e os processos sociais e históricos.

O episódio serve para aferir como as autoridades lidam com a saúde mental?

Sim. Poderíamos arguir se este rapaz teve alguma escuta, algum suporte, algum acolhimento para o seu sofrimento. Isto é também um analisador da precariedade da rede de cuidados para as pessoas com sofrimento mental, as pessoas em situação de angústia, que necessitariam de cuidado, e que não recebem atendimento adequado na cidade ou no estado do Rio e no restante do país. É uma luta nossa porque o modelo, realmente, sempre foi de hospício. Era louco, era doente, ia pro hospício, onde não era tratado, era retirado da sociedade. O Brasil precisa definir a prioridade do SUS e da saúde mental e atenção psicossocial como direito dos sujeitos serem acolhidos e tratados.



Colaboração: enviado pelo psicodramatista Agenor Moraes (Campinas - SP) em 21 de abril de 2011.

Vale apena conferir também o texto Duas importantes causas de Rosana Carneiro Tavares postado no blog Beco dos Aflitos.

Um comentário:

  1. Cida, obrigada pela indicação do meu texto. Adorei esta entrevista do Paulo Amarante. É isso mesmo, resoluções simplistas para explicar o inexplicável, só nos coloca na condição de julgadores, e não de produtores da história. Um grande abraço! Parabéns pelo seu blog!

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