1 de jun de 2016

Nota de repúdio contra a cultura do estupro - Conselho Estadual de Direitos de Criança e do Adolescente (CEDCA Goiás)




Uma de menina 16 anos foi estuprada por 33 homens. Dopada e exposta ao escárnio público em redes sociais pelos autores da violência. Parte do Brasil e do mundo inteiro se indignam com a brutalidade da violência cometida. Estupro, um crime hediondo que merece punição exemplar. Nada, absolutamente nada justifica tamanha violência.

Nesse sentido, exigimos que toda violação de direitos cometida contra essa menina seja punida dentro dos rigores da lei. Exigimos ainda que seja punida a violência institucional cometida pelo delegado Alessandro Thiers, violência essa denunciada ao mundo pelo jornal El país:

“Thiers ajudou a pré-julgar a adolescente estuprada e colaborou para um espetáculo grotesco que expôs a adolescente ao ridículo, e deixou os estupradores fugirem. Diante da gravidade do caso mostrou-se hesitante e solidário à primeira versão de criminosos e desacreditou a vítima ao ponderar ‘se houve consentimento dela, se ela estava dopada e se realmente os fatos aconteceram’. Em uma troca de mensagens por Whatsapp, divulgada pelo jornal Extra, e confirmada pela Rede Globo, Thiers disse em privado que não havia estupro, e que a adolescente teria inventado a história dos 33” (El país, 31 de maio de 2016).

Veementemente repudiamos o crime hediondo.  Veementemente repudiamos a revitimização cometida pelo delegado Alessandro Thiers, que seguramente agravou a situação traumática vivenciada pela vítima do estupro, ao colocar em dúvida a palavra da menina, relativizar a violência sexual e ao expor a adolescente a humilhações frente aos próprios autores das violências.

As violências, particularmente as sexuais, provocam reações (sintomas do pós-trauma) que para leigos é de difícil compreensão. Uma delas é o estado de apatia, de semi-anestesia, normalmente expressa numa incapacidade de reação no momento do trauma ou nos dias subsequentes. Essas reações não estão no plano do controle consciente, são involuntárias. E equivocadamente, esse quadro mental (psíquico e neurofisiológico), é confundido com consentimento ou com o silêncio da culpa.

Além das reações psíquicas e orgânicas, a vítimas sentem uma devastadora vergonha e intuem que serão julgadas pela maioria da população com alguém que se comportou mal ou mesmo que desejou ou buscou o ato sexual. A Cultura do Estupro está profundamente arraigada nos valores e práticas sociais de nosso país. Nesse contexto misógino e machista dificilmente uma mulher formalizará uma denúncia de violência sexual sem um apoio externo, seja de sua família ou de profissionais sensíveis e comprometidos com valores humanistas e ideais de justiça.

Nós, conselheiras e conselheiros de direitos de crianças e adolescentes, nos sentimos profundamente ofendidos com o sorriso de escárnio dos autores da violência veiculados em redes sociais e em veículos de comunicação da grande mídia brasileira, bem como com os comentários grotescamente desumanos que depreciam a imagem da vítima e a culpabilizam.

Por fim, manifestamos a nossa solidariedade a menina e a todos os seus familiares, amigas e amigos. Infelizmente, sabemos que a violência sexual contra a mulher é aceita por nossa sociedade. Todavia, em nome das meninas que sofreram estupro coletivo (Rio de janeiro e Piauí), nos comprometemos a acompanhar e lutar até o fim para que todos os responsáveis sejam punidos e que nenhuma outra menina ou menino venha a sofrer qualquer tipo e violência.




Conselheiras e Conselheiros do Conselho Estadual de Direitos de Crianças e Adolescentes – CEDCA Goiás
Goiânia, 31 de maio de 2016.

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