19 de set de 2011

Dia Internacional da Paz: homenagem a Carla Del Ponte

O lugar da verdade não é nas sombras

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A mulher que ousou acreditar na verdade ainda que ela fosse atroz.

Com o fim da guerra da Bósnia, as mulheres que sobreviveram aos estupros coletivos levaram a público as violências cometidas pelas forças armadas militares e paramilitares sérvias. A própria atrocidade dos relatos sobre os estupros na Bósnia depôs contra essas mulheres. Quem ouvia os testemunhos das mulheres bósnias não conseguia acreditar nas crueldades relatadas.

A vida secreta das palavras

A promotora Carla Del Ponte reconheceu como verdadeiros os “incríveis” relatos das vítimas da limpeza étnica promovida pelo ditador Milosevic 

 

Após o fim da guerra da Croácia (1991) os estupros foram confirmados, no entanto, o seu caráter sistemático, as práticas de enclausuramento e de gravidez forçada só vieram a tona durante a guerra da Bósnia (1992 – 1995).

Estupro como arma de gerra

“A guerra na ex-Yuguslávia ensinou ao mundo que o estupro poderia ser não apenas o ‘repouso’ e o butim do guerreiro – o que já é, em si, insuportável –, mas se tornar objeto de um programa sistemático, constituindo-se numa arma de guerra e um elemento de uma estratégia militar desejada, consciente e determinada.

Assim, a novidade nos estupros de guerra é o fato de essa agressão ser usada politicamente, a sua "estatização", o fato de serem geridos por autoridades militares. ‘Às atrocidades 'habituais' cometidas por todos os exércitos do mundo (violações, torturas, pilhagens...), o regime de Milosevic acrescentou a violação organizada em campos previstos para esse efeito, e de acordo com modalidades precisas.’

Nos ‘campos de violação’, como ficaram conhecidos os locais onde esse crime era perpetrado de modo sistemático, tratava-se de conservar a mulher violada em vida e de impedi-la de abortar. Elas eram mantidas prisioneiras ali até atingirem os seis meses de gravidez.

Os torturadores, voluntários ou forçados, de Milosevic aplicaram escrupulosamente esse princípio. Tratava-se, através da violação política, não somente ‘serbacisar’ o sangue não-sérvio, mas também destruir a identidade e a honra das populações visadas sujando o que elas tinham como o mais caro. ‘O violador diz à mulher bósnia que viola: 'Terás uma criança sérvia’. Como os fascistas espanhóis que pichavam sobre os muros: ‘Morreremos talvez mas as vossas mulheres darão nascimento a crianças fascistas!’. Num caso como no outro, o estupro é uma mensagem dos vencedores aos vencidos”.

Fonte: Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque - Carmen Rial / Universidade Federal de Santa Catarina.

Estupro em massa com a finalidade de limpeza étnica:

Entre 20.000 a 44.000 mulheres foram sistematicamente violentadas pelas forças sérvias. Estes atos foram realizados no leste da Bósnia, durante os massacres de Foca e em Grbavica, durante o cerco de Sarajevo. Em menor escala, há evidências de que unidades bósnias também realizaram esta prática com as mulheres sérvias em Kamenica, Rogatica, Kukavice, Milici, Klisa, Zvornik e outras cidades.

 

Corte de Haya

Pela força de muitas mulheres que lutaram para que a sua verdade fosse reconhecida, em 27 de junho de 1996, o Tribunal Penal Internacional incriminou, pela primeira vez, o estupro como crime contra a humanidade.

 

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Em maio de 2005, a destemida procuradora Carla del Ponte exibiu aos juízes do tribunal um filme sobre os massacres em Srebrenica. Um fotógrafo amador fez a histórica filmagem: as mulheres, várias estupradas, eram expulsas de suas casas, jogadas em caminhões e obrigadas a deixar a região. As crianças, os adolescentes e os adultos do sexo masculino foram executados depois de amarrados com as mãos para trás.

Carla Del Ponte acusa

No Tribunal Penal Internacional a procuradora Carla del Ponte acusa Milosevic e Mladic de autorizar, para a criação da "Grande Sérvia", uma "limpeza étnica" nos Balcãs”.

 

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Entre os crimes cometidos sob o comando de Milosevic e de Mladic estão o massacre de 8 mil meninos e homens mulçumanos em Srebrenica, os estupros sistemáticos de milhares de mulheres bósnias e tráfico de órgãos humanos.

 

Os filmes A vida secreta das palavras e Última guerra (Savior) trazem à tona as violências sofridas pelas mulheres na guerra da sérvia.

Lírico, belo… Um dos melhores filmes que assistir nos últimos tempos. Imperdível!!!

 

Um filme, que sem omitir o sofrimento dilacerante de seus personagens centrais, enaltece a esperança no humano.

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Referência de leitura:

NAHOUM-GRAPPE, Véronique. Da dimensão sexual de uma guerra: os estupros em série como arma na ex-Iugoslávia, 1991 – 1995. In: SCHPUN, Mônica Raisa. Masculinidades. São Paulo: Boitempo Editorial, Santa Cruz do Sul, Eunise, 2004.

Um comentário:

  1. O estupro com o proposito de formar um prole "pura" era um pretexto q desconhecia para esse tipo de crime...É de um racismo atroz...É incrivel como uma região menor q o Pará pode conter tanto ódio e racismo...

    Só não entendi o q o primeiro filme, A vida secreta das palavras, tem haver com o tema. Mas bom post de qual quer forma.

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