7 de mai de 2011

Maternagem: um ato coletivo









Por não ser exato, preciso, o ato de cuidar e de educar nos fazem a todos vulneráveis e interdependentes. Por isso, todos nós precisamos da cumplicidade e da generosidade do outro.


Posto abaixo o texto O tesouro do Mundo em homenagem aos homens e às mulheres que dedicam seus mais preciosos talentos e suas maiores esperanças no ato de cuidar dos filhos, no exercício da maternagem.




O tesouro do mundo


“(...) E aprendi que se depende sempre.

De tanta muita diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente
Onde quer que a gente vá (...)”.
Gonzaguinha


Com o debate instalado na sociedade sobre o projeto de lei 7672/2010, que visa coibir os castigos físicos e humilhantes na educação e no cuidado de crianças e adolescentes, tenho ouvido - como um coro sem fim, muitos pais dizerem que só eles sabem o que é melhor para os seus filhos. Como os filhos são seus, eles é que mandam na sua educação. Dizem: “Eu bato, grito e falo o que vier na telha, o filho é meu”.

Escutando esses pais, acho que sou uma mãe bem humildizinha, pois apesar de acreditar que sou uma mãe bacana, nunca pensei que me bastava. Sempre acreditei que para ser uma boa mãe eu teria que a cada nova manhã ser melhor do que fui na noite anterior.

Sei que tenho qualidades preciosas! Sou uma mãe de mil beijinhos e colo eterno. Mantive o controle e a calma ante as noites infindáveis sem dormir. Quando exausta, ouvia o choro agudo e interminável do meu bebê, me acalmava pensando: estou cansada, certo! Mas eu sou grande e tenho mais recursos para suportar situações de desconforto, minha filha não, por isso, ela tem todo o direito de chorar. E olha que ela chorou bastante!


Mesmo com peito minando sangue consegui não desistir de amamentar minhas filhas. E foi bom suportar a fase difícil da amamentação, pois depois a dor foi embora e ficou o prazer de dar de mamar. Eu e minhas filhas aproveitamos muito bem esse prazer. Elas mamaram muito tempo.



Sou uma mãe, tipo sheherazade, de mil estórias e fantasias. Aprendi a cantar tantas músicas para poder embalar o sono de minhas filhas. No entanto, não me considero perfeita como mãe. Não sei brincar de boneca nem de casinha, a minha onda quando criança era subir em pé de goiabeira, pular de muro com sombrinha e brincar na chuva.



Mas uma de minhas filhas gostava de brincar de bonecas e quem ensinou isso para ela foi uma tranqüila e amorosa senhora que trabalhou em minha casa. Após lavar as louças do almoço, ela reservava um tempo para brincar com a minha filha mais velha. Sentia uma alegria recatada e certo alívio quando as via no chão brincando de vestir bonecas. Aos vê-las, um sentimento de gratidão me invadia o peito: que bom que alguém ensinou a ela o gosto pelas bonecas e panelinhas.

A culinária e as prendas domésticas são o meu fraco! Por isso, gostava de ouvir as minha filhas contarem estórias de gostosuras (bolos com coberturas de chocolate e pães de queijo quentinhos) sempre que elas voltavam da casa da madrinha. E a coalhada da vovó e a cocada do vovô, nem tentava fazer igual.

Agora, quando o assunto é saúde, minha irmã era e é a minha maior referência. Foi indescritível o que senti quando ela me ensinou uma coisinha simples, mas super eficaz nos casos em que a criança “engole o fôlego”. E só sobrar no nariz dela – dizia a irmã médica.




Acredito que nenhuma mãe ou pai pode oferecer tudo o que os filhos necessitam, pois ninguém é guardião de todas as qualidades do mundo. Por pensar assim, sempre fiz questão que minhas filhas convivessem com pessoas bem distintas de mim, que tivessem qualidades que ainda não possuía.


Sei que as aprendizagens que ofertei não são nem a metade das que elas receberam em suas vidas. Quantos bons ensinamentos elas receberam de seus avós, tios, primos, pediatras, professores, amigos, colegas de escola, e agora, até de seus “ficantes”.





Imagina quão pobre seriam suas vivências e aprendizagens se acreditasse que apenas eu e o pai soubéssemos o que é melhor para elas. As minhas filhas não são minha posse! A gente possui coisas: carro, casa, sapato. Minhas filhas são sujeito. Não quero tê-las sobre o meu mando ou controle.




Elas são ao mesmo tempo de si mesmas e do mundo. Como responsável rogo apenas o direito de cuidar e proteger para que elas cresçam e se desenvolvam com saúde, segurança e equilíbrio.





O amor que sinto por elas não pode pesar em suas vidas como bolas de chumbo atadas aos pés.
Embora os assassinos de Eloá, Mércia Nakashima, Sandra Gomide, Maria Islaine e de tantas outras mulheres pensem o contrário, acredito que, por mais intenso que seja os sentimentos que se tem por alguém, eles não outorgam nenhum certificado de posse.


Acredito que o ato de criar e educar os filhos não é uma tarefa solitária e exclusivista. O individualismo na maternagem e na paternagem é a nossa grande ilusão moderna. Nesse sentido, não é nenhuma vergonha pedir ajuda ou orientação quando se está embaraçado com algo que envolve a educação dos filhos. Os pais precisam conversar mais sobre a educação de seus filhos.

Trocar experiências, tirar dúvidas. Buscar orientações sobre como melhor cuidar e educar faz parte das habilidades e competências maternas e paternas. Os conhecimentos construídos pela pediatria, psicologia e pedagogia sobre os processos de aprendizagem e o desenvolvimento infantil são de grande ajuda na lida cotidiana dos pais.

Educar os filhos é trabalhoso, exige muita dedicação e disciplina. Ainda que sintamos muitíssimo prazer no convívio com os filhos, mares de rosas não existem. Uma educação livre de práticas violentas não eliminará as dificuldades que o ato de educar demanda, nem tão pouco fará desaparecer os conflitos entre pais e filhos. Por sermos portadores do arbítrio, da capacidade de realizar escolhas, o conflito faz parte da nossa condição humana.

Não se promete, com a erradicação dos
castigos físicos e humilhantes, o fim dos conflitos entre pais e filhos. Busca-se sim, instituir uma nova forma de lidar com esses conflitos, promovendo no ato de educar e cuidar práticas que não envenenem nossas crianças com sentimentos de revolta, medo, magoa e ressentimento.

As crianças, os nossos filhos, são o tesouro do mundo, por isso, todos temos responsabilidades com as marcas e aprendizagens que elas levaram pela vida a fora. Como disse um desconhecido:






“Todos pensamos em deixar um planeta melhor para os nossos filhos...Quando é que começaremos a pensar em deixar filhos melhores para o nosso mundo”?





A publicação das fotos passou pela aprovação das minhas filhas Cecília e Clara.

Um comentário:

  1. Lindo texto. Lindas fotos. Lindas filhas. Será quem é o pai dessas meninas?

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