23 de mai de 2011

Edição Especial do Almanaque: "Unidos contra o bullying"




Por
Valéria Belém
*


Paz na escola

- Obrigada!
Foi o que disse Lu**, de 6 anos, vítima de bullying, à coleguinha que a chamou de “baleia”. A menina, sem entender a resposta insperada, insistiu:

- Porque você tá me agradecendo? Eu tô te chamando de baleia!

- Por isso mesmo ué. As baleias são grandes, lindas e únicas. – explicou Lu – Iguaizinhas a mim. E todo mundo tá fazendo campanha para não serem extintas. Descobri isso no Animal Planet e no Discovery Channel. Mas gente que só asssite a porcaria na TV e não lê um livro não tem mesmo como entender isso.

Foi a mãe de Lu quem contou essa história aos amigos, em uma rede social na internet. Apesar de indignada com o fato, ela ficou impressionada com a saída inteligente da filha à provocação. “Não sei de onde ela tirou essa resposta, pois nem mesmo eu teria tamanha presença de espírito”, elogia.

Mas o problema não acabou aí. A cena se repetiu no dia seguinte. Lu inclusive, já informou à colega:

- Você sabe que isso que você faz comigo tem nome? É bullying.

A palavra, de tão repetida, nem é mais novidade. Mas não adianta ficar no blábláblá. A atitude das pessoas diante do problema tem de mudar. E um jeito bacana de começar é com um bom papo sobre o assunto. Por isso, o Almanaque levou algumas dúvidas de estudantes goianos à psicóloga Cida Alves, do Núcleo de Prevenção das Violências e Promoção da Saúde, da Secretaria Municipal da Saúde de Goiânia. Veja as respostas.



Você acha que existe bullying em todos os países?
Pedro Henrique Moreira Cappede - 14 anos

Cida Alves
O bullying, violência de aluno contra aluno dentro ou fora da escola, acontece em todos os países, sejam eles ricos ou pobres. Mas a forma como a violência na escola acontece depende das características culturais de cada país. Nos EUA, a violência na escola já resultou em muitas mortes de crianças e adolescentes por armas de fogo. O fácil acesso de armas de fogo e a valorização sem limites da competição e do individualismo na formação escolar agravam as violências que acontecem entre os alunos nas escolas americanas. Em 20 de abril de 1999, na cidade de Columbine, dois estudantes abriram fogo contra colegas, matando 13 pessoas e deixando outras 25 feridas. Depois de Columbine, outros cinco grandes ataques contra estudantes foram registrados em escolas americanas, totalizando 53 mortes. Entre eles, está o massacre ocorrido na Universidade Virginia Tech, onde o sul-coreano Cho Seung-hui matou 32 pessoas em 2007. De 1966 a 2011 aconteceram 66 ataques em escolas americanas.

Por que o bullying virou moda hoje em dia?
Júlia Chabot de M. Machado - 13 anos

Cida Alves
Seus pais ou seus avôs certamente terão histórias para contar sobre violências entre alunos em sua época de escola. O fato novo é conceituação desse tipo de violência, denominado hoje de bullying. Estudos recentes alertaram pais e professores sobre os efeitos nocivos dessa forma de violência no desenvolvimento intelectual e afetivo de crianças e jovens. Já existe um consenso entre estudiosos do desenvolvimento humano de que a violência na escola não é algo desprezível, não é uma simples brincadeira de criança. Os meios de registro e comunicação instantâneos (celulares, câmaras digitais, internet, dentre outros) também contribuíram para que percebêssemos o bullying com mais nitidez. Agressões físicas podem ser filmadas, as ofensas verbais podem ser gravadas em celulares e distribuídas na internet para que muitas pessoas vejam Hoje, vemos, repetidamente, o que antes só conhecíamos por meio do relato das vítimas. A força da imagem em nossa mente é muito grande. Tem até um ditado que ilustra essa força: “o que os olhos não vêem o coração não sente”.

Qual a ligação entre preconceito, racismo e bullying?
Letícia Araújo Luiz - 13 anos

Cida Alves
Tem tudo a ver. Se reparar bem, vamos perceber que os meninos e as meninas que cometem bullying escolhem os colegas que vão agredir e humilhar. Os alvos preferenciais são os tímidos, calados, mais magros, mais gordos, de baixa estatura, mais altos, de credo, raça ou orientação sexual diferente. São aqueles que estão fora do padrão de beleza ou de sucesso definido pela indústria da moda ou pelos valores individualistas e consumistas de nossa sociedade. A violência sempre tem muitas causas, mas acredito que a não aceitação das diferenças tem o maior peso na prática do bullying. Os meninos e meninas que comentem bullying não conseguiram desenvolver a capacidade de conviver com pessoas que são diferentes deles. Eles acreditam que os diferentes não merecem fazer parte de sua turma, pois são tidos como inferiores, desprezíveis, defeituosos. No entanto, é importante lembrar que não são os jovens que criam sozinhos essa intolerância, eles apenas reproduzem os valores que a nossa sociedade construiu.

Existe algum tipo de pessoa que mais sofre bullying?
Lucas Gonçalves de Oliveira - 10 anos

Cida Alves
Sim, existem crianças e jovens que estão mais vulneráveis ao bullying, seja pelas suas características físicas ou comportamentais. Mas nunca devemos responsabilizar as vítimas do bullying pela violência que são cometidas contra elas. Elas não são culpadas. Muitas vezes, as vítimas não denunciam por medo de serem culpabilizadas pela violência sofrida. Certos adultos, pais e professores, costumam dizer aos meninos e meninas que sofrem bullying que eles são fracos demais, incapazes de se defenderem ou que fizeram algo para provocar a violência. Essa atitude dos pais e dos professores só atrapalha, pois faz com que a violência não seja revelada.

Por que a escola, na maioria das vezes, é o cenário do bullying?
Fernanda Sampaio Medeiros - 14 anos

Cida Alves
Existem muitas formas de violências que acontecem dentro da escola: violência entre professores e alunos, violência contra o patrimônio da escola, violência do crime organizado que invade o espaço escolar. O bullying é o tipo de violência (física ou não), intencional e repetitiva, contra um ou mais alunos que se encontram impossibilitados de se defender das agressões sofridas. É uma violência que acontece entre os próprios alunos, podendo acontecer dentro ou fora da escola.



É possível alguém sofrer bullying dentro de casa?
Ana Elisa Soares - 11 anos

Cida Alves
A violência que acontece dentro de casa é chamada de violência doméstica. A violência que acontece entre vizinhos de rua ou bairro, entre colegas de esportes, entres torcedores de times rifais, no trânsito é chamada de violência urbana. O bullying é a violência que acontece entre colegas de escola. Nessa forma de violência os alunos mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas. Com pancadas, surras e palavras humilhantes os valentões querem mostrar que mandam no pedaço.

O que a família de uma pessoa que sofreu bullying deve pensar?
Victor Hugo Arantes Lima - 11 anos

Cida Alves
O mais importante é acolher, fortalecer e proteger a criança ou o jovem que sofreu a violência. Nada de menosprezar o sofrimento dessas pessoas, com frases assim: isso é bobagem, você vai esquecer, deixa para lá, logo passa. Nem tão pouco tratá-los como incapazes. O alvo principal de quem comete bullying é a auto-estima de sua vítima. Os meninos e meninas que comentem essa forma de violência sempre vão atacar o que eles consideram ser o ponto fraco do colega. Eles vão cutucar a ferida do outro. Por tanto, pais e professores devem atuar no sentido contrário dos agressores, sempre criando condições para fortalecer a auto-estima e auto-imagem do aluno que foi vítima do bullying.

Como podemos evitar o bullying?
Rodrigo Alvares - 10 anos

Cida Alves
Primeiro: a escola, a família e a sociedade têm que parar de fazer vista grossa para essa forma de violência. Temos que parar de sermos indiferentes à dor e ao sofrimento do outro, em especial, ao sofrimento de nossas crianças e jovens que estão em uma fase especial de seu desenvolvimento. Segundo: precisamos ensinar e aprender em cada ato educativo, familiar ou escolar, a tolerância as diferenças. Ninguém é igual ao outro, nem melhor ou pior: somos diferentes. E todos devem ser tratados com respeito e dignidade. No entanto, é importante destacar que nós adultos, pais ou professores, não ensinaremos a tolerância apenas com discursos, palestras, mas sim com atitudes, com exemplos cotidianos. Nosso discurso só será verdadeiro se for coerente com os nossos atos. Como ensinar nossas crianças e adolescentes a serem solidários e gentis se nós mesmos humilhamos e discriminamos as pessoas, seja por sua religião, condição econômica, raça ou orientação sexual. Não é uma tarefa fácil enfrentar e superar a violência na escola. Mas nós, pais, educadores e governantes, podemos começar tentando responder para nossos filhos e alunos essas duas perguntas: O que é ter sucesso na vida? Nesse ideal de sucesso, que valor deve ser dado à vida e ao sentimento do outro?


Por que não são proibidos desenhos como Pica Pau e Turma da Mônica, que incentivam o bullying?
Sabrina Rodrigues Gomes - 13 anos

Cida Alves
É interessante como aprendemos a nos divertir vendo o sofrimento do outro. Por que será que ver alguém cair, se machucar, se da mal nos faz dar boas risadas? Essa é para mim a principal pergunta sobre o Bullying: por que ficamos satisfeitos com o sofrimento do outro? Tem algo muito errado nessa história, não é mesmo! E desenhos como o “Pica Pau” deixa claro isso. A solidariedade e o companheirismo estão perdendo a graça? Bem, mas acho que proibir os desenhos não é o melhor caminho. Temossim, que esclarecer as crianças sobre as formas de violência que aparecem nesses desenhos e principalmente oferecer outras opções de desenhos que não naturalize a violência. E olha: temos muitas coisas boas por aí para nos divertir.


É possível sofrer bullying sem saber quem é agressor?
Sabrina Cardoso Rodrigues - 11 anos

Sim! Essa forma de bullying costuma acontecer mais entre meninas. Geralmente elas atacam a moral de outra colega inventando mentiras sobre seu comportamento sexual. O agressor do bullying também pode se omitir por meio da internet: é o que denominamos de ciberbullying.



Quando podemos perceber que algumas brincadeiras já viraram bullying?
Júlia Ramos Perchi, 13 anos

Cida Alves
Quando não nos sentirmos bem com a brincadeira. Não existe brincadeira quando alguém está sofrendo ou se sentindo humilhado.

Qual é o pior tipo de bullying?
Pedro Carneiro - 13 anos

Cida Alves
A gravidade do bullying depende de muitos fatores: idade da vítima, frequência e gravidade das violências, quem são os autores da violência, se a escola ou a família protege ou apóia a vítima, dentre outros. Mas destaco aqui duas formas que considero graves: a violência física e o cyberbullying. Algumas violências físicas são tão graves que deixam nas vítimas sequelas permanentes ou podem até levar a morte. Em 2009, no Rio de Janeiro, um garoto de 16 anos apanhou tanto dos colegas que teve traumatismo craniano. Nesse mesmo ano, em São Joaquim da Barra (SP), um menino de 9 anos foi espancado na saída da escola, tendo como consequência uma lesão na coluna cervical. O cyberbullying extrapola o alcance do bullying tradicional (que ocorre usualmente na escola). Com o cyberbullying, não há mais lugar seguro - a ameaça pode chegar pelo celular, no seu e-mail, por sms, a qualquer momento, em qualquer lugar.

O ato de defesa também pode ser considerado bullying?
Fabio Costato Ferrari, 13 anos

Cida Alves
Todos nós temos o direito de nos defendermos! Ninguém tem que se conformar ante uma violência sofrida. Mas é importante que a nossa defesa não seja um revide, tipo “tomou, levou”. A vingança só faz a roda da violência girar. É importante que a vítima do bullying não tente resolver a sua situação sozinha. É preciso que ela procure ajuda. A escola e os pais têm o dever de proteger e ajudar as crianças e os jovens que estão sofrendo essas violências. É fundamental também responsabilizarmos os meninos e meninas que comentem o bullying. Caso seja necessário, solicitar aos pais e responsáveis que busquem um tratamento profissional para os autores de violência.

O que leva uma pessoa a fazer bullying?
Heitor Barroso Knupp - 10 anos

Cida Alves
São muitos os motivos, mas todos têm a ver com a dificuldade de respeitar o outro. Alguns meninos e meninas aprenderam que as pessoas que são consideradas por elas inferiores devem ser tratadas com desprezo e humilhação. Elas podem ter aprendido isso observando como seus pais ou familiares tratam seus empregados, seus subalternos. Outros não desenvolveram a capacidade de aceitar regras sociais que criam condições de igualdade entre os alunos da escola, pois não querem ser igual e sim melhor – querem sempre tratamento especial, privilégios. Outros associam o sucesso, popularidade e aceitação, com a imagem do caro violento, “do mal”. Os comportamentos solidários são associados à idéia de fraqueza. Nos motivos apresentados acima existe uma clara influência de valores familiares e sociais. Existem ainda aqueles que vivenciam dificuldades momentâneas, como a separação traumática dos pais, ausência de recursos financeiros, doenças na família, dentre outros fatores. A violência praticada por esses jovens é um fato novo em seu modo de agir é, portanto, circunstancial. E, por fim, temos crianças ou adolescentes que cometem bullying por uma dificuldade estrutural em suas personalidades. Falta-lhes o sentimento essencial para o exercício do altruísmo: a empatia. Esse sentimento permite que nos coloquemos no lugar do outro. Esses casos representam uma minoria e sempre devem ser encaminhados para um profissional da saúde mental.

Como denunciar um agressor e permanecer anônima?
Mariana Castro Braga, 13 anos

Cida Alves
Você pode ligar no Disque 100. Nesse número você pode denunciar qualquer tipo de violência cometida contra crianças e adolescentes. A ligação é gratuita e você pode fazer a denúncia de forma anônima. Outros locais para encaminhar as denúncias: Delegacia de Proteção a Crianças e Adolescentes (3201-1176 e 3201-1177), Centro Operacional de Apoio a Infância, Juventude e Educação do Ministério Público (3243- 8029) e 11º Promotoria de Execução do Ministério Público (3243-8099 e 3243-8097). No Tocantins - Centro Operacional de Apoio a Infância, Juventude e Educação do Ministério Público, (63) 3216 - 7638.



Minha amiga sofre bullying fisicamente. Posso denunciar o agressor mesmo que ela não aceite, com medo de ser agredida ainda mais? O que vai acontecer depois?
Jéssica Urzeda Jorge, 13 anos

Cida Alves
É muito bacana a preocupação que tem com sua amiga. O mundo pode se tornar um lugar insuportável sem a presença de um amigo sincero e solidário. Olha, já atendi muitas crianças, adolescentes e mulheres que sofreram violências. Essas pessoas me ensinaram muito sobre os seus sentimentos em relação à violência sofrida. Elas sentem raiva, ódio do agressor. Isso é muito forte nelas! Mas existe também outro sentimento que as atormentam demais: a magoa. Elas sentem uma magoa profunda da pessoa que antes amavam e confiavam, mas que, na verdade, nunca as protegeram de verdade. Se queremos ajudar as vítimas, só tem um caminho: não ser cúmplices das violências, não negligenciar o sofrimento do outro. Temos que denunciar! Não tem outro jeito, mesmo que ela não queira, você precisa procurar alguém na escola que tenha a capacidade e o compromisso de ajudá-la de verdade. Sozinha e enfraquecida será muito difícil ela conseguir se livrar dessas violências físicas.

Bullying dá cadeia?
Karolina Alves Veloso - 15 anos

Cida Alves
De acordo com a lei brasileira só pode ir para a cadeia pessoas que tenham mais de 18 anos. As crianças e adolescentes que comentem bullying deverão ser responsabilizadas de acordo com as penalidades previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. De acordo com a gravidade da violência cometida, as penalidades vão da prestação de serviços comunitários a privação de liberdade assistida.

Uma pessoa pode receber indenização por ter sofrido bullying?
Lívia Marinho

Cida Alves
Sim, a vítima de bullying tem direito a indenização. Mas precisa abrir um processo na justiça solicitando essa indenização. A vítima pode processar tanto a escola como o autor da violência. A indenização pode ser por danos morais, lesões corporais, gastos com tratamentos de saúde, perdas no rendimento escolar em decorrência das violências sofridas. Se o autor da violência for alguém com menos de 18 anos, a indenização deve ser custeada pelos pais ou adultos responsáveis.

Que mudanças físicas e psicológicas acontecem com a vítima do bullying?
André Luiz M. V. Peres - 14 anos

Cida Alves
Um dos primeiros sinais que a criança ou adolescente manifesta é a vontade não ir para escola. Fica nervosa ou agitada com a proximidade da hora de ir para a aula. Ela tende também a se afastar dos amigos do colégio. Se isolar. Outras mudam seu jeito costumeiro de ser: passam de expansivas para introspectivas, chorosas, de tranquilos para inquietas e às vezes agressivas. Seu rendimento escolar tende a cair, podendo ainda ter dificuldades alimentares ou de sono. Se a violência não for interrompida de imediato e as vítimas de violências não forem cuidadas, elas poderão crescer com sentimentos negativos, especialmente com baixa auto-estima, tornando-se adultos com sérios problemas de relacionamento. Poderão assumir, também, um comportamento agressivo. Mais tarde poderão vir a sofrer ou a praticar violências no trabalho. Em casos extremos, alguns deles poderão tentar ou cometer suicídio.


O bullying pode chegar ao ponto de causar mortes?
Felipe Sousa Nery - 12 anos

Cida Alves
Sim, às vezes o sofrimento da vítima de bullying é tão intenso que ela desenvolve uma grave depressão, podendo até mesmo cometer ou tentar o suicídio. Como foi o caso do jovem Tyler Clementi, de 18 anos, que se matou 3 dias depois da divulgação na internet de imagens dele trocando carícias com outro rapaz. Tyler era tímido e nunca falou com a família sobre sua orientação sexual. Ele avisou pela internet que iria se jogar de uma ponte e se matou. Existem ainda os atos de vingança que se transformam em homicídios, com foi o caso de dois adolescentes de Columbies e do jovem sul-coreano Cho Seung-hui, da Universidade de Virginia Tech, ambos nos EUA.

Depois que as crianças sofrem bullying, têm de procurar um psicólogo?
Gabriel Ribeiro - 11 anos

Cida Alves
Não necessariamente. Tudo depende de como cada criança ou o adolescente lida com o bullying. Alguns têm tantas coisas boas em suas vidas (amigos solidários, família que sempre o apóia, uma boa imagem de si mesmo, são bem sucedidos nos estudos ou em atividades esportivas e culturais) que o bullying acaba tendo pouco impacto no seu desenvolvimento. Outros têm uma grande capacidade de superação, de dar a volta por cima. Mas se a criança ou o adolescente estiver manifestando dificuldades de lidar com a violência sofrida, não podemos culpá-las por isso, temos sim que procurar a ajuda de um psicólogo.

O agressor nasce querendo fazer bullying?
Beatriz Araújo Mercado - 10 anos

Cida Alves
Não, ninguém nasce violento! A violência não é de origem biológica, mas sim cultural. O ser humano não é como os animais que sempre agem guiados por instintos. Quando nascemos herdamos certas características que podem ou não se desenvolver. Vou dar um exemplo: nós, humanos, nascemos com a capacidade de falar, mas se uma criança ficar isolada do contato humano e não for ensinada a falar, ela não desenvolverá essa capacidade. A potencialidade para a fala é herdada, mas a capacidade de falar é adquirida. Portanto, ser violento ou não dependerá de uma complicada combinação entre as características de cada pessoa, sua história familiar e as interferências do meio social.

Como o agressor pode se curar?
Ana Carolina Fernandes - 10 anos

Por intermédio de um diálogo franco, uma reflexão profunda, a escola e a família podem ajudar o autor do bullying a entender os reais motivos que o levaram a agir de forma violenta. O grande desafio da escola e da família é promover no menino ou menina uma auto-reflexão, um autoconhecimento. Eles precisam fazer algumas perguntas a si mesmos. Cito alguns exemplos: Por que tenho a necessidade de agir assim? Como me sinto em situações de disputa ou stress? O que eu posso fazer para me acalmar quando sinto que estou perdendo a cabeça? A quem eu quero agradar ao agir com violência? O que quero que pensem de mim? Faço qualquer coisa para poder agradar a minha turma de amigos? Como me sentiria se alguém me ferisse e humilhasse na frente de meus colegas de aula? Que tipo de pessoa eu quero ser na vida? Quando nos conhecemos melhor, identificamos nossas qualidades e dificuldades, conseguimos assim agir com mais maturidade e serenidade. A violência é a arma dos fracos. Os fortes não impõem suas vontades, mas convencem, ganham aliados e amigos por seus argumentos e exemplos. Alguns autores de violência conseguem realizar esse autoconhecimento e mudança de atitude apenas com um suporte da escola e da família, outros necessitarão de uma ajuda profissional.

* Valéria Belém é jornalista e editora do suplemento Almanaque do jornal O Popular (Goiás - Tocantins).
** O nome foi trocado para preservar a identidade da criança.

Fonte: Almanaque, suplemento do jornal O Popular publicado em 22 de maio de 2011.
Observação: o texto postado no blog é o original, o publicado passou por alguns ajustes e cortes para se adequar melhor ao formato e à linguagem do suplemento que é dirigido ao público infanto juvenil.

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