3 de abr de 2012

Pancada e humilhação nunca fez ninguém ser uma pessoa melhor

 

Estão circulando nas redes sociais alguns equívocos sobre o Projeto de Lei 7672/2010, que visa proibir os castigos físicos e humilhantes na educação e no cuidado de crianças e adolescentes. O texto e a foto abaixo são bons exemplos dessas distorções:

“Faça um favor para a humanidade: Quando for preciso, diga não a seu filho: A sociedade agradece. ‘Você vai levar uma palmadinha sim. Prefiro desrespeitar uma lei do que ver você desrespeitar um código penal inteiro”

Apologia dos castigos físicos nas redes sociais

Lamentavelmente, em pleno século XXI, ainda opera na mente de muitas pessoas a crença de que foram os tapas, os safanões e as chineladas que fizeram delas um cidadão de bem. Todavia, pesquisas nacionais e internacionais já puseram por terra essa crendice. São inúmeras as pesquisas que demonstram justamente o contrário, ou seja, que existe uma evidente correlação entre os castigos físicos e humilhantes e os comportamentos anti-socais (veja abaixo alguns resultados dessas pesquisas).

Se as pessoas que fazem a apologia dos castigos físicos, fizessem um sincero exercício de memória, recordariam como se sentiram de fato ao apanhar dos pais. Lembrariam ainda das expressões faciais desses adultos na hora que eles aplicavam os castigos e as humilhações. Não existe doçura e serenidade nenhuma, podemos até negar, agora que somos adultos e temos que educar nossos filhos, mas o que os nossos olhos infantis enxergaram de verdade na face dos castigadores foram: RAIVA, DESCONTROLE E INSENSATEZ.

Os vínculos familiares que se restringem às formas violentas de comunicação (humilhações, surras e abandonos emocionais) afetam profundamente o desenvolvimento físico e mental das crianças. Por que então, essas pessoas dizem que mesmo apanhando estão bem? Ora, com certeza, na relação familiar dessas pessoas os momentos de sofrimentos físicos e humilhações foram infinitamente menores do que os de carinho, atenção e correção pelo exemplo e pelo diálogo. Ou seja, o que predominou na relação familiar foram o cuidado e os limites não violentos.

Vamos as evidências científicas:

Pesquisas apontam que os castigos físicos oferecem um modelo inadequado, por parte dos adultos, de lidar com situações de conflitos, que é o uso da força, da violência;

APRENDIZAGEM SOCIAL DA VIOLÊNCIA

Os jovens que sofrem violências intrafamiliares do tipo físico severo, psicológico e sexual são:

3,2 vezes mais transgressores das normas sociais;

3,8 vezes mais vítimas da violência na comunidade;

3 vezes mais alvos de violência na escola do que os jovens cujo ambiente familiar é mais solidário e saudável (ASSIS, 2004).

DISSIMULAR E MENTIR

Os castigos físicos facilitam o surgimento de desvio no comportamento, como esconder ou dissimular por medo do castigo físico.

Quando se empregam extensamente práticas de poder (coação, humilhação e castigos corporais), as crianças tendem a desenvolver moralidades externas, isto é, baseadas no temor do castigo. Ela não deixa de realizar um comportamento por entende verdadeiramente que este é errado, mas simplesmente para evitar a punição. Na ausência da punidor ela pode voltar a realizar os comportamentos considerados inadequados.

MENOR RENDIMENTO INTELECTUAL

De acordo com uma investigação feita pelo Professor Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, meninos e meninas castigados fisicamente apresentam, depois de quatro anos, um coeficiente intelectual baixo em comparação com os que nada sofreram.

No grupo de jovem, as crianças que não apanharam apresentam 4 pontos a mais em seu coeficiente de inteligência do que as crianças que foram castigadas fisicamente.

No grupo de crianças entre os 5 e 9 anos de idade, aqueles que não apanharam tiveram 2.8 pontos a mais em seu coeficiente intelectual que as que sofreram castigos físicos, depois de quatro anos.

FUGA DE CASA

De acordo com a conclusão do O Estudo causal sobre o desaparecimento infanto-juvenil, as razões que provocaram a saída de casa das crianças e adolescentes foram: agressões físicas (35%), alcoolismo dos pais ou dos jovens (24%), violência doméstica presenciada pela criança ou adolescente (21%), drogas usadas pelos filhos ou os progenitores (15%), abuso sexual/incesto (9%) e negligência (7%). Os demais casos registrados são de seqüestro e raptos (SÃO PAULO, 2005).

 

Outras Pesquisas

As crianças começam a aprender sobre o certo e o errado, sobre ajuda e prejuízo desde tenra idade. Os principais estudos que investigam a aquisição do comportamento moral das crianças e jovens indicam que:

 

  • A cordialidade e os cuidados dos pais com seus filhos tem ligação com o comportamento moral das crianças e dos adultos.

Os estudos antropológicos de Margaret Bacon e seus companheiros, em quarenta e oito sociedades da África, Américas do Norte e do Sul, da Ásia e do Pacífico Sul, demonstraram que a prática de educação das crianças estavam associadas à freqüência e a tipos de crimes.

Bacon e seus parceiros descobriram que as sociedades em que os pais eram predominantemente dedicados tinham freqüência mais baixa de roubo do que aquelas em que os pais eram rigorosos de um modo geral. E mais, esses estudos evidenciaram que o treinamento ríspido e abrupto para a independência associa-se a elevadas taxas de crime pessoal, isto é, a atos cujo o intuito era ferir ou matar outras pessoas.

 

  • Pela modelagem do comportamento moral e da solidariedade os pais que dão bons exemplos contribuem poderosamente para um comportamento social desejável de sua prole.

Os estudos de Marian Yarrow e colaboradores colocaram algumas crianças de escola maternal em contato com pessoas que falavam de solidariedade, mas que não eram especialmente solidárias. Outros meninos foram expostos a adultos que não só prezavam a solidariedade como também eram prestimosos.

As crianças que tiveram contato com os modelos atenciosos e prestativos demonstraram sistematicamente muito mais solidariedade do que as outras. Ou seja, pais ou cuidadores prestativos e afetuosos podem ensinar às crianças desde cedo os benefícios de se levar os outros em consideração.

 

  • As técnicas disciplinares que ensinam a empatia tendem a aumentar a conduta social de caráter moral e ético.

Os estudos de Martin Hoffman confirmam essa hipótese. Pela disciplina os pais encorajam os filhos a pesarem seus desejos contra as exigências morais da situação. Técnicas de indução são práticas que comunicam as consequências danosas dos atos da criança em relação aos outros. As técnicas de indução parecem treinar as pessoas para que elas se coloquem na posição dos outros e considerem o bem-estar do próximo antes de agir.

 

Veja ainda duas importantes pesquisas nacionais

Lucia

 

 

Segundo a pesquisadora Lúcia Cavalcanti Williams, meninos vítimas de violência severa em casa têm oito vezes mais chances de se tornar vítimas ou autores de bullying.

Cerca de 70% das crianças e adolescentes envolvidos com bullying (violência física ou psicológica ocorrida repetidas vezes no colégio) nas escolas sofrem algum tipo de castigo corporal em casa. É o que mostra pesquisa feita com 239 alunos de ensino fundamental em São Carlos (SP) e divulgada hoje (30) pela pesquisadora Lúcia Cavalcanti Williams, da Universidade Federal de São Carlos.

Do total de entrevistados, 44% haviam apanhado de cinto da mãe e 20,9% do pai. A pesquisa mostra ainda outros tipos de violência – 24,3% haviam levado, da mãe, tapas no rosto e 13,4%, do pai.

“O castigo corporal é o método disciplinar mais antigo do planeta. Mas não torna as crianças obedientes a curto prazo, não promove a cooperação a longo prazo ou a internalização de valores morais, nem reduz a agressão ou o comportamento antissocial”, explica Williams.

 

Dr. Paula Gomide SBP

 

A pesquisadora paranaense, Paula Inez Cunha Gomide (2003), encontrou em suas pesquisas cinco correlações entre os estilos parentais de educar os filhos e os comportamentos anti-sociais de jovens adolescentes. De acordo com a autora, os comportamentos anti-sociais estão correlacionados às práticas educativas negativas como NEGLIGÊNCIA, A PUNIÇÃO INCONSISTENTE, DISCIPLINA RELAXADA, A MONITORIA NEGATIVA E ABUSO FÍSICO. Essas cinco práticas negativas são assim descritas:

A NEGLIGÊNCIA ocorre quando os pais não se atentam às necessidades de seus filhos, ausentam-se das responsabilidades, ou simplesmente quando há uma interação familiar sem afetos positivos.

A PUNIÇÃO INCONSISTENTE acontece no momento em que os pais punem ou reforçam os comportamentos de seus filhos de acordo com o seu bom ou mau humor. O estado emocional dos pais determina as ações educativas e não as ações da criança. Nessa forma de punição, as crianças aprendem apenas a discriminar o humor de seus pais e não se seu ato foi adequado ou inadequado.

A MONITORIA NEGATIVA consiste no excesso de fiscalização da vida dos filhos e na grande quantidade de instruções repetitivas. A fiscalização e as instruções intensivas tendem a produzir um clima familiar hostil, estressante e ausente de diálogo, pois os filhos tentam proteger sua privacidade evitando falar sobre suas particularidades.

A DISCIPLINA RELAXADA caracteriza-se pelo não-cumprimento de regras estabelecidas. Os pais ameaçam e, quando se confrontam com comportamentos opositores e agressivos dos filhos, omitem-se, sem fazer valer as regras.

O ABUSO FÍSICO  ocorre quando os pais machucam ou causam dor em seus filhos na tentativa de controlá-los. A prática do abuso físico pode gerar crianças apáticas, medrosas, desinteressadas, especialmente, anti-sociais.

Os comportamentos dos jovens adolescentes denominados por Gomide (2003) de pró-sociais estão correlacionados com práticas educativas positivas como o monitoramento positivo e o comportamento moral dos pais ou responsáveis.

A MONITORIA POSITIVA  é definida como o conjunto de práticas parentais que envolvem atenção e conhecimento dos pais acerca de seu filho e das atividades desenvolvidas por ele. As demonstrações de afeto e carinho dos pais, especialmente as relacionados aos momentos de maior necessidade da criança são um exemplo dessa prática educativa.

O COMPORTAMENTO MORAL refere-se a uma prática educativa em que os pais transmitem valores como honestidade, generosidade e senso de justiça. No processo educativo, discrimina-se o que é entendido pelos pais como certo ou errado, por meio de modelos positivos e afetivos.

Saiba mais:

Correlação entre práticas educativas, depressão, estresse e habilidades sociais

O uso de palmadas e surras como prática educativa

Práticas educativas parentais em famílias de adolescentes em conflito com a lei

Práticas parentais positivas como estratégia para o aprendizado de comportamentos pró-sociais

Inventário de Estilos Parentais (IEP): um novo instrumento para avaliar as relações entre pais e filhos

Algumas referências citadas:

ASSIS, Simone Gonçalves et al. Violência e representação social na adolescência. Revista Pan-Americana de Salud Pública. 2004.

BACON apud DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia / Linda L. Davidoff: tradução Auriphebo Berrance Simões, Maria da Graça Lustosa; revisão técnica Antonio Gomes Penna. – São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1983.

GOMIDE, Paula Inez Cunha. Estilos parentais e comportamentos anti-sociais. In DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. (orgs.). Habilidades Sociais, desenvolvimento e aprendizagem: questões conceituais, avaliação e intervenção. Campinas: Alínea, 2003.

HOFFMAN apud DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia / Linda L. Davidoff: tradução Auriphebo Berrance Simões, Maria da Graça Lustosa; revisão técnica Antonio Gomes Penna. – São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1983.

SÃO PAULO. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo/Crianças desaparecidas, Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Estudo causal sobre o desaparecimento infanto-juvenil . São Paulo : Segurança Pública do Estado de São Paulo, 2005.

YARROW apud DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia / Linda L. Davidoff: tradução Auriphebo Berrance Simões, Maria da Graça Lustosa; revisão técnica Antonio Gomes Penna. – São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1983.

 

COMENTÁRIO:

Cida

O que vemos é lamentável.

Filhos que apanham sistematicamente em casa às vezes só respondem a essa forma de limite, não reconhecendo limite pelo uso da palavra, que normalmente é praticado fora de casa.

Aprendem o  limite pelo medo, e facilmente podem utilizar essa aprendizagem em situações de vantagem física ou simbólica.

Além de disseminar que a educação pelo uso da força física é eficaz, o que sabemos ser uma inverdade, ainda temos a pregação de desrespeito à lei.

Quando se aprende isso em casa ou na escola, o que é uma pratica recorrente, temos como resposta o que está ai posto na sociedade: banalização e exacerbação da violência.

Temos muito trabalho pela frente.

Beijo

Angélica Goulart

Coordenação da Rede Não Bata Eduque

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