11 de jan de 2012

Carta Aberta para Lya Luft - Bianca A.

 

Em resposta a MAIS GRAVE DO QUE PALMADAS – LYA LUFT

Prezada Lya,

Em princípio concordamos. Também tenho preguiça do politicamente correto. Mas para diferenciarmos ofensa de “termo usual” temos que entender em que cultura estamos inseridas. No Brasil a palavra negro está inserida num contexto de orgulho de um povo, onde existe até grupo musical chamado Raça Negra. Nos EUA, porém, (onde o termo Nigger foi considerado politicamente incorreto) é uma forma ofensiva e pejorativa, que basicamente que dizer escravo.  Impossível  então avaliar palavras foras de contexto, quer outro exemplo? Retardo mental é um termo médico, que quer dizer apenas atraso no desenvolvimento cognitivo, mas quem gostaria de ter um filho sendo chamado de retardado? Ficou mais claro agora o desconforto que alguns “termos usuais” podem gerar?

Mas vamos ao nosso tema, as tais palmadas, quem sabe eu não possa esclarecer algumas das suas dúvidas.

Quem vai avaliar o que é palmada forte, bofetada humilhante no rosto ou aviso carinhoso, leve tapa sobre uma bundinha bem acolchoada de fraldas?

É uma dúvida comum, mas de fácil resposta. Como você avaliaria a intensidade da palmada que você pode dar na madame que quer passar 45 itens no caixa rápido do supermercado? E no pai que pára em fila dupla para deixar o filho na escola, uma chineladinha estaria de bom tamanho?  Tudo certo um leve tapa na bundinha acolchoada da funcionária que quebra sua taça de cristal favorita? Não, para adultos até o grito é proibido e a lei já estabelece o assédio moral. Mas nas crianças, seres indefesos que dependem de nós para sobrevivência, tudo bem? Da próxima vez que estiver em dúvida se é “palmada forte” ou “aviso carinhoso” pergunte se ok  o seu chefe aplicar em você quando der mancada no trabalho. Assim fica bem fácil distinguir um do outro.

Quem vai, sobretudo, denunciar? Penso que haverá filas de acusadores: a vizinha invejosa, a funcionária ofendida, a ex-mulher vingativa, o ex-marido raivoso?

Sim, essas pessoas podem denunciar. Também podem denunciar professoras preocupadas ou médicos cansados de atender crianças agredidas pelos próprios pais nos PS da vida. E veja, gente desocupada ou mal intensionada não precisa de lei nova. Uma vizinha invejosa poderia usar o disque denúncia e dizer anonimamente que suspeita que a casa da vizinha é laboratório de refino de drogas, ou um cativeiro de sequestro. Quem denuncia, hoje, já não precisa de provas nem de identificação. Cabe a polícia avaliar se a denúncia tem fundamento ou não. O denunciante só levanta a suspeita, ele não julga, nem condena.

Será que os políticos não têm coisa mais importante a fazer além de inventar uma lei tão antidemocrática, antipedagógica e anti-qualquer-bom senso, como, por exemplo, votar leis que têm a ver com o bem-estar do cidadão comum?

Uma lei proposta dentro dos processos legislativos legais e que por isso está ai há anos sendo discutida é antidemocrática, mas dar palmadas no bumbum do filho que fez xixi na cama, é bastante democrático. A lei, cuja pena é “orientação psicológica” é antipedagógica mas descer a mão no filho que bateu no irmãozinho é muito pedagógico.  Apanhar porque bateu, ensina muito bem a como resolver conflitos, não é mesmo? Agora eu pergunto, a criança não é um cidadão comum? Os políticos não devem se preocupar com o seu bem estar? Quando perguntadas o que sentem depois de apanhar, as principais respostas das crianças são “dor, medo, vergonha, tristeza e raiva”. Você chama isso de bem estar?

Além de querermos infantilizar eternamente nossos jovens dando-lhes privilégios como a meia-entrada até quase 30 anos (…)

Tai um ponto no qual concordamos novamente. Acho a lei da meia entrada uma das maiores palhaçadas do nosso país. Essa sim, cheia de distorções (tipo escola de idiomas emitindo carteirinha) e abusos. Mas vamos combinar que não são só adultos perto dos 30 querendo prolongar a adolescência que usam desse recurso. Poderíamos coibir as fraudes, punir exemplarmente os que utilizam desse “jeitinho”, mas ai viriam dizer que estamos sendo invasivas e antidemocráticas já que essa “esperteza” faz parte da nossa cultura e ninguém quer abrir mão dos seus privilégios, não é mesmo?

Bem mais graves do que uma ocasional palmada (não falo em surra, bofetada, sofrimento físico) são, de parte dos pais, a frieza, a futilidade, o desinteresse, a falta de uma autoridade amorosa, de vigilância e cuidado.

Você, especialista em educação, deveria saber que existem alternativas para a  palmada que não passam pela tortura psicológica ou pela negligência, caso contrário posso te indicar alguns textos bons sobre o assunto. Ou podemos simplesmente nos contentarmos com “o menos pior”.

Você pode não falar em surra, bofetada, sofrimento físico, mas pergunte aos pais que usam esses e outros instrumentos pedagógicos como chinelo, cinto, fio elétrico (tem uma lista completa no facebook dá uma olhada), se eles acham que estão espancando ou educando os filhos. Sempre vai haver uma justificativa para violência. Aproveita e pergunta para esses pais se depois de um “aviso carinhoso no bumbum acolchoado” a criança colocar as mãozinhas na cintura, mostrar a língua e dizer com todas as letras “NÃO DOEU” se eles vão sentar pra conversar. Aham, vão sim.

Um abraço

Bianca A.

Enviado pela Rede Não Bata Eduque em 11 de janeiro de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Participe! Adoraria ver publicado seu comentário, sua opinião, sua crítica. No entanto, para que o comentário seja postado é necessário a correta identificação do autor, com nome completo e endereço eletrônico confiável. O debate sempre será livre quando houver responsabilização pela autoria do texto (Cida Alves)