20 de jan de 2012

Bater para educar. Precisamos, urgentemente, mudar essa cultura! - Mariza Alberton

 

Muitas pessoas tem me perguntado por que o Projeto de Lei que proíbe os castigos corporais e os tratamentos humilhantes aplicados a crianças e adolescentes apresenta tanta resistência em ser aprovado no Brasil. E eu tenho respondido que o brasileiro tem a mania de bater, que isto já está incorporado na cultura do nosso povo, desde o período da colonização pelos europeus. Existe entre nós a falsa idéia de que é preciso bater para educar.

Precisamos, urgentemente, mudar essa cultura!

Temos tido grande resistência em aprovar o PL 7672/2010 por parte de muitos parlamentares da Bancada Evangélica dentro do Congresso Nacional e por parte também de alguns setores mais conservadores de outros grupos religiosos e da nossa sociedade. Defendem seu posicionamento evocando a Bíblia, dizendo que em muitas passagens das Sagradas Escrituras há a recomendação explícita do uso da vara e dos castigos que devem ser aplicados pelos pais aos seus filhos, apontando as conseqüências maléficas em não seguir os conselhos bíblicos.

Entendemos que os tempos mudaram e que devemos ler a Bíblia à luz dos ensinamentos de Jesus Cristo. Devemos interpretar o Antigo Testamento com os olhos daquele que pregou o Amor e a Misericórdia.

Livro de Mariza Alberton

 

 

 

Tomo a liberdade de transcrever um pequeno trecho da obra “Violação da Infância – Crimes Abomináveis: humilham, machucam, torturam e matam!”, onde  abordo exatamente este tema no Capítulo 11  (MITOS) , página 175:

 


“Aquele que poupa a vara, quer mal a seu filho, mas aquele que o ama, corrige-o constantemente.” (Prov 13, 24)

Precisamos saber ouvir a Palavra de Deus. Faz parte deste exercício, adaptar os ensinamentos bíblicos para a nossa cultura e o nosso tempo.

O presente versículo foi extraído do Livro dos Provérbios que faz parte do Antigo Testamento, escrito quando o Povo de Israel tinha “o coração empedernido,” ainda vivia segundo costumes muito rígidos, e acreditava que tudo deveria ser resolvido pela lei de Talião: ”Olho por olho, dente por dente”.

Cristo veio para subverter a cultura dominante. Veio para que “todos tenham Vida e Vida em abundância” (Jo 10,10)

Devemos partir do princípio que Deus é Amor - Amor Infinito, Misericordioso, terno, doce e afável.

Está na hora de lermos a Bíblia, principalmente o Antigo Testamento, com os olhos e o coração de Jesus de Nazaré!

No livro dos Provérbios, capítulo 13, versículo 24 (Prov 13,24), onde está escrito “aquele que poupa a vara”, deve-se ler:

- aquele que não orienta,

- aquele que não constrói limites com seus filhos,

- aquele que deixa a gurizada “solta”, sem princípios morais e éticos,

- aquele que não ensina a suas crianças o respeito, a solidariedade, o amor ao próximo, o cumprimento do dever,

- aquele que não dá bons exemplos,

- aquele que não pauta as suas ações segundo uma cultura de Paz.

Desta forma, teremos o ensinamento bíblico atualizado, de acordo com os nossos tempos! A pessoa, segundo os padrões descritos acima, com certeza, quer mal a seu filho, é negligente, não cumpre com o dever sagrado de pai e de mãe, de educador, de orientador!

Quem ama corrige, acolhe, ensina, orienta, dialoga, educa, está vigilante, presente. E tudo isso, com persistência, paciência, com serenidade, respeito, sem violência, sem agressão!


Quando somos provocados, não devemos fugir da discussão e sim apresentar argumentos! Para isso, precisamos estar preparados.

Há muitos anos, tivemos um Seminário em Porto Alegre que teve como tema: “Quem bate para ensinar, ensina a bater” e isto ficou muito forte no imaginário das pessoas, a ponto de fazer muita gente mudar de atitude! É isso aí, pessoal! Vamos à luta!

 

Mariza Alberton

 

Mariza Alberton

Coordenadora do Movimento Estadual Contra Violência e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, integrante da Pastoral do Menor (CNBB),é professora e especialista na Área da Violência contra Crianças e Adolescentes. Tem se dedicado à formação de conselheiros e demais atores da Rede de Proteção e Atendimento à Criança e ao Adolescente, em todo o Estado. Integra o Conselho Nacional e coordena, no Rio Grande do Sul, a Pastoral do Menor, da CNBB. Através desta pastoral, faz parte do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, tendo sido presidente na gestão 2002/2003; coordena o Movimento pelo Fim da Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes/RS; e representa, no nosso Estado, o Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Tem participado, assiduamente, das Jornadas Estaduais contra a Violência e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Foi conselheira Tutelar em Porto Alegre nas duas primeiras gestões (de 1992 a 1998). Assessorou os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso Nacional que tratou de Situações de Violência e Redes de Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Brasil (2003-2004). É Co-autora em várias publicações e autora do livro "Violação da Infância - Crimes Abomináveis: humilham, machucam, torturam e matam!". Em 2005 a carioca Mariza Alberton recebeu o título de Cidadã Honorífica de Porto Alegre, em reconhecimento aos relevantes trabalhos na área da infância.

Um comentário:

  1. Cida, quero compartilhar o que ouvi de uma criança de 3 anos, um garoto. Sua mãe falava-me por meias palavras das artes que ele apronta e dos 'carinhos' que ela tem que dar em seu bum bum. Ele olhou para ela todo terno e disse: - "Mas não precisa bater, é só falar umas coisas". Incrível, não?

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