18 de ago de 2017

Carta de Desagravo - Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!



Geralda Ferraz – autora da Carta de Desagravo faz a leitura no Ato contra o feminicídio e em memória de Mayara Amaral. Foto: Cida Alves – Goiânia, EMAC UFG, 16 de agosto de 2017.




Carta de Desagravo
Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!

No Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Goiás é o segundo Estado brasileiro que mais teve homicídios de mulheres em 2014.

O homicídio cometido com requintes de crueldade contra mulheres por motivações de gênero, desde 2015, tornou-se crime hediondo com a promulgação da lei nº13. 104/2015, a lei do feminicídio. Na legislação, a violência doméstica e familiar e o menosprezo ou discriminação à condição de mulher são descritos como elementos de violência de gênero e integram o crime de feminicídio.

As Diretrizes Nacionais sobre feminicídio, lançado em 2016 pela ONU Mulheres Brasil e o Escritório das Nações Unidas, com o objetivo de incluir a perspectiva de gênero nos processos de investigação e julgamento de crimes de feminicídio, prevê como motivações de crimes baseadas em gênero, o sentimento de posse sobre a mulher, o controle sobre seu corpo, desejo e autonomia; a limitação da sua emancipação profissional, econômica, social ou intelectual; o tratamento da mulher como objeto sexual; e as manifestações de desprezo e ódio pela mulher e por sua condição de gênero.

No final do último mês, a tragédia da morte de Mayara Amaral nos deixou mais uma vez assustadas, indignadas, paralisadas diante de tamanha crueldade, da qual ela foi vítima. Foi o grito de sua irmã, Pauliane, através das redes sociais, que nos sacudiu e nos expôs o que acostumamos a ler nos jornais, quando se trata dos relatos de crimes em que as mulheres são vítimas. O tratamento dado pela imprensa demonstra o quanto o machismo está impregnado nos textos e narrativas jornalísticas.

A versão dada pela imprensa colabora para diminuir a culpa do criminoso e desqualificar a vítima, Mayara, quando omitem a palavra estupro, apesar de todas as evidências; quando hiper-sensualizam a imagem de Mayara, para falar sobre o “suspeito” e ainda quando deixam de mostrar o rosto da vítima, quando é para falar da musicista, desumanizando-a.

Tal constatação, infelizmente, demonstra como a imprensa/mídia acaba por corroborar e ser conivente com esta realidade perversa, em que milhares de mulheres têm suas vidas ceifadas.

A violência de gênero está presente nas mídias sociais. Da maneira como é abordada, acaba por se naturalizar no nosso dia-a-dia, nos nossos costumes, jornais, propagandas, e passa despercebida para grande parcela da população e formadores de opinião. A mulher mesmo sendo vítima, é desumanizada.

Quando jornais e revistas expõem a vida da vítima de forma parcial, fazendo juízo de valores, estão certamente relativizando a violência sofrida pela mulher, reforçando a separação: de um lado estão as mães, irmãs, mulheres – belas, recatadas e do lar, passíveis de desejo, admiração ou respeito, em contraposição às demais mulheres consideradas objeto, passível de uso, e portanto, fazem por merecer a violência, o ódio, a morte(1).

Enquanto os casos de violência contra a mulher forem naturalizados, os conceitos de força, domínio, desejo e submissão entre os sexos irão prevalecer. É preciso desenvolver entre os profissionais da comunicação uma consciência ética, de princípios que transponham e superem a cultura machista que violenta e mata.

Nós da Associação Mulheres na Comunicação, unidas a dezenas de outras instituições não governamentais, que lutam pelo direito à comunicação, pela comunicação de gênero, não-sexista, ratificamos nossos princípios e repudiamos todo o tratamento dado pela mídia que reforça o machismo e naturaliza a violência de gênero e o feminicídio.

Pela memória de Mayara Amaral!

Por justiça a Mayara Amaral e a todas as mulheres vítimas de feminicídio!

Nenhuma a menos!

As queremos vivas!!!!

Geralda Ferraz – Radialista/ Assessora de Comunicação/ Esp. Assessoria de Comunicação/ Presidente da Associação Mulheres na Comunicação
Assinam:
Entidades:
Coletivo Mayara Amaral
Associação Mulheres na Comunicação
Rede de Mulheres em Comunicação
AMARC - Associação Mundial das Rádios Comunitárias
Movimento de Meninos e Meninas de Rua de Goiás / MMMR-GO
Sindsaude-GO
Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno
Frente de Mulheres de Movimentos do Cariri e Mulheres do MAIS
CPM/UBM-GO
UBM - União Brasileira de Mulheres
Faculdade de Informação e Comunicação / UFG
Centro Cultural Cara Vídeo
Consulta Popular
Centro de Estudos Bíblicos – CEBI
Centro Cultural Eldorado dos Carajás
Movimento Nacional da População de Rua
Movimento Camponês Popular
Pastoral da Juventude do Meio Popular
Irmandade Brasileira Justiça e Paz
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra
Levante Popular da Juventude
Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil
Comissão Brasileira de Justiça e Paz – CNBB
UNMP
Central de Movimentos Populares
Comissão Pastoral da Terra – Goiás
Central Única dos Trabalhadores do Estado de Goiás
Rádio Trabalhador
Associação dos Professores da PUC – Goiás
Grupo Feminista Oficina Mulher
ONG Mulher Negra Brasileira Thalita Monteiro Maia
SINT-IFESgo – Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação da UFG, IFG, IFGoiano e Ebserh
Pessoas:
Geralda da Cunha Teixeira Ferraz – Radialista / Programa Voz da Mulher/AMC
Bruna Porto – Filósofa – Programa Voz da Mulher /AMC
Ivone Cunha – Arteterapeuta – Programa Voz da Mulher / AMC
Michely Coutinho – Sindicalista
Mayani Gontijo – Assessora de Comunicação
Maria Inês Amarante. Docente da Unila - Foz do Iguaçu
Lígia Kloster Apel, Radialista, Amarc, Brasil
Mônica Barcellos Café - assistente social
Vilma de Fátima Machado (NDH e PPGIDH/UFG)
Dila Resende - Secretaria estadual do PCdoB GO
Andre Nascimento - UNEGRIO GO
Michele Cunha Franco (FCS e NDH)
Maria Ângela De Ambrosis Pinheiro
Joana Abreu Pereira de Oliveira - EMAC-UFG Renata Linhares - ESEFFEGO /UEG e Professora da SME
Natássia Duarte Garcia Leite de Oliveira. Professora da UFG/Emac.
Claudia Zanini, Professora da EMAC/UFG
Ivone Garcia Barbosa / NEPIEC/FE/UFG
Flavia Maria Cruvinel/ Profa. da EMAC/UFG Ionara Vieira Moura Rabelo, Presidenta Conselho Regional de Psicologia e Profa. Regional Goiás/ UFG
Silvana Rodrigues de Andrade - Profa EMAC/UFG
Janira Sodré Miranda - Comissão de Políticas de Igualdade Etnicorracial do IFGoias/ Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Africanidades-NEGRA.
Beth Fernandes - Presidente da Astral vice presidente do Conem e da CONATRAP
Roberto Nunes - jornalista/ Rádio Universitária
Denise Viola/ Rio de Janeiro /Radialista /AMARC Brasil
Taís Ladeira/ Brasília/ Jornalista / Amarc Brasil
Rose Castilhos / Rio Grande do Sul/ Jornalista Ilê Mulher
Celia Rodrigues/ Ceará/ Radialista
Prof.a. Ana Guiomar Rêgo Souza - Diretora e Presidente do Conselho Diretor da EMac
Carolina Skorupski - Assessora de Comunicação
Dra. Maria Aparecida Alves da Silva - Cida Alves, Psicóloga do Núcleo de Vigilância as Violências e Promoção da Saúde - SMS Goiânia, representante do CRP 09 Goiás e do blog Educar Sem Violência.
Prof. Magno Medeiros - FIC/NDH
Prof. Ricardo Barbosa de Lima - Programa Interdisciplinar de Pós-Graduacão em Direitos Humanos
Franscisneide Cunha - Radialista - Diretora dez Programação da Rádio Universitária
Profa. Lucia Rincón- PUC Goiás
Prof.a. Carolina Zafino Isidoro - PUC Goiás
Prof.a. Angelita Lima - Diretora da FIC
Prof.a. Noêmia Félix da Silva – PUC – Goiás
Wilmar Ferraz - Radialista/ produtor cinematográfico
Rosa Rodrigues – Radialista/ Rádio Comunitária Independência – Ceará
Laisy Moriere Cândida Assunção – Secretária Nacional de Mulheres do Partido dos Trabalhadores
Celso Araújo Filho – Terapeuta Holístico

Parlamentares:
Eduardo Suplicy - vereador - PT/SP
Adriana Accorsi – Deputada Estadual – PT-Goiás
Isaura Lemos - PC do B - Goiás
Jandira Feghali - Deputada Federal – PC do B – Rio de Janeiro
Jean Wyllys – Deputado Federal – Psol – Rio de Janeiro
Vanessa Grazziotin - Senadora - PC do B - Am


Referência Bibliográfica:
*(1) – Cultura do Estupro, artigo Observatório da Imprensa, Alexandre Marini, 31/05/2016.
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Vejam imagens do Ato Ato contra o feminicídio e em memória de Mayara Amaral. 







 Flores para o violão florido em homenagem a Mayara Amaral. Foto: Cida Alves – Goiânia, EMAC UFG, 16 de agosto de 2017.


















Cortejo e ciranda com o grupo de percussão Coró Mulher em homenagem a Mayara Amaral. Foto: Cida Alves – Goiânia, EMAC UFG, 16 de agosto de 2017.



 Visto do céu, violão florido e ciranda para celebrar a memória de Mayara Amaral. Foto: Guilherme Urbano e Hugo Bittencourt - Goiânia - Campus Samambaia, 16 de agosto de 2017.





















Leituras de Cartas e Sarau em homenagem a Mayara Amaral. Foto: Cida Alves – Goiânia, EMAC UFG, 16 de agosto de 2017.


 Leituras de Cartas e Sarau em homenagem a Mayara Amaral. Foto: Cida Alves – Goiânia, EMAC UFG, 16 de agosto de 2017. 




Leia a carta denúncia abaixo!



Bem, a gente nem se conhece, mas temos algo em comum, somos mulheres.
Somos mulheres pois assim nos constituímos, e é sobre nossos passos no mundo e sobre como podemos ser mais se unidas, que vim te falar.

Há alguns meses, duas amigas foram estupradas por seu professor do campus Jataí da UFG, pouca gente sabe, poucas mulheres sabem.

E eu fico pensando, e se fosse comigo, e se fosse com você? Se fosse com alguma amiga, aquela conhecida de um outro curso, programa, rua, setor, cidade, o que você faria? O que nós faríamos?

Até agora quase nada aconteceu. O mesmo professor possui outras denúncias por assédio sexual e improbidade administrativa. A UFG não se posicionou, nem sequer publicou uma nota informativa a comunidade acadêmica.
Essa carta em seu nome é um pedido de ajuda, precisamos falar, precisamos nos escutar, precisamos - acima de tudo, cuidar umas das outras, precisamos de segurança.

Vamos nos encontrar? Falar sobre o assunto? Se fosse com você que tipo de ajuda gostaria de ter?

Encontro dia 28 de agosto, às 15:00 no gramado em frente a EMAC - Campus 2
PS. Se puder, se sentir confortável, leia essa carta em público, converse com suas amigas, vamos nos acolher.

Desde já te agradeço pela escuta!
Mulheres que lutam pelo fim da violência #recebiacarta

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