30 de out de 2015

Repúdio à exposição do aluno para escárnio público e alguns esclarecimentos – Caso da escola de Macaé

“Não usem criança na minha presença,
tomarei o partido delas,
não terão minha parcimônia,
não vou compactuar!
Não cunhem nelas a tirania,
eu vou denunciar!”

Elisa Lucinda

 

Em minha pesquisa de doutorado tive a oportunidade de entrevistar profissionais de diversas áreas que foram indicados pela Rede Não Bata Eduque como referências críticas ao uso de violências físicas na educação e no cuidado de crianças e adolescentes. O encontro com cada sujeito de minha pesquisa foi uma experiência comovente e de profunda aprendizagem. A todas e todos eu fiz duas perguntas:

1) Quais conhecimentos ou eventos formativos foram significativos na construção de sua crítica ao uso de violências físicas na educação familiar de crianças?

2) Quais conhecimentos ministrados nas formações em que atua têm facilitado a desnaturalização da prática de bater para educar?

E por que estou contando isso aqui e agora?

Ora, por entender que uma narrativa construída em um desses encontros precisa ser compartilhada depois do que ouvimos e vimos no vídeo produzido e veiculado por educadores de uma escola da Prefeitura de Macaé.

Vamos à narrativa de Mariza Silveira Alberton, professora e especialista na Área da Violência contra Crianças e Adolescentes.

Mariza Alberton inicia sua resposta a primeira questão narrando o caso de um menino de aproximadamente 7 anos que estudava na creche que ela dirigia. Esse guri - expressão da própria Mariza Alberton, manifestava dificuldades em seu comportamento. Batia nos colegas, quebra coisas. Certa vez, o guri teve um ataque de fúria no banheiro. Ficou tão descontrolado que conseguiu com seu pequeno corpo arranjar forças para quebrar a pia e arrancar a torneira do banheiro.

Afortunadamente, a escola encaminhou o guri para uma pediatra muito especial, daquelas que amo de paixão. Mariza o acompanhou na consulta. Após os exames clínicos, essa pediatra faz a seguinte pergunta ao guri:

- Se aqui, nesse consultório chegasse uma fada mágica capaz de realizar qualquer desejo seu, o que você pediria a ela?

Ele não titubeou, prontamente respondeu:

- Queria não fazer o que faço quando estou com raiva.

O final dessa história é feliz!

A pediatra o encaminhou para um tratamento especializado e conseguiu sensibilizar a mãe sobre a necessidade desse tratamento médico. Pouco a pouco o guri conseguiu controlar sua impulsividade e seguiu seus estudos.

Com essa narrativa busco lembrar pais e educadores de que nem sempre as crianças consegue ter um controle total de seus sentimentos e comportamentos. Elas estão em fase de amadurecimento, suas habilidades e aprendizagens ainda estão em construção. E venhamos e convenhamos, nós adultos temos mesmo controle de nossas emoções e ações? Será que nunca perdemos o controle e fizemos algo que nos arrependemos profundamente? Nunca agimos por impulso? Sempre conseguimos nos acalmar ante uma situação de forte pressão e stress?

Quando estamos fora de nós mesmo, cabe ao outro que está mais fortalecido nos acalmar e se necessário nos conter. Nesse sentido, o outro atua como uma força externa que nos protege do desatino interno. E o que ajudaria a fazer a passagem do desatino para o autocontrole? Vejam alguns exemplos:

  • Retirar a pessoa da situação de tensão. Sair da cena dramática, levando a pessoa para um espaço mais neutro, ajuda a mudar o estado de ânimo de quem está fora de controle;
  • Falar com a pessoa em um tom mais baixo;
  • Manter o contato visual, olho no olho;
  • Assumir uma postura corporal que não dê a impressão de provável ataque, cuidado com os gestos;
  • Algumas crianças necessitam ser envolvidas em um abraço apertado para que elas voltem a respirar normalmente;
  • Em algumas situações a criança tem que ser contida pela força corporal do adulto.

Esse último exemplo merece maiores esclarecimentos, pois a contenção protetiva - Restrição Física Protetora (DURRANT, 2008), não é o mesmo que violência física. É essencial que pais e educadores compreendam bem essa diferença. A fim de contribuir com essa diferenciação, compartilho abaixo um trecho de minha tese:

“A violência física* como método punitivo disciplinar pode ser aplicada de muitas formas ao corpo da criança:

com a mão (palmadas nas nádegas, tapa no rosto ou na cabeça, pancada na mão, puxar as orelhas, puxar os cabelos ou beliscar) ou por meio do uso de um objeto (régua, cinto, colher de pau, fio de extensão, chinelo, escova de cabelo, rolo de macarrão, vara, chicote, mangueira de borracha, raquete mata-mosca, cabide de arame, pedra, bastão de beisebol, vara ou pedaço de pau). Alguns tipos de violência física não envolvem bater na criança, sendo o sofrimento provocado pelo desconforto; exemplo desse tipo de violência é obrigar a criança a se manter numa posição desconfortável ou ficar imóvel, de joelhos em cima de objetos duros (grãos crus de arroz ou milho, lápis, pedras), reter as excreções corporais, fazer um exercício extenuante ou ingerir substâncias estragadas ou de sabor aversivo (sabão, molho de pimenta malagueta, suco de limão) (DURRANT, 2008, p.57-58).

Durrant (2008) esclarece que o alvo central deste método punitivo disciplinar é o corpo da criança; no entanto, ele sempre apresenta elementos que envolvem violências psicológicas. Exigir que a criança dobre o corpo e que retire parte de suas roupas antes de bater nelas cumpre o objetivo de envergonhá-las e humilhá-las. Solicitar que as crianças busquem os instrumentos que vão ser usados para agredi-las (como cortar um galho de árvore, recolher uma pedra), tem a função de intensificar o medo e a apreensão. E mesmo o uso da própria “força física por parte de um adulto, que é maior e mais forte que a criança, transmite claramente a mensagem de poder, controle e intimidação” (DURRANT, 2008, p.58).

No entendimento desse pesquisador é fundamental distinguir o uso de violência física como método educativo punitivo disciplinar da Restrição Física Protetora e da Autodefesa. A restrição protetora não tem a função de punir, e sim proteger a criança ou outras pessoas de lesões físicas. Quando um adulto segura a mão de uma criança pequena para que ela não coloque o dedo na tomada ou agarra com força o braço de um menino para que ele não atravesse uma rua perigosa, seu objetivo imediato é proteger a integridade física da criança e não puni-la. O mesmo ocorre nas situações que envolvem a autodefesa, a força ou a agressividade é utilizada não para corrigir um comportamento, e sim para alguém se proteger de uma violência”.

Saiva mais sobre a exposição do aluno da escola de Macaé:

Vídeo mostra menino atirando materiais no chão em escola

Direção de escola é afastada após vídeo de aluno destruindo sala no RJ

 


*Na literatura nacional e internacional, grande parte dos pesquisadores que estudam a violência física na educação e no cuidado de crianças e adolescentes denomina a prática de provocar dor, aversão, mal-estar ou sofrimento para punir ou evitar um comportamento de Castigo Corporal ou Castigo Físico. Em minha pesquisa de mestrado e, agora, na de doutorado adoto o termo violência física como método educativo punitivo disciplinar. Elejo essa denominação por considerar significativo que a própria conceituação deixe explicite a ideia de violência.

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