16 de jun de 2014

Pesquisas internacionais correlacionam violências na infância com doenças neuropsiquiátricas ou neuropsicológicas

Daniel Emídio

 

 

 

Reproduzo abaixo a compilação realizada por Daniel Emídio de Souza* de alguns resultados de pesquisas internacionais que correlacionam violências na infância com doenças neuropsiquiátricas ou neuropsicológicas.

 

Observações iniciadas ainda em 1987, pela obtenção de EEG(s) de pacientes “adultos que haviam sido vítimas de incesto” o autor, Dr. Robert W. Davies (da Escola de Medicina de Yale) descobriu que 77% dos pacientes apresentavam exames anormais. Em pesquisas subsequentes pesquisadores confirmaram esses achados através de imageamento por Ressonância Magnética (IRM). Esses novos achados também foram associados aos maus tratos precoces. Nos exames de imageamento uma área cerebral de nome hipocampo tinha o seu volume diminuído, assim como a amigdala, outra área neurológica. O sistema límbico – células que formam uma massa cinzenta – é responsável, em grande parte, pelo comando das “emoções” e “comportamentos sociais”. É bom que as pessoas saibam: “as emoções” e os “comportamentos” sociais não são apenas aprendidos. Dependem de um sistema neuroquímico preservado. As agressões físicas, morais e o abandono repercutem grosseiramente sobre as estruturas neurológicas, como essas provas laboratoriais estão fartamente a demonstrar.

Observe a maneira como um neurocientista fala desse fenômeno: “...essas descobertas sugerem um intrigante modelo na qual o distúrbio de personalidade limite pode aparecer. A integração reduzida entre os hemisférios e um corpo caloso menor pode predispor os pacientes a deslocar-se abruptamente de estados dominados pelo hemisfério esquerdo para estados dominados pelo hemisfério direito, com percepções e memórias emocionais muito diferentes”. Essa condição – que tem relação com maus tratos sofridos na infância – interfere intensamente na maneira como a pessoa vê o mundo, seus amigos ou o trabalho. Além disso, a “irritabilidade elétrica límbica pode produzir sintomas de agressão, exasperação e ansiedade”. Mas o que estaria por trás de tudo isso? Acontece que as situações de “estresse” precoce agem como um “agente tóxico”, impedindo o desenvolvimento normal do cérebro, “levando a problemas psiquiátricos duradouros” (1).

Há uma discussão derivada dessas pesquisas e observações porque ainda não existe clareza sobre os processos como tais ocorrências encontram-se implantadas no processo evolutivo da espécie humana. Uma sugestão curiosa que pode nos ajudar a entender vem da possibilidade de que nossos antepassados não eram agressivos ou violentos com as crianças. Bater, castigar, punir, submeter as crianças a tais experiências “estressantes” é um dado relativamente novo na história da humanidade, um dado que era desconhecido nos milhares de anos do período pré-histórico. As futuras pesquisas também poderão nos esclarecer sobre esse dado. O certo, no momento, é que essas modificações cerebrais, em decorrência dos maus-tratos, parecem se enquadrar na categoria de “processos adaptativos”. Seria uma forma de adaptação do indivíduo a um mundo cruel e violento em meio a uma comunicação contraditória e enlouquecedora do tipo “bater para educar” ou “bater por amor”.


(1) - Frank W. Putnam – Children’s Hospital Medical Center – Cincinnati and Bruce D. Perry – Alberta Mental Health Board – Canadá.


Em 1997, a equipe de médicos pesquisadores do McLean Children Hospital (Ma), estudou um grupo de 15 pacientes psiquiátricos, crianças e adolescentes vítimas de violência física e sexual, comparados com 15 voluntários apresentados como normais. Resumindo os resultados encontrados, não apenas obtidos na observação clínica, mas, sobretudo a partir do imageamento cerebral (MRI): o córtex cerebral esquerdo era MENOS desenvolvido que o lado direito (nos pacientes psiquiátricos), sendo todos destros (córtex esquerdo dominante) e, também, o hemisfério cerebral esquerdo era MENOS desenvolvido. Os hemisférios esquerdos de pessoas vitimadas pela violência desenvolvem-se significativamente menos do que deveriam. São anormalidades significativas e que produzirão manifestações clínicas.

Nesses exames laboratoriais há outro achado importante que pode ser resumido assim: O trauma na infância está associado à menor integração entre os hemisférios cerebrais esquerdo e direito. A integração entre os hemisférios é feita pelo “corpo caloso”. (O Corpo Caloso é uma estrutura anatômica neurológica complexa, formada por milhões de projeções axônicas contralaterais, e encarregada da “comunicação” entre os hemisférios cerebrais).

As pesquisas por imageamento revelam: crianças vítimas de abuso (agressões) e crianças vítimas de abandono têm o corpo caloso diminuído. Em meninos o dano era MAIOR no abandono e menor nas agressões. Em meninas a agressão sexual produzia o MAIOR dano (partes centrais do corpo caloso). Esta condição de dano neuroanatômico pode estar relacionado àquilo que os psiquiatra chamam genericamente “transtornos dissociativos”, “manifestações de hiperatividade e perturbações da atenção”

As alterações, principalmente aquelas relacionadas aos sistemas de neurotransmissores, também estão relacionadas, na clínica, à presença de sintomas depressivos (adolescentes e pacientes jovens).

Quando associado à exasperação, agressividade, ansiedade e alteração eletroencefalográfica de lobo temporal AUMENTA MUITO a incidência de comportamentos autodestrutivos e “uma forte propensão para o suicídio” (3). Todas as alterações encontradas nesses exames podem ser relacionadas às experiências de sofrimentos vividos pelas crianças e adolescentes no relacionamento com adultos agressivos e violentos. Com estamos observando a prática de violência em nome do amor ou da educação não produz crianças educadas, mas produz crianças e adolescentes doentes. Na clínica, observaremos que, embora a ajuda psicológica (psicoterápica) seja importante nem sempre é suficiente. Com frequência as crianças ou adolescentes, que vieram dessas experiências, precisam ser medicadas. Pais e professores não devem (se possível) confundir “sintomas” com “educação”, o que, aliás, não é raro.


A sociedade colhe o que planta.

No texto anterior levantamos a possibilidade de compreensão das perturbações neuropsiquiátricas derivadas de maus-tratos na infância como eventos adaptativos. Será, talvez, conveniente lembrar que esses “maus tratos” vão desde pequenos e (quase) silenciosos atos da vida cotidiana e presentes na relação com a criança, até atentados completamente visíveis contra a vida e integridade da criança.

Os pesquisadores que desenvolvem essas ideias, ideias das perturbações neuropsiquiátricas, apresentam vários argumentos – segundo um modelo evolutivo – para a compreensão dessa possibilidade (eventos adaptativos) e apontam por essa via a grande capacidade de adaptação dos seres vivos e o desencadeamento dessas capacidades pela influência do meio ambiente ao longo dos milênios.

No entanto, o que chama a atenção é o alto custo dessa adaptação que, na prática, resulta em uma grave desadaptação psicológica e social e muitas vezes leva o adolescente ou o adulto jovem:

  • a grandes sofrimentos;
  • dificuldade de adaptação social;
  • ao desenvolvimento de doenças;
  • a uma variedade de problemas psiquiátricos;
  • a perturbação dos processos criativos;
  • a aceleração dos processos de envelhecimento e
  • “inclui um alto risco de suicídio”.

Agora podemos compreender melhor e afirmar que “a sociedade colhe o que planta, na maneira como cuida de seus filhos” (1).

Finaliza seu artigo no “Scientic American” (2), o Dr. Martin Teicher, com as seguintes e sábias palavras: “...o estresse (o sofrimento) esculpe o cérebro (através da morte de neurônios) para exibir variados comportamentos antissociais, embora adaptativos. Se vem em forma de trauma físico, emocional ou sexual, ou por meio de exposição a guerras, fome ou doenças , o estresse pode desencadear uma onda de mudanças hormonais (já conhecidas laboratorialmente) e a liga permanentemente o cérebro de uma criança para lidar com um mundo cruel. Por meio dessa cadeia de eventos, a violência e o abuso passam de geração em geração, tanto quanto de uma sociedade para a seguinte”.

“A dura conclusão a que chegamos é que temos a necessidade de fazer muito mais para assegurar que o abuso infantil nem venha a ocorrer, porque uma vez que essas alterações-chave ocorram no cérebro, pode não existir um caminho de volta”.

Preciso da licença de todos os possíveis leitores desse texto para repetir essa última ideia: “...pode não existir um caminho de volta”.


(1) - Dr. Martin H. Teicher – médico, psiquiatra de crianças.
(2) – “Wounds that time won’t heal: “ – Dr.Martin H. Teicher, in Cerebrum, Vol 2, Dana Press, 2000 e Scientific American – Br. Vol. 1 nº 1.
(3) – (1997, Andersen, Martins H. Teicher e Jay Giedd – National Institute of Mental Health).


*Daniel Emídio de Sousa - médico psiquiatra , com formação em Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise de São Paulo e membro da Sociedade de Psicanálise de Brasília e do Núcleo de Psicanálise de Goiânia. As informações acima foram compartilhadosno mural de seu perfil do Facebook nos dias 9 e 10 de junho de 2014.

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