23 de jun de 2014

Minha primeira vez – por Clara Averbuck

Os nomes do amor filme

Anseio pelo dia em que nenhuma menina passe pelo que Clara passou! Anseio pelo dia que em os meninos sintam vergonha dos homens que no passado desrespeitavam os corpos femininos ou violavam sexualmente as mulheres.


 

Eu tinha 13 e era fã de Skid Row, Faith No More e Ramones. Pintava os cabelos de preto azulado, usava um piercing no nariz e era gamada num menino cujo apelido era Samurai. Ele era mais velho, tinha uns 16, e não era da minha escola.

Tinha uma festa e seria na casa do tio de um colega.

Me arrumei toda linda & roqueira com aquele meu cabelo até a cintura e minha camiseta dos Ramones e fui. Cheguei e procurei Samurai de cara. Ele nunca tinha me dado bola, mas eu sabia que tinha crescido naquele ano e que ele talvez me notasse. Eu tinha até peitos! Vai que, né?

A casa tinha uma piscina e um bar lá atrás.

E foi pra lá que eu fui. Era onde estavam os meninos mais velhos, né? O que eu ia querer com os pirralhos da escola?

E foi lá que eu tomei minha primeira dose de uísque. E a segunda, e a terceira e outras.

E foi lá que eu finalmente consegui beijar o objeto do meu desejo, depois de tanto tempo.

E foi lá, no banheirinho da casa dos fundos ao lado da piscina, que eu fui estuprada.

Não foi o Samurai.

Mas os moços que lá estavam acharam que ora, se essa menina está bêbada e praticamente desacordada depois de vomitar muito, é claro que vamos passar a mão. Vamos levar pro banheiro. Vamos abusar e enfiar garrafas nela, porque ela não devia ter dado esse mole de beber tanto perto dos meninos mais velhos. Quem mandou dar mole?

Ainda me largaram de cara na pia e eu fiquei com o olho direito roxo.

Eu não sabia que a culpa não era minha. Eu não sabia que eles deviam ser punidos. Fiquei com raiva e culpa. Mas não fiquei com vergonha.

Segunda-feira, quando cheguei na escola, a história tinha se espalhado. E sabe qual era a história?

A Clara é uma vagabunda e deu pra três no banheiro da festa.

TODA a escola estava falando isso, com exceção de uma garota mais velha, que me disse que eu não deveria ficar triste. Mas eu não estava triste, eu estava era achando todo mundo muito babaca e morrendo de raiva. Como é que essas pessoas estavam falando isso? Como é que elas podiam afirmar o que tinha acontecido? Por que ninguém me perguntou nada? Ora, era a Clara, a maluquinha, a filha de artista, a que não se importava com a opinião dos outros, devia ser verdade.

Esse foi o momento em que eu vi que o mundo era escroto. Esse foi o dia que eu lembro nitidamente de olhar pra toda aquela gente falando de mim no intervalo e pensar: NINGUÉM SABE NADA.

Com 13 anos eu fui estuprada.

Eu só falei pros meus pais anos depois porque achei que eles também me culpariam. Achei que eles ficariam putos comigo e que eu não poderia mais sair. Achei um monte de coisas erradas. A coisa mais errada disso tudo foi achar que a culpa tinha sido minha. Que eu não deveria ter bebido. Que eu não deveria ter ficado no meio desses caras. Que eu “ter peitos” e querer ser notada e parecer mais velha era parte do problema.

Eu só soube que a culpa não era minha muitos, muitos anos depois. Depois dos 15, depois dos 20, depois até dos 30.

Não vou entrar nos detalhes das sequelas emocionais que esse evento me deixou. Não vou contar de alguns traumas que tenho até hoje por causa de uns caras que muito provavelmente não têm sequer noção do que fizeram. Pode até ser que eles tenham família e filhos hoje, pode ser  que lembrem disso como “uma menina bêbada que zoaram numa festa”, coisa de adolescente.

Isso aconteceu há 22 anos.

Nada mudou. Acho até que piorou. Se tivesse acontecido hoje, eles provavelmente teriam registrado e espalhado, como fizeram esses babacas em Pinhal, no mesmo Rio Grande do Sul onde nasci.

E o que esses babacas estão dizendo?

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O ciclo sem fim de culpar a vítima. 74 pessoas curtiram isso.

Ela estava pedindo. Ela tinha bebido. Se ela foi para uma casa com uns caras é porque estava querendo.

Ainda não ensinaram os meninos a não estuprar. Ainda não ensinaram a eles que as mulheres não são corpos disponíveis. Ainda não ensinaram que quem cala não consente. Ainda não ensinaram que isso é crime.

Não, não são as meninas que têm que se cuidar porque “sabem como são os meninos” Não, isso não é instinto. Não, isso não é normal.

Isso é a nossa sociedade misógina punindo as mulheres desde cedo. “Tri de boa”, com outras meninas reproduzindo essa cultura nojenta de culpar a vítima, porque também não ensinaram a elas que pode acontecer a qualquer uma.

Isso tem que ter fim.

Contar a minha história depois de tanto tempo é romper com um silêncio que deveria ter sido rompido na época e que não deve persistir.

A culpa nunca, nunca, nunca, nunca, nunca é da vítima.

Toda a minha força e meu amor pra essa menina que foi estuprada por esses imbecis. Espero que ela esteja bem cuidada e tenha consciência de que a culpa não foi dela.

Não vai ficar tri de boa não, filhotes. Chega disso.

Clara Averbuck – escritora e administradora do site Lugar de Mulher

 


Fonte: Lugar de Mulher, em 02 de junho de 2014.

Foto: cena do filme “Os nomes do amor”, capturada no StoryBook

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