5 de ago. de 2020

Hannah Arendt e suas histórias britadeiras de ilusões

Bolsonaro ergue cloroquina para apoiadores - FOTO: Reprodução/Facebook


A cultura fascista (STANLEY, 2018) busca promover uma identificação total do individuo com a propaganda (mentira contada mil vezes) disseminada pelo “Líder”. Todavia, a propaganda não cresce em terreno infértil, ela se enraíza em alguma crença que é constitutiva da identidade do sujeito. Do ponto de vista subjetivo, o terreno fértil para essa cultura são as pessoas que apresentam uma elevada rigidez de pensamento e que se apegam piamente ao julgamento externo para se valorar como indivíduo. A desconstrução de uma crença basilar de uma identidade é vivenciada por essas pessoas como um ataque frontal ao seu eu ideal (homem forte, mulher escolhida, portador do bem, ser superior aos demais, dentre outros exemplos).

A morte do senhor Angel Spotorno é mais um triste e fatal exemplo da dificuldade que alguns sujeitos têm de enfrentar suas autoverdades. Angel Spotorno tinha 74 anos e como muitos macristas fanáticos promoveu campanhas contra as medidas de isolamento argumentando que elas seriam “uma tentativa do governo de Alberto Fernández de reinstalar o comunismo e atentar contra a liberdade das pessoas”. De acordo com o relato de sua prima Marita Riera, “dos 90 dias que passamos entre o início da quarentena e a sua morte, creio que ele passou ao menos 85 fora de casa”.

Ángel Spotorno foi encontrado morto em seu apartamento por uma equipe médica depois que sua filha acionou o serviço de emergência por que seu pai não atendia as chamadas do interfone. A investigação de óbito realizada pela equipe de legistas concluiu que sua morte foi causada pelo coronavírus. Alguns familiares acreditam que o aposentado escondeu os sintomas para não ter que admitir que estava com a doença.

Trago essa triste história para colocar em questão outra crença que circula por aí, que é a ideia de que quando a morte por Covid 19 deixar de ser uma estatística e assumir a forma de um rosto amado as pessoas vão se conscientizar da gravidade da pandemia. Lo siento, ¡pero no! Sei que sou a portadora de mais essa má noticia, entretanto tenho que trazê-la a vocês por que acredito que ilusões não irão nos proteger. E para dar mais potência a minha argumentação, trago duas histórias narradas por Hanna Arendt no livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, que são duas potentes britadeiras de ilusões. Vamos à primeira história:

“Reck-Malleczewen, que mencionei antes conta de uma mulher da Baviera, uma ‘lider’ que fazia discursos animadores aos camponeses no verão de 1944. Ela parecia não perder muito tempo com ‘armas milagrosas’ e com a vitória, encarando francamente a perspectiva de derrota, que não devia preocupar nenhum bom alemão porque o Führer ‘em sua grande bondade preparou para todo o povo alemão uma suave morte por asfixia de gás no caso da guerra ter um final infeliz’. E o escritor acrescenta: ‘Oh, não, não estou imaginando coisas, essa bela dama não é uma miragem, eu a vi com meus próprios olhos: uma mulher de pele amarela beirando os quarenta, com olhos enlouquecidos [...] E o que aconteceu? Os camponeses bávaros pelo menos a jogaram no lago local para esfriar sua entusiasmada prontidão para a morte? Eles não fizeram nada disso. Foram para casa, sacudindo as cabeças’” (ARENDT, 2007 pg. 126 a 127).

Segunda história:

“Essa história é contada pelo conde Hans von Lehnsdorff, em seu Ostpreussisches Tagebch (1961). Ele havia ficado na cidade como médico para cuidar de soldados feridos que não podiam ser evacuados e foi chamado a um dos vastos centros de refugiados do campo, que já estava ocupado pelo Exército Vermelho. Lá, foi perseguido por uma mulher que lhe mostrou uma veia varicosa que tinha havia anos e que queria tratar agora, porque tinha tempo. ‘Tentei explicar que seria mais importante para ela sair de Königsberg e deixar o tratamento para depois. ‘Aonde você quer ir?’, perguntei a ela. Ela não sabe, mas sabe que serão todos levados para o Reich. E acrescenta, supreendentemente: ‘Os russos nunca vão nos pegar. O Führer nunca vai permitir. Antes disso ele nos pões na câmara de gás’, Olho em volta, disfarçando, mas ninguém parece achar a frase fora do comum’. Dá para sentir que a história, como toda história verdadeira, está incompleta. Devia haver uma outra voz, de preferência feminina que, suspirando profundamente, respondesse: ‘E agora aquele gás tão bom e tão caro é desperdiçado com judeus!” (ARENDT, 2007 pg. 127).

 

O senhor argentino e as damas alemãs, em tempos e lugares distintos, demonstram que mesmo ante ao risco eminente da morte algumas pessoas não conseguiram encarar a realidade dos fatos. Para manterem-se leais às crenças que sustentam suas distorcidas autoimagens e autoverdades, homens e mulheres com as características citadas no início desse texto colocam-se em risco e na atualidade, podem até morrer de Covid-19. Pobres mortos tão ricos de razões!

Cida Alves – Goiânia, 26 de julho de 2020

REFERÊNCIAS:

ARENDT, Hannah, Eichmann em Jerusalém, Um relato sobre a banalidade do mal. Hannah – Hannah Arendt; tradução José Rubens Siqueira. – São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. 1ª ed. – Porto Alegre [RS]: L&PM, 2018.

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