2 de out de 2017

A relação entre a cobrança escolar na infância e adolescência e doenças cardiovasculares - Romes de Sousa e Ana Cristina Rebelo




ENTENDENDO A RELAÇÃO ENTRE A COBRANÇA ESCOLAR NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA E DOENÇAS CARDIOVASCULARES

Romes Bittencourt Nogueira de SOUSA(1); Ana Cristina Silva REBELO(1).



INTRODUÇÃO


A cobrança escolar é um potente desencadeador de estresse e ansiedade para crianças e adolescentes. Em virtude da hiperativação do Eixo Hipotálamo-Hipófise- Adrenal (HPA) e dos neurotransmissores envolvidos em reações de defesa e ansiedade, a cobrança escolar é também uma grande prediletora de risco para doenças orgânicas e mentais (Lipp, 2002; Monteiro, Freitas, Ribeiro, 2007; Peruzzo, 2008; Guan et al, 2014; May, Sanchez-Gonzalez, Fincham, 2016). Este trabalho trata-se de uma revisão sistemática por meio da qual investigou-se a relação existente entre o estresse e a ansiedade geradas pela cobrança escolar e a manifestação de doenças cardiovasculares.


METODOLOGIA

Durante os meses de maio a julho de 2017, foram levantadas publicações na base de dados PubMed utilizando os descritores: "school stress" AND "cardiovascular disease" e "anxiety school" AND "cardiovascular disease". Foram selecionados artigos que envolvessem cobrança escolar frente a crianças ou adolescentes e algum risco a saúde cardiovascular. Os trabalhos deveriam ter sido publicados últimos 10 anos. Não houve limitação de idioma.
 
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RESULTADOS

603 artigos foram levantados. Destes, 17 se encaixavam nos critérios de inclusão, mas apenas 09 apresentavam íntima relação com a temática do estudo, sendo, por tanto, incluídos no trabalho.



Abaixo segue a relação dos artigos incluídos nesta revisão (contendo autores, países, títulos, revistas e ano de publicação).




DISCUSSÃO

Os trabalhos confirmaram que o estresse e a ansiedade geradas pela cobrança escolar são preditores de risco para a saúde cardiovascular. Dentre as principais conclusões, tem-se que:

1) O eixo HPA é a principal via de conexão entre as consequências psicobiológicas oriundas da cobrança escolar e o comprometimento cardiovascular (Meenai, Sarkar, Biswas, 2011).

2) A cobrança escolar aumenta o predomínio simpático sobre o coração, levando a elevação da frequência cardíaca (FC) e ao consumo ineficaz de oxigênio pelo miocárdio (May, Sanchez-Gonzalez, Fincham, 2015).

3) A cobrança escolar eleva também os níveis circulantes de cortisol, adenocorticotróficos, neuropeptídio Y, nitrito e nitrato, o que repercute em aumento considerável no risco para cardiopatias (Xu et al, 2014; Yamano, Miyakawa, Nakadate, 2015).

4) Crianças com maior rendimento escolar na infância apresentavam pressão arterial diastólica (PAD) aumentada na adolescência, o que repercute no risco de aumento global da PA na vida adulta e terceira idade (Xu et al, 2014).

5) A suscetibilidade a cobrança escolar está ligada a fatores ambientais diversos. Indivíduos com outros estímulos estressores em seu meio (má condição financeira, má socialização, dentre outros), apresentam menor resistência ao estresse e a ansiedade, o que potencializa o risco para doenças cardiovasculares (Obradovic et al, 2010; Milanovic et al. 2012).

6) A atividade física é tida como uma alternativa para minimizar os efeitos deletérios da cobrança escolar sobre a saúde, porém, sem concordância plena entre os autores. (Lambiase, Barry, Roemmich, 2010; Jodkowska et al, 2012; Gerber et al, 2016).

REFLETINDO SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA

Apesar de escassos os estudos brasileiros sobre este tema, presume-se que os efeitos deletérios da cobrança escolar sobre a saúde sejam enormes para alunos que frequentam escolas focadas em preparação e resultados em vestibulares e ENEM. A imposição de cobranças excessivas por resultados em processos seletivos afeta significativamente a saúde e o bem estar do aluno. Esta realidade se torna ainda mais preocupante frente ao crescimento das taxas de transtornos de humor, atitudes parassuicídas, ideação suicida e suicídios consumados entre crianças e adolescentes. É preciso refletir a cerca de uma educação que fragmenta o aluno ao invés de integrá-lo, que o adoece ao invés de fortificá- lo. É preciso refletir sobre a finalidade da educação brasileira na atualidade.

CONCLUSÃO

A cobrança escolar é desencadeadora de estresse e ansiedade em crianças e adolescentes e produz efeitos adversos a curto e/ou longo prazo sobre a saúde cardiovascular neste público. É preciso criar estratégias, em saúde e educação para evitar ou minimizar estes danos, de modo a zelar pela saúde e bem estar integral do público estudantil.



Referências:


Gerber, Markus, et al. "Does Physical Fitness Buffer the Relationship between Psychosocial Stress, Retinal Vessel Diameters, and Blood Pressure among Primary Schoolchildren?." BioMed research international 2016 (2016).



Jodkowska, M., et al. "The frequency of risk factors for atherosclerosis in youth aged 16 and 18 years- students of upper-secondary schools in Poland." Medycyna wieku rozwojowego 16.2 (2011): 96-103.



Lambiase, Maya J., Heather M. Barry, and James N. Roemmich. "Effect of a simulated active commute to school on cardiovascular stress reactivity." Medicine and science in sports and exercise 42.8 (2010): 1609.



Lipp, Men. "O estresse em escolares, 2002." Psicologia Escolar e educacional 6.1.May, Ross W., Marcos A. Sanchez-Gonzalez, and Frank D. Fincham. "School burnout: increased sympathetic vasomotor tone and attenuated ambulatory diurnal blood pressure variability in young adult women." Stress 18.1 (2015): 11-19.



Meenai, Zafar, Nupur Sarkar, and Rakesh Biswas. "An unusual cause of school refusal." BMJ case reports 2011 (2011): bcr1020114902.



Milanović, Sanja, et al. "The CroHort Study: cardiovascular behavioral risk factors in adults, school children and adolescents, hospitalized coronary heart disease patients, and cardio rehabilitation groups in Croatia." Collegium antropologicum 36.1 (2012): 265-268.



Obradović, Jelena, et al. "Biological sensitivity to context: The interactive effects of stress reactivity and family adversity on socioemotional behavior and school readiness." Child development 81.1 (2010): 270- 289.



Peruzzo, Alice Schwanke, et al. "Estresse e vestibular como desencadeadores de somatizações em adolescentes e adultos jovens." Psicol. argum 26.55 (2008): 319-327.



Xu, Shaopeng, et al. "School performance affects adolescent blood pressure." Cardiology in the Young 24.3 (2014): 459-463.



Yamano, Yuko, Sanpei Miyakawa, and Toshio Nakadate. "Association of arteriosclerosis index and oxidative stress markers in school children." Pediatrics International 57.3 (2015): 449-454.



Monteiro, Claudete Ferreira, Jairo Francisco de Medeiros Freitas, and Artur Assunção Pereira Ribeiro. " Estresse no cotidiano acadêmico: o olhar dos alunos de enfermagem 11.1 (2007): 66-72.



(1) Departamento de Morfologia - Instituto de Ciências Biológicas (DMORF- ICB) - UFG. E-mail para correspondência: romesbittencourtsousa@gmail.com. Trabalho apresentado na IV Jornada Goiana de Psiquiatria, em agosto/2017.

Foto divulgação

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