16 de ago de 2013

COMO AINDA SOMOS BÁRBAROS!

Açoite com vara

QUANDO O TEMPO DO AÇOITE VAI ACABAR NA VIDA DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES?

PORQUE UM ADULTO EM SÃ CONSCIÊNCIA REIVINDICA PARA SI O PAPEL DE FEITOR NA EDUCAÇÃO DE SEUS FILHOS?

Vara Juizado da Infância

A foto acima está circulando nas redes socais e foi postada pelo perfil do Facebook identificado pelo nome de Rodolfo Preto Junior. Sobre a vara o senhor Rodolfo diz: “No meu tempo era assim e funcionava muito bem ...”

Por acreditar em uma educação humanista e cidadã, que concebe a criança como um ser vulnerável - por viver uma condição especial de desenvolvimento, e como um sujeito de direitos, sinto vergonha e tristeza ao ver circulando nas redes socais uma postagem que faz a apologia do açoite na educação das crianças e dos adolescentes.

Não posso deixar de me posicionar sobre esse claro ataque aos direitos humanos de crianças e adolescentes. Sinto-me na obrigação de enfrentar esse equívoco. A ideia de que bater educa é uma crendice antiga, mas como toda crendice precisa ser enfrentada e destruída. Bater não educa, como borra de café não cura umbigo de recém-nascido! Ao contrário, o pó de café é um importante fator de risco para o tétano neonatal e os castigos físicos e humilhantes são fatores de risco para comportamentos antissociais.

Não é verdade que a violência física prepara as crianças para serem pessoas responsáveis, cidadãos de bem. Ao contrário, ao longo desses últimos 70 anos, estudos internacionais e nacionais revelam uma clara correlação entre o uso de castigos físicos e humilhantes na educação de crianças e os comportamentos antissociais, tais como roubo e crimes contra a integridade física de outras pessoas.


Deixo abaixo apenas três exemplos simbólicos:

Pesquisa Nacional – Simone Assis (Claves – Fio Cruz)

Os jovens que sofrem violências intrafamiliares do tipo físico severo, psicológico e sexual são:

3,2 vezes mais transgressores das normas sociais;

3,8 vezes mais vítimas da violência na comunidade;

3 vezes mais alvos de violência na escola do que os jovens cujo ambiente familiar é mais solidário e saudável (ASSIS, 2004).

Pesquisas Internacionais

Os estudos antropológicos de Margaret Bacon e seus companheiros, em quarenta e oito sociedades da África, Américas do Norte e do Sul, da Ásia e do Pacífico Sul, demonstraram que a prática de educação das crianças estavam associadas à frequência e a tipos de crimes.

Bacon e seus parceiros descobriram que as sociedades em que os pais eram predominantemente dedicados tinham frequência mais baixa de roubo do que aquelas em que os pais eram rigorosos de um modo geral. E mais, esses estudos evidenciaram que o treinamento ríspido e abrupto para a independência associa-se a elevadas taxas de crime pessoal, isto é, a atos cujo intuito era ferir ou matar outras pessoas.

Um estudo com jovens de Samoa e Tonga [...] mostrou que aqueles com comportamento antissocial (fugir de casa, problemas com álcool e drogas, delinquência) mostraram uma probabilidade substancialmente maior de serem disciplinados com castigo corporal (61 % dos jovens de sexo masculino; 38 de jovens do sexo feminino) que aqueles sem essas dificuldades (8% de jovens do sexo masculino; 5 % de jovens de sexo feminino). As maiores diferenças familiares entre as crianças com e sem problema de comportamento eram seus métodos de disciplina. [...] Num estudo longitudinal de todo o território dos Estados Unidos, que controlava a idade e a etnia da criança, bem como a situação maternal e conjugal, Gunnoe e Marine [...] concluíram que o castigo corporal estava associado a um aumento subsequente de comportamento antissocial em crianças de todas as idades e grupos étnicos (DURRANT, 2008, p. 83 e 84).


Sei que muito precisamos fazer no sentido de desconstruir a crendice de que bater educa, mas espero que um dia a otimista profecia do filósofo Ghiraldelli se realize:

Haveremos de até rir desse projeto de lei [PL 7672/2010]. Poderemos lê-lo e, então dizer, nossa, veja só, éramos tão bárbaros em 2010 que até tivemos de fazer uma lei para que nós mesmos não batêssemos em nossos filhos. Podemos evoluir de um modo a estranhar essa lei de hoje tanto quanto estranhamos que, no início do século XX, a vacina obrigatória, ministrada pelo Estado, tenha causado uma verdadeira revolta, uma rebelião de rua até com conotação política” (GHIRALDELLI, 2011).

 


Fontes:

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo, escritor e professor da UFRRJ - Fonte: Postado no blog de Paulo Ghiraldelli Jr em 29 de julho de 2010.

A foto do açoite com vara foi capturada na reportagem Afegãs escapam de casamento forçado, não de açoite

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